A Feira Nem Tão Livre Assim
- Roger

- 27 de abr. de 2021
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“Toda jabuticaba emana da jabuticabeira, a qual é colhida, distribuída e consumida por quem as aprecia.”
(Roger)
Confesso que, como paulistano do Brás, vivendo somente em Sampa, a despeito da cidade cosmopolita e microcosmo do país e até do mundo, muitas realidades, aprazíveis ou não, certamente escapam da percepção e, por conta disso, abrir a cabeça pode ser um exercício não só de aumento de conhecimento e erudição pura e simples, mas a possibilidade de evolução enquanto ser humano, através da compreensão, internalização e mudança de comportamento. A ampliação de horizontes também auxilia na interpretação menos superficial e imediata, mitigando entendimentos mais superficiais, frívolos, emocionais e inócuos.
A autocrítica deixa de ser uma ameaça, e passa a ser uma oportunidade de melhora.
Desde quando comecei a fazer compras nas feiras livres, adotei um modus operandi durante muitos anos, até o surgimento e crescimento do fenômeno dos sacolões, os mercados especializados em horti-fruti, abrigados das intempéries do tempo e dotados de estacionamento, com horário de funcionamento bem mais longo, com produtos cobrados por quilo, e que em alguns casos, agrega também anexos de mercearia, açougue e inclusive pastelaria e caldo de cana! Atualmente, me divido entre um e outro lugar.
O modus operandi consistia em percorrer toda a feira, ida e volta, pelo menos duas vezes, antes de comprar o que eu pretendia; muitas vezes o fazia com um dos filhos montados sobre os ombros, que se seguravam nos meus cabelos e que exigiam dos ainda fortes joelhos, constantes agachamentos e alguns malabarismos, a fim de desviar dos toldos e dos sarrafos que os mantinham.
Só então, após selecionar as barracas é que então fazia as compras.
Em cada barraca, após uma respeitosa e cuidadosa verificada nos formatos, consistências, cheiros e cores é que finalmente escolhia os produtos. Para tanto, o contato direto com a fruta, o legume, as ramas das folhagens, era um requisito automático, praticamente natural. É claro que não apalpar com força, amassando o produto, além de ser uma questão de respeito com o feirante e com os demais fregueses, era uma forma de não aumentar os preços no futuro, por conta do respectivo aumento de descartes, da xepa.
Entretanto fui saber, tempos depois, que em alguns estados, como o Rio de Janeiro, bem como em alguns países da Europa, tal procedimento se aproxima de um sacrilégio; o freguês aponta o que e quanto quer, e o feirante entrega o produto, de acordo com os critérios do mesmo. Não há escolha, isso é prerrogativa do feirante, que dá o que ele quer, e não de acordo com o que o freguês deseja. A relação só não é unilateral porque o cliente paga: paga, mas não participa do negócio.
Justiça seja feita, os comportamentos sociais em geral – e no caso da feira livre como exemplo – são resultantes de interações diversas que envolvem o contexto econômico local, a cultura local, os fatores históricos, dentre outros, que constroem as condutas que inclusive acabamos acatando e replicando. Por isso, certamente existe uma gama maior ou menor de razões que explicam as diferentes condutas que ocorrem em um mesmo tipo de fenômeno, que nem sempre temos oportunidade de saber.
Não raro procedemos sem saber ao certo porque o fazemos.
Em alguns casos ou situações, nem é tão relevante saber como e porque fazemos.
Em alguns casos, todavia, talvez devêssemos saber o que e por que fazemos.
Esse é o caso dos partidos políticos brasileiros, e do nosso sistema de representação política, por exemplo.
Estrutural e formalmente, o nosso sistema escrutinador é moderno, rápido e até causa inveja a outros países.
Na prática, porém, nunca votamos em quem desejamos, mas sempre em quem os partidos nos obrigam a votar.
Os partidos são pessoas jurídicas de direito privado (ou seja, têm donos ou sócios e visam lucro) os quais, entretanto, sobrevivem do dinheiro público.
O nosso sistema representativo/partidário mantém a democracia como refém, permanentemente, e permanentes são os pedidos de resgate, que nunca saciam; nem tampouco libertam a sequestrada, que de tão prisioneira, aos poucos foge da memória dos cidadãos mais incautos.
No sistema partidário, é possível até mudar os produtos, mas não quem os oferecem, que continuam decidindo que mercadoria será oferecida na banca.
A feira (nada) livre que se constitui o sistema de representação política oferece somente os abacaxis, goiabas, pepinos, nabos, jabuticabas, laranjas e os bananas que eles nos empurram. E somos obrigados a comprá-los, e a mantê-los, e a sustentá-los.
A qualidade dos produtos que nos “vendem”, que é de conhecimento geral, dispensa comentários...
O pior é que, por causa da reserva de mercado, jamais são responsabilizados pelos produtos mal conservados, deteriorados e intragáveis que muitas vezes somos obrigados a adquirir e consumir.
Até o momento que – oxalá – o cidadão tome consciência que a feira é dele.
Música do dia: “A Última Voz do Brasil”, de Joelho de Porco

Créditos: www.vivatatuape.com.br






Vamos evitar comprar esses bananas na próxima feira (eleição).