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Tempo: Um Opressor Silencioso

  • Foto do escritor: Roger
    Roger
  • 9 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Não existe liberdade de fato sem tempo para vivê-la.”



Existem várias formas de exercer o poder e o controle sobre os indivíduos.


O tempo, esse elemento aparentemente neutro que rege a vida de todos nós, carrega uma potência de opressão tão antiga quanto as próprias desigualdades humanas. Não grita, não se impõe pela força, não deixa marcas visíveis na pele; sua violência é sutil, contínua e, por isso mesmo, mais eficiente. Ele se acopla às estruturas sociais, ajusta-se às dinâmicas econômicas, molda comportamentos — e faz tudo isso sem alterar a cadência dos ponteiros.


Quando olhamos de perto, percebemos que o tempo não passa igualmente para todos.


Ele se distribui de acordo com a condição socioeconômica, como se fosse um privilégio e não um bem comum. Uma reflexão mais apurada aponta na direção de que o controle do próprio tempo — essa liberdade quase invisível — é diretamente proporcional ao lugar que cada indivíduo ocupa no tecido social.


Os trajetos diários ao trabalho, tal como uma romaria profana, onde os cânticos e ladainhas são substituídos pelo ronco dos motores, o canto dos pneus, os assovios dos trilhos; a qualidade dos meios de transporte, a quantidade de horas semanais dedicadas a atividades laborais: tudo isso molda a vida concreta das pessoas.


Trabalhar longe de casa significa desistir, pouco a pouco, de conviver com familiares, vizinhos e com a comunidade que se insere; de aperfeiçoar estudos, de cultivar relações afetivas mais saudáveis. É como se os dias, sempre insuficientes, obrigassem as pessoas sem domínio sobre o tempo a experimentarem suas vontades de maneira apressada, fragmentada, quase clandestina — ou, pior ainda, as obrigassem a renunciar aos próprios sonhos antes mesmo de experimentá-los.


Tempo, tempo, tempo, tempo.


Mas essa desigualdade crônica não se restringe aos deslocamentos ou às jornadas extensas. Ela se infiltra em outras dimensões cotidianas com igual discrição. Nas filas intermináveis dos serviços públicos — filas que começam de madrugada, filas que se renovam mesmo quando o sol se põe —, percebe-se como o tempo é subtraído daqueles que mais precisam dele.


Para muitos, um documento, uma consulta, uma assinatura exigem horas que não podem ser recuperadas. Enquanto isso, quem detém recursos paga para não esperar. O tempo, nesse caso, transforma-se diretamente em capital.


A saúde talvez seja o exemplo mais brutal dessa assimetria. O tempo de espera determina o grau de sofrimento; a velocidade do atendimento pode significar cura ou agravamento. E aqui, mais uma vez, a desigualdade se faz sentir: alguns esperam semanas, meses, anos; outros resolvem tudo em poucas horas. O tempo, nesse cenário, não apenas oprime — ele decide quem terá chance de viver melhor e quem aceitará o fardo silencioso da demora.


Tempo, não para no porto, não apita na curva, não espera ninguém*.


A desigualdade temporal também se inscreve no ambiente familiar. Pais que chegam tarde em casa, exaustos, compartilham com os filhos apenas migalhas de presença. A infância, com sua urgência de cuidado e atenção, não espera; o desenvolvimento emocional não aguarda o fim do expediente. Assim, a falta de tempo converte-se em dívida afetiva, que por sua vez repercute no futuro dessas crianças, reproduzindo desigualdades que se cristalizam antes mesmo da vida adulta.


O amor é apressado, desesperado, como um obstáculo entre o desejo e o sono. Contar como foi o dia, não dá tempo; abraçar com ternura e compartilhar boas energias, não dá tempo; chorar convulsivamente depois de um dia, ou um mês, ou mesmo um ano de anseios frustrados, não dá tempo. Sonhar com dias melhores… não dá tempo.


Às mulheres, sobretudo as de classes mais despossuídas, o tempo impõe um regime ainda mais severo. A dupla ou tripla jornada — trabalho remunerado, tarefas domésticas, cuidado com familiares — esgota qualquer margem de respiro. O tempo livre não é apenas escasso; ele é quase inexistente. A sociedade, ao naturalizar essa sobrecarga, transforma a própria ausência de horas disponíveis em ferramenta de contenção. Em silêncio, o tempo lhes diz: “não há espaço para você”.


A cidade também participa desse jogo silencioso. Nos bairros periféricos, onde equipamentos de lazer, cultura e serviços básicos são raros, cada deslocamento exige longas travessias. Até para descansar é preciso viajar. Até para se divertir é preciso se cansar. O tempo, aqui, opera como barreira simbólica: delimita quem pode usufruir do que a cidade oferece e quem deve contentar-se com o pouco que está ao alcance imediato.


Tal como os 7 a 1 do futebol, a jornada só não é igual porque a semana tem sete dias.


A educação, por sua vez, exige um tipo particular de tempo: aquele que se acumula e se viabiliza nos intervalos, nos momentos de leitura, no ócio criativo, na participação em atividades culturais. Todavia, para quem estuda à noite e trabalha o dia inteiro, esse tempo simplesmente não existe. O “tempo formativo” torna-se privilégio, enquanto a falta dele se traduz em competição desigualizada — não por falta de capacidade, mas por falta de horas.


Mesmo dentro dos lares, quando há idosos ou pessoas com deficiência sob cuidados constantes, a ausência de suporte público transfere a um único membro da família a responsabilidade por todo o cuidado. Esse indivíduo, quase sempre uma mulher, vê seu tempo dissolver-se na rotina extenuante, abrindo mão ou comprometendo a carreira, os estudos, descanso, vida social e afetiva. O cuidado, nesse contexto, se converte em abnegação forçada.


E há ainda a dimensão cultural: museus, cursos, espetáculos, vivências que ampliam o horizonte existencial requerem algo simples e raro — tempo. Para muitos, não se trata de falta de interesse, mas de impossibilidade material. O dia que deveria contemplar espaço para respirar, pensar, fruir, é engolido pela sobrevivência.


Há ainda o tempo que escorre silenciosamente pela palma das mãos, dissolvido nas intermináveis horas diante das “telas pretas” que carregamos para todos os lugares. Nelas, sons, cores, estímulos e vaidades se sucedem com a precisão de um mecanismo feito para capturar atenção e sequestrar presença.


Entorpecidos por essa torrente de microassuntos — urgentes apenas no universo que as telas inventam — empobrecemos de bom senso, tornamos rarefeito o pensamento profundo, substituímos experiências concretas por simulacros artificiais, nem sempre tão inteligentes.


E uma solidão homeopática, administrada em doses diárias, que não dói de imediato, mas corrói em silêncio: ao final, descobrimos que foram as telas, e não nós, que decidiram o destino de nossas horas.


Tempo Rei, ó Tempo Rei, ó Tempo Rei...**


Tudo isso revela a mesma lógica: o tempo é distribuído de forma desigual. Ele se acumula nas mãos de uns e escorre pelos dedos de outros. Para alguns, o tempo oferece possibilidades; para outros, impõe limites. Para uns, expande; para outros, encolhe. Assim, o tempo deixa de ser apenas o pano de fundo da vida e passa a ser um mecanismo sutil e sofisticado de estratificação social — um instrumento que amplia distâncias e reduz expectativas de bem-estar democrático.


No fundo, quando falamos de desigualdade, falamos também de tempo: quem tem acesso a ele, quem o administra, quem o perde, quem o desperdiça involuntariamente, quem o negocia e quem, por fim, é moldado por sua escassez. E é nessa distribuição silenciosa e desigual das horas que se revela uma das formas mais profundas de injustiça contemporânea: aquela que define, sem alarde e sem ruídos, o limite do que cada cidadão pode ser, viver e sonhar.


Música do Dia: “Sinal Fechado”, de Paulinho da Viola.


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*Trecho da música: “O Tempo”, de Reginaldo Bessa.

**Trecho da música: “Tempo Rei”, de Gilberto Gil.


 
 
 

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