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A Farda e a Tarja

  • Foto do escritor: Roger
    Roger
  • 19 de out. de 2021
  • 3 min de leitura

Atualizado: 16 de nov. de 2021


A punição que os bons sofrem, quando se recusam a agir, é viver sob o governo dos maus.

(Platão)



Sim, a provocação deste escrito é sobre as polícias e os remédios.


Sim, nesse sentido, um outro título que seria pertinente, no lugar do escolhido poderia ser “As polícias e as farmácias”.


Sim, pode ser que, em um primeiro momento, seja estranho estabelecer qualquer relação entre uma instituição e outra.


A primeira se faz presente no cotidiano de todos, seja prendendo, seja vasculhando, seja patrulhando, perseguindo, conferindo se o cidadão está dirigindo alcoolizado ou drogado, se o veículo e habilitação estão regulares; protege, reprime, coíbe e em tese possui exclusividade legítima do uso da força (somente as políticas podem usar a força). É possível inferir que, em casos de desespero, depois de chamarmos as nossas Mães, é a polícia que chamamos.


A segunda se faz presente no cotidiano de todos, seja inaugurando mais uma unidade da nossa rede favorita, seja vendendo cosméticos, preservativos, curativos, e principalmente, remédios, de toda gama de especialidades: antialérgicos, antitérmicos, analgésicos; laxantes, antioxidantes, descongestionantes; antibióticos, diuréticos, anti-psicóticos; estimulantes, contraceptivos, calmantes; antiácidos (um antes e um depois), vermífugos, antiinflamatórios.

Nos dois casos, procuramos os mesmos, em geral, quando o fato já ocorreu.


Nos dois casos, procuramos para resolver os sintomas, os efeitos, e não as causas.


Nos dois casos, um restrito, mas muito restrito grupo de pessoas, ganham milhões às custas desse nosso impulso em deixar que o outro resolva, ao invés de entender os motivos que nos fazem recorrer a estas duas instituições.


No primeiro caso, compra-se armas, munições, equipamentos de proteção e de contenção, viaturas, sistemas de navegação, câmeras, concursos para admissão de novos contingentes; a paz e mecanismos não violentos para atingi-la são verdadeiros sacrilégios, para quem quer mais é assistir as pessoas se matando e, principalmente, alimentando seu próprio medo e insegurança.


No segundo caso, compra-se toda a sorte de medicamentos, seja nas drogarias, seja para distribuição gratuita nos postos de saúde; para quê prevenir, se podemos remediar? Parafraseando uma anedota etílica, que diz: “Evite a ressaca, mantenha-se bêbado”, o espírito que nos faz alimentar um dos poucos setores que crescem e abrem lojas se assemelha ao ditado acima: “Evite a saúde, mantenha-se doente.”


Sem saber ao certo do que padecemos, também nunca sabemos se está resolvido.


A despeito do fato de que são várias as causas para a crescente violência ao nosso redor, fica igualmente claro que o aumento dos contingentes policiais caminha na direção inversamente proporcional à nossa perda da capacidade de resolver pacificamente os nossos conflitos, através do diálogo, da empatia, da participação da própria comunidade, do acolhimento e da solidariedade.


A paz é um ideal a ser protelado e, enquanto isso, nos debatemos.


A despeito do fato de que os progressos nas áreas de saúde, em todos os campos, e que se refletem também nas suas áreas derivadas, também fica igualmente claro que o aumento do número de estabelecimentos que vendem drogas lícitas – e fruto de incontáveis recursos para seu desenvolvimento – caminha na direção inversamente proporcional à nossa perda da capacidade de conhecer o próprio corpo, seu comportamento e reações, o que comemos, o que bebemos, como ingerimos, potencial e limitações, entregando de bandeja para quem oferece alívio imediato e cura relativa.


A saúde é um ideal a ser protelado e, enquanto isso, nos remediamos.


Autoconhecimento dá muito trabalho.



Música do dia: O Pulso (Titãs)




Hipocondria doméstica, quem já não teve ou ainda tem uma?

 
 
 

2 comentários


waleme64
04 de nov. de 2021

Uma vez fiquei pasma com o comentário de uma amiga acerca de participar do panelaço ou não. Ela teve medo de que os vizinhos percebessem, então, não panelou (do verbo bater panela na janela). Isso explica como algumas pessoas sentem tanto medo que terminam como os judeus na segunda guerra, ou os próprios alemães, ou os italianos que sofreram com o fascismo. Os espanhóis, nem se fala. É preciso ter coragem para se posicionar contra ou a favor da maioria.

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rogerio.andrade
04 de nov. de 2021
Respondendo a

Olá, Waleme64!! Muito obrigado pelo retorno!! Gonzaguinha, em uma música de 1983, chamada "Caminhos do Coração", tem um verso que diz: "Toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de tantas outras pessoas...". A ideia é que a gente pense, troque ideias, empatize e compreenda mais. Assim, todos podem ser pessoas melhores!! Se puder, compartilhe com as pessoas que você conhece, que se identifiquem com a proposta do Deixa Disso! Um forte abraço!!

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