A QUÍMICA DO ÓDIO
- Roger

- 9 de abr. de 2024
- 3 min de leitura
“Creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror.”
(Charles Chaplin)
Quando um assunto ou tema renite em nossa mente, uma das formas para “virar a página” é confrontá-lo, ainda que seja enfadonho ou desagradável.
O ódio nosso de cada dia, que acaba atingindo até os mais pacíficos – o “hater passivo” – fenômeno que todos vivenciam de maneira superlativa nos últimos seis anos, pelo menos, ainda teima em se espraiar nas redes sociais e, infelizmente, no cotidiano de muitas pessoas, por meio de ações que vão desde um meme mais malicioso até o crime mais nefasto.
Em outras oportunidades*, este espaço discorreu sobre as diferentes formas que o ódio se manifesta, como uma tentativa não de responder, mas de compreender os motivos, principalmente, da opção pela forma colérica de reagir ante questões em geral, sejam elas triviais ou relevantes.
Estamos testemunhando o ódio como forma, como método, ferramenta, para ferir terceiros, conhecidos ou não; infere-se também a ideia do ódio como um sintoma, uma dica de que algo anterior, tal como uma espora machucando um cavalo para que este galope, estimule as reações virulentas; sugeriu-se, também, que o ódio poderia ser uma espécie de “cortina de fumaça”, uma forma evasiva, de dissimular o que realmente se passa na cabeça dos “odiopraticantes”.
Talvez a pergunta que pode caber no momento, é: “no que o ódio está nos transformando?”
Sem a pretensão e a necessidade de se enveredar pelas áreas da Medicina, da Sociologia e da Psicanálise, sabemos que o organismo humano é regulado por substâncias – os famosos hormônios – que auxiliam a lidar com o mundo exterior, em todos os sentidos e demandas.
Seja para lidar com as dores, seja para o exercício da sexualidade, seja para regular a fome, a pressão sanguínea, o sono, o estresse, tais substâncias regulam e equilibram o organismo, e tanto a falta como o excesso tendem a trazer distúrbios, os quais, em alguns casos, se refletem também nas relações sociais.
A química do ódio, de forma bem simplificada, despeja um ou outro hormônio que proporciona aquela sensação de “fugir ou atacar”, diminuindo a visão, acelerando os batimentos cardíacos, transferindo sangue e energia para pernas e braços, “esfriando” o estômago, preparando o indivíduo para correr de um predador ou para atacar uma presa, por exemplo; ou seja, úteis e necessários em determinados momentos.
Não faz qualquer sentido, em uma suposta vida em civilização, tais reações.
Nos primórdios, antes das primeiras formas organizadas de vida compartilhada, talvez fizesse algum sentido que os indivíduos, premidos pela necessidade de proteção e alimento, acossados por outros bandos rivais e por predadores implacáveis, permanecessem em constante “alerta vermelho”, prontos para o pior na maior parte do tempo.
Quem odeia de forma inveterada acaba por abdicar da civilidade.
Talvez, a química do ódio incorra em dependência física e psíquica. O tempo vai dizer.
É plausível, todavia, que tanto ódio seja decorrente de intermináveis e dolorosos estímulos, físicos, sociais ou psíquicos, que impeçam os indivíduos de regularem suas próprias emoções; ou seja, causas anteriores que, tal como esporas no ventre de um cavalo, como a privação de sono e de alimento, com pitadas de agressões, em animais usados em rinhas, transformem os odiodependentes em armas, em especial nas redes sociais, onde o biombo do pseudo anonimato supostamente os protege.
Se isso tiver algum fundo de verdade, talvez seja mais importante do que desferir violência verborrágica e física contra seus semelhantes, é descobrir quem está usando as esporas.
Música do dia: Coração Tranquilo (Walter Franco). Com Leila Pinheiro fica divina!!
*Através dos textos: “O Ódio Enquanto Advérbio”, em 01/08/23, “O Ódio Enquanto Sintoma”, em 15/08/23, e “O Ódio Como Evasiva”, em 29/08/23.
Imagem produzida por IA; qualquer semelhança com fatos ou expectativas é mera coincidência.








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