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A Pedra e o Manto

  • Foto do escritor: Roger
    Roger
  • 21 de abr. de 2020
  • 3 min de leitura

“Às vezes é sua inimiga, a verdade, às vezes é sua aliada, a mentira,

Aquilo que a vida nos dá e nos tira, não anda de braços com a sinceridade...”

(Sá e Guarabyra, “Verdades e Mentiras”)



Ela, uma travesti, que trabalhava como prostituta, e atendia todo tipo de pessoa, sem qualquer discriminação; seja são ou doente, seja velho, coxo ou indigente, os que jamais teriam algum afeto.


Ele, sacristão e escultor que, durante um ataque à sua cidade, foge de lá, e acaba sendo dado como morto; martirizado, por ter sido supostamente assassinado pelo líder do bando, torna-se santo.


Ela, excluída, discriminada, agredida, vilipendiada, pela população de uma localidade, que poderia ser qualquer uma, inclusive a nossa.


Ele, mitificado, transforma a cidade em pólo turístico e religioso, que enriquece e cria personagens a partir de seu suposto martírio.


Ela, certo dia, se vê surpreendida pela população da cidade, que implora a ela que se deite com um algoz, o qual promete destruir a todos, salvo se puder tê-la em uma alcova.


Ele, muitos anos depois, retorna à sua cidade, desmascarando uma farsa que prejudica interesses econômicos, políticos e religiosos, ameaçando a sobrevivência da própria localidade.


Ela, até então amaldiçoada, transforma-se em redentora; sensível a tantos pedidos, a despeito da repulsa dela ao carrasco, atende o temível comandante. E então, quando este partiu, cumprindo sua promessa, eis que a cidade, em coro, volta a fazer o que sempre fizera: discriminar, agredir, vilipendiar, escorraçar, humilhar, como sempre, como se nada tivesse acontecido.


Ele, a despeito da vontade de restabelecer a verdade, vencido foi pelos interesses arraigados na cidade, depois de tantos anos; venceu a tradição estabelecida, as conveniências econômicas e políticas, o prestígio adquirido do nada. Impotente, decide deixar a cidade, para alívio de uma viúva sem nunca ter sido com ele casada, a preservação de um mito inexistente, os milagres jamais ocorridos.


É muito difícil, praticamente impossível, ficar indiferente diante de um fenômeno de abrangência global, principalmente em se tratando de um inimigo invisível, insidioso, que vem se mostrando capaz de desestabilizar, tanto econômica quanto politicamente, vários países, em especial o nosso.


O olho do furacão não costuma ser o melhor lugar para compreender um evento de tão grandes proporções, principalmente quando se tem a impressão de que a pandemia ainda vai escrever sua história épica por mais alguns meses, depois destas linhas, publicadas no ingresso do Sol em Touro.


Entretanto, toda vez que vem o pensamento sobre os efeitos da pandemia sobre a humanidade, após seu ocaso e desaparecimento, de imediato surgem as duas histórias narradas alternadamente acima; a primeira, uma das músicas emblemáticas da Ópera do Malandro, e a segunda, a novela Roque Santeiro, obras extraordinárias criadas por Chico Buarque e Dias Gomes, respectivamente.


Apesar de narrativas e contextos diferentes, ambas expressam de forma nua e crua as verdadeiras motivações humanas, seus reais interesses, e a maneira como lidam com os desafios que ameaçam mudar as suas realidades consolidadas.


A iminência da aniquilação irreparável, ameaçada pelo comandante, ao ver “tanto horror e iniquidade”, e mesmo a salvação proporcionada por Geni, não foram suficientes para mudar a mentalidade daquela população.


A constatação da farsa que predominava na cidade de Asa Branca, que criou um falso mito, uma falsa viúva, um assassino sem vítima, milagres vazios, a riqueza obtida a partir de um falso mártir, o Roque Santeiro; é quando estado, poder econômico e religião escolhem outro caminho, diferente da verdade.


Se a arte imita a vida, se não ignorarmos o passado, e se olharmos a vida à nossa volta, e considerarmos os acontecimentos presentes e passados – cruzadas, escravidão, genocídios, holocaustos, napalm, talidomida, grandes e pequenas guerras, bomba atômica, gripe espanhola, peste negra, populistas, tsunamis, terremotos – acreditar que a pandemia nos proporcione uma evolução da consciência e um aprendizado humanos, talvez exija um considerável esforço de abstração e ficção.


O retrospecto não ajuda.

Música do dia:

“A Banda”, de Chico Buarque




 
 
 

1 comentário


denise2729
denise2729
21 de abr. de 2020

Falta muito para o ser humano enxergar o óbvio, o simples, o efetivo porque da sua história não sabe nada.

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