Uma Relíquia Chamada Escola – Parte 3
- Roger

- há 11 minutos
- 3 min de leitura
“Viver cada dia como se fosse o último, e aprender como se fosse viver para sempre. “
(Ghandi)
Era ano 2000; um filme marcou época ao narrar a história de uma pequena cidade mineradora no norte da Inglaterra. Ali, as convenções sociais ditavam destinos rígidos: aos meninos, o boxe; às meninas, o balé. Contudo, um garoto ousou desejar a dança. O desfecho dessa trama é conhecido de todos nós, alimentado pelas referências culturais que compartilhamos, o que nos dispensa de maiores revelações ou dar "spoilers".
Essa narrativa nos serve de espelho para uma verdade fundamental: a pluralidade humana. Somos distintos em fisionomia, timbre da voz, cor e textura; somos biologicamente singulares em nossos metabolismos, na acuidade de nossos sentidos e em nossas predisposições orgânicas — uns mais despertos, outros mais alérgicos, cada qual com seu ritmo próprio.
Essa diversidade estende-se ao intelecto e à ação: na forma como nos comunicamos, calculamos, organizamos o mundo ou percebemos a realidade ao redor. É razoável inferir que as organizações humanas progridem justamente pela soma dessas diferenças.
Quando habilidades individuais se complementam mutuamente em prol do coletivo, de forma horizontal, o indivíduo, ao encontrar seu lugar no grupo, alcança segurança, reconhecimento e satisfação pessoal.
É esse sentimento de pertencer que sustenta o liame social.
Nesse cenário ideal, a escola deveria figurar como a instituição por excelência para o fomento desses talentos, identificando e lapidando as aptidões vocacionais de cada criança.
Em tese.
Como bem dizia um antigo bordão publicitário de uma marca de pneus: "não adianta potência sem controle". Ocorre que o exercício do poder exige o domínio não apenas de quem o exerce, mas, sobretudo, daqueles que são controlados. Em algum momento da nossa "história" (com "h" minúsculo, referindo-se aos jogos de interesse cotidianos), percebeu-se que negligenciar o conhecimento — e, primordialmente, o autoconhecimento — é a estratégia mais eficaz para manter os indivíduos prostrados e o status quo inalterado.
A carência de informação essencial e a ausência de introspecção aumentam a dependência e promovem uma "pasteurização" do ser. Os indivíduos deixam de ser protagonistas para se tornarem tábulas rasas, à mercê de interesses alheios.
E a escola nunca esteve imune a esse processo.
Ao longo das décadas, especialmente em Terra Brasilis, a instituição escolar muitas vezes curvou-se às demandas imediatistas do mercado. Em vez de formar cidadãos plenos, passou a recrutar mão de obra domesticada, selecionando indivíduos como quem escolhe um produto enlatado na prateleira de um supermercado.
Uma sociedade que compreende seu conhecimento e suas próprias potencialidades é, por definição, uma sociedade livre. E o poder absoluto não tolera a liberdade.
Privar o cidadão, desde a infância, de desenvolver suas virtudes e capacidades singulares é uma forma de violência lenta. Ao desrespeitar as peculiaridades de cada um, esvaziar a individualidade e afastar o jovem de seu núcleo afetivo — inundando-o com informações úteis apenas ao sistema de controle — extirpa-se dele a autodeterminação.
A despeito do esforço hercúleo de inúmeros profissionais que dedicam suas vidas ao resgate da educação em seu sentido mais ético e humanista, a escola tem se tornado um local onde a perspectiva de uma vida pautada pela equidade é sufocada em favor do distanciamento social e da dissimulação.
O segundo pilar, há muito tempo, encontra-se fraturado.
O convite para nossa jornada permanece aberto. Na próxima etapa, abordaremos o estado do terceiro pilar: a escola como espaço de interação e integração social. Veremos como se dão os primeiros passos da cidadania, a relação entre instituição e família e o desenvolvimento social que germina (ou deveria germinar) nos lares e nas salas de aula.
Música do dia: “Aquarela”, de Toquinho.







Comentários