A Escala de Roger ou o Pêndulo das Aptidões
- Roger

- 30 de mar. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 1 de abr. de 2024
“Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito, e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito.”
(Lucas capítulo 16, versículo 10)
Há muito tempo, a ideia de escrever esta provocação está na “geladeira”; os motivos não são muitos, mas eram suficientes para manter guardada.
Em um mundo onde a fila para ofender, desconstruir, discriminar, diminuir, desclassificar, ou qualquer coisa equivalente, é virtualmente interminável, adicionar mais um elemento que poderia engrossar aparentemente um caldo já excessivamente encorpado seria um desperdício de tempo e energia.
Principalmente quando a intenção não é essa.
Além disso, é sabido por todos que o ser humano é o único ser vivo capaz de dar diferentes versões para um mesmo fenômeno; qualquer tentativa, por mais esmerada e cuidadosa que seja, sempre vai permitir que outras formas de ver a mesma coisa sejam levantadas, o que não deixa de ser saudável e edificante.
Por fim, e por consequência imediata do parágrafo anterior, somos apenas capazes de vislumbrar recortes, uma vez que em maior ou menor grau, o que sabemos, o que ignoramos, o que tememos e o que esperamos acaba tirando a possibilidade de vislumbrar o todo, se é que isso seja realmente possível.
Ressalvas feitas, a provocação a seguir consiste na combinação de dois componentes presentes nas relações humanas em geral, e que costumam aparecer com mais evidência nas relações profissionais e político-representativas: a aptidão e a intenção.
Essa “mistura de duas tintas” não é, certamente, novidade para ninguém; entretanto, isolar estas duas características, das quais lançamos mão em diversas situações (quando contratamos alguém para algum tipo de trabalho, ou para tomar conta dos filhos, seja para escolher o parceiro ou parceira de vida, seja para avaliar os futuros genros e noras, por exemplo), principalmente quando a finalidade desta ou daquela escolha tem por trás algo de nosso interesse, parece trazer um colorido ilustrativo com alguma substância.
A resultante desta combinação, quando se olha mais de perto algumas organizações, pode trazer respostas no que diz respeito aos resultados esperados e os obtidos. Será que aquele time de futebol investiu mais nas capacidades do que na boa fé dos seus jogadores? Será que aquela agremiação política optou preferencialmente ou até exclusivamente em selecionar pessoas de absoluta boa-fé, independentemente da capacidade de realização? Será que aquela empresa selecionou seu staff apenas pelas competências/habilidades, deixando de lado aspectos da personalidade ou do caráter?
Então, com base nesses dois marcadores, deixando sempre claro que as conclusões não são – felizmente – absolutas, é possível estabelecer uma escala com quatro pontos cardeais, onde os intervalos entre cada ponto cardeal funcionam como sintonia fina, nuances na quantidade de cada cor de tinta aplicada.
Para facilitar e simplificar a nomenclatura, atribuiu-se o termo “apto” para designar a pessoa que reúne muitas qualidades; o termo “não tão apto” para designar a pessoa que tem algumas qualidades, mas não tantas como o primeiro. Os termos “boa fé” e “má fé”, para designar o grau de intencionalidade da pessoa. As combinações, então, envolvem aptidão e boa-fé, ou o contrário, conforme vem a seguir:
A Apta/Apto de Boa Fé: o melhor dos mundos, o “tipo ideal” Weberiano, sonho de consumo da grande maioria dos empregadores, dos casadoiros e casadoiras; é a pessoa que tem grande capacidade de absorção de conhecimento, de aplicabilidade do conhecimento adquirido, que possui grande capacidade de realização, tem disposição constante para aprender e evoluir, eficiente, organizado e produtivo. Além disso, é honesto, leal e confiável. Entretanto, tais predicados deixam incomodados colegas e superiores, receosos de sua grande capacidade, a ponto de colocar em risco seus próprios cargos; o apto de boa-fé pode se constituir em um gigantesco obstáculo para pessoas que desejam burlar leis, normas ou até perpetrar irregularidades ou crimes, porque esta pessoa é capaz de captar e farejar de longe tais intentos. Via de regra, é muito difícil os melhores ocuparem os melhores postos justamente porque se recusam a conquistar tais posições através de atalhos ou mecanismos escusos.
A Não Tão Apta/Apto de Boa Fé: muito provavelmente tenha as mesmas capacidades e integridade moral da primeira, apenas evolui mais lentamente ou seu processo de crescimento geral seja de outro tipo de referencial; tem grande disposição em aprender com seus acertos e principalmente com os equívocos, pois reconhece a oportunidade de evoluir. Pode não ter as habilidades superlativas da primeira, mas procura compensar com empenho. É sempre muito grata pelas oportunidades que recebe, fazendo o possível para merecer eventuais reconhecimentos. Igualmente honesta e confiável, pode nem sempre ter ambições como as demais combinações, e por isso costuma ser a pessoa ideal nas organizações: como dificilmente ameaça quem está acima, e jamais correrá riscos de involuir, costuma ter longevidade nas organizações que participa; até porque, sendo capaz de trabalhar por si e pelos outros – principalmente pelos de má fé – torna-se indispensável pois, afinal de contas, alguém precisa trabalhar.
A Não tão Apta/Apto de Má Fé: aqui, o elemento novo é outra tinta, que dá novas cores e tons para a conduta da pessoa; pode até ter as mesmas capacidades da pessoa acima, no entanto, é a forma como canaliza seus conhecimentos é que a define. Tende a ser desagregadora, indulgente, procura sempre os atalhos para atingir seus objetivos, e um baixíssimo senso coletivo. Atribui para si atos realizados pelos outros, distribui a responsabilidade dos seus equívocos para qualquer um que esteja desatento, quase nunca assume a responsabilidade dos seus atos, quando confrontada, ainda que em flagrante. Tem quase sempre uma desculpa para tudo, denotando uma incrível capacidade de improviso e imaginação, só que voltada para seus próprios interesses. A falta de disposição para evoluir e a constante disposição em dissimular e provocar problemas pode ser de tal forma destrutiva, que ninguém quer a pessoa como colaboradora. Baixíssima confiabilidade.
A Apta/Apto de Má Fé: pode ser o pior dos mundos, dada a sua capacidade de atingir seus objetivos moralmente discutíveis com maestria sem, contudo, ter que responder pelos atos espúrios que pratica. Tem plena consciência das suas atitudes mal intencionadas, capacidade de planejamento, organização, disciplina e execução, inclusive, mantendo senão incólumes ou ao menos insuspeitas, a sua imagem e as suas incursões em atos reprováveis. Costuma não só apagar seus rastros como se acercar de colaboradores os quais, em posições estratégicas, auxiliam a pessoa a evitar ser flagrado ou responder pelos seus delitos. Tem grande capacidade agregadora, pois se beneficia das pessoas que se aproximam dela, seja para dar um ar elevado social e ou politicamente, seja para lançar mão do prestígio delas para atingir seus objetivos. Em virtude da pouco comum capacidade de percepção do que está à sua volta, dificilmente é pego de surpresa quando sua integridade é colocada em risco, sabendo como usar seus talentos e os dos outros para driblar situações adversas. Seja socialmente, seja na carreira, seja na política, constrói os próprios atalhos para subir nessas organizações, sempre se garantindo em ter à sua volta pessoas aptas e de boa fé, que garantem estabilidade e eficiência a seu favor. Sua melhor capacidade talvez seja a de que quase ninguém consegue perceber ou distinguir a pessoa apta de má fé da pessoa apta de boa-fé, quando está diante de uma e de outra. Quando e se descobrem algum delito, normalmente já é tarde: a pessoa ou já deixou a carreira, ou o crime prescreveu, ou tem a seu favor mecanismos de foro privilegiado, que contribuem para a prescrição dos ilícitos.
Todos, em algum momento, conheceram pessoas como estas.
Todos, em algum momento, trabalharam com pessoas como estas.
Todos, em algum momento, amaram pessoas como estas.
Todos, em algum momento, votaram em pessoas como estas.
Todos, em algum momento, tiveram as tintas da aptidão e da boa-fé diante de si.
Cada um, porém, em algum momento, escolheu qual mistura de tintas usar.
Continuaremos sempre sendo não o fruto dos nossos talentos, mas das nossas escolhas.
Música do dia: “Pássaro”, de Sá & Guarabyra

Créditos: Freepik






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