Uma Relíquia Chamada Escola - Parte 2
- Roger

- 20 de jan.
- 3 min de leitura
“Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.”
(Cora Coralina)
Um grupo nômade e heterogêneo de pessoas caminha junto, seguindo o regime das chuvas, em algum ponto da África. Alguns caçam, outros coletam, outros cuidam dos filhotes, outros constroem abrigos. Mais importante do que discorrer sobre a divisão do trabalho — o que não é o objetivo — é projetar uma hipótese plausível acerca do conhecimento adquirido e compartilhado entre os membros do grupo. As informações e os aprendizados são assimilados quase instantaneamente e, ainda que cada indivíduo exerça uma função específica, todos possuem uma noção clara da importância e da finalidade do papel desempenhado pelos demais.
Outra característica marcante desse pequeno agrupamento é a interdependência: o grupo se protege e se auxilia mutuamente porque a ausência de um de seus membros pode comprometer, de forma irreversível ou, no mínimo, traumática, a sobrevivência do conjunto.
Nesse contexto, a escola é totalmente desnecessária. O conhecimento é adquirido e aplicado de maneira imediata, estando intrinsecamente ligado às necessidades coletivas.
Com o passar dos séculos, muitos agrupamentos humanos tornaram-se mais complexos. Deixaram de ser nômades, desenvolveram a agricultura e a pecuária, dominaram o fogo e aprenderam a fundir metais — o que, por sua vez, deu origem a inúmeras novas funções, desde a produção de utensílios e ferramentas até artefatos cuja finalidade exclusiva era ferir ou tirar a vida de outros indivíduos.
A absorção imediata do conhecimento empírico, sua aplicação prática e a interdependência direta entre os indivíduos foram, aos poucos, se fragmentando e se diluindo. É plausível supor, também, que o acesso integral a todo o conhecimento produzido deixou de ser necessário, desde que os grupamentos humanos contassem com indivíduos encarregados de funções específicas, exercidas de modo especializado.
As condições para a formação e o desenvolvimento da escola estavam, assim, postas.
Todavia, o conhecimento passou a adquirir um valor cada vez mais abstrato, e o controle de sua produção e disseminação tornou-se, igualmente, um instrumento de poder.
Informação e conhecimento são poder.
A escola tem suas origens nas primeiras civilizações organizadas, como o Egito e a Mesopotâmia, onde a escrita exigiu a formação de elites administrativas. Na Grécia Antiga, a educação assumiu funções distintas: em Atenas, voltava-se à formação do cidadão; em Esparta, ao preparo militar. Na Índia e na China, tradições educacionais fundamentadas nos Vedas e no confucionismo enfatizavam a moral, a espiritualidade e a disciplina social.
Ao longo da história, a escola desempenhou funções variadas conforme os contextos culturais. No Ocidente moderno, com a consolidação dos Estados - nação e, sobretudo, com a Revolução Industrial, tornou-se pública, obrigatória e central na formação de trabalhadores disciplinados e na padronização cultural.

Longe de ser neutra, a escola está inserida em relações de poder: reproduz desigualdades sociais, legitima os saberes das classes dominantes e marginaliza conhecimentos populares. Suas estruturas, currículos e formas de avaliação operam como mecanismos de controle social, produzindo trajetórias educacionais desiguais.
O que se ensina, especialmente às camadas mais despossuídas, precisa ser útil às elites; e o ensino, por sua vez, transforma-se em produto, em mercadoria — inclusive aquilo que é essencial ao indivíduo. Sem o conhecimento adequado de seu próprio corpo, de sua mente e de seu espírito, o sujeito permanece prostrado e vulnerável àqueles que detêm o saber, orientado mais pelo que ignora do que pelo que compreende.
No Brasil, em particular, as escolas públicas — e um número significativo de instituições privadas — funcionam como verdadeiros diques, represando energias, talentos e capacidades, de modo a assegurar as melhores oportunidades justamente para aqueles que menos delas necessitam.
A escola não é neutra. Nunca foi.
A ideia do primeiro pilar, segundo a qual a Instituição Escola seria responsável por disseminar, propagar e capilarizar as experiências acumuladas pelas sociedades, dotando crianças e jovens das ferramentas informacionais necessárias para atender às demandas da vida adulta, não passa, lamentavelmente, de uma construção social idealizada, distante da realidade fática.
A concepção de uma escola universal e obrigatória é recente e acompanha a consolidação dos Estados Democráticos de Direito. Paradoxalmente, foi nesse mesmo ambiente que, das escolas básicas às universidades, mantiveram-se — e, em muitos casos, aprofundaram-se — as desigualdades que se pretendia combater.
O primeiro pilar, desde sempre, encontra-se fraturado.
O leitor está convidado a prosseguir nesta jornada, cujo propósito é examinar a situação dos outros dois pilares — o desenvolvimento de habilidades, virtudes e aptidões, e a promoção da interação e da integração social. Trata-se de uma tentativa modesta, porém necessária, de aferir a distância entre as expectativas sociais, a retórica oficial e a realidade concreta vivenciada por alunos, pais, docentes, dirigentes, mantenedores e governantes: uma verdadeira tomografia da instituição chamada Escola.
Música do Dia: “O Caderno”, com Toquinho.







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