A Teoria da Resultante
- Roger

- 14 de jul. de 2020
- 4 min de leitura
"Toda Pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas Pessoas"
(Gonzaguinha, da Música "Caminhos do Coração")
Não, não se trata de alguma aula de Física, acidentalmente ou inadvertidamente publicada aqui, embora esta informação ou conceito está sendo emprestada como ponto de partida para uma reflexão que não tem relação direta com os fenômenos da Dinâmica, ao menos não da mencionada Ciência Exata.
Sob este ponto de vista, a resultante, ou força resultante, é a soma de todas as forças presentes em um corpo, ou seja, uma força que deriva de outras que em um determinado momento atuam sobre uma determinada coisa. É possível, para a Física, que a Resultante destas seja zero, bem como diferente de zero, quando uma determinada força se soma à outra, na mesma direção e sentido, ou quando forças atuando em direções e sentidos diferentes, surge uma outra direção e sentido, diferente das anteriores.
Mesmo fora dos parâmetros dos cálculos matemáticos, o conceito de Resultante não difere muito, em essência: é o que resulta da ação conjugada de diferentes fatores, ou efeito, ou consequência; ou seja, dentro das relações humanas, o somatório de atitudes, de energias, que atua sobre estes ou aqueles fenômenos sociais, também gera uma resultante, uma decorrência dessas mesmas atitudes.
Nossas opiniões, convicções, julgamentos, concepções, visões de mundo, igualmente podem ser resultantes de uma miríade de fatores que estão associados com nossos retrospectos, os exemplos recebidos, as experiências, o que testemunhamos, as omissões, as oportunidades ocorridas, as escolhas feitas, as atitudes e não atitudes tomadas ao longo das nossas vidas.
É muito difícil a prevalência de apenas uma ou outra força que nos defina, ao menos nos fenômenos sociais; considerando uma civilização cada vez mais plural, diversa, heterogênea, desigual, é cada vez mais difícil que uma ação qualquer não sofra algum tipo de reação (em diferentes direções, vindas de diferentes origens) das demais.
Ainda que para uns e outros a percepção de que o mundo em que vivemos pode estar de mal a pior, ou para outros e uns o mundo está diante de uma oportunidade de crescimento e aprendizado, e ainda considerando o contexto em que se produz este escrito, onde um fenômeno planetário assusta e quase paralisa o sistema econômico em escala nunca vista, e internamente uma tensão político/social como há muito não se via, analisar e fazer conclusões sobre a realidade atual pode ser, no mínimo, injusta, se forem desconsiderados os incontáveis esforços no sentido de reverter ou ao menos minimizar as mazelas que diariamente vivenciamos, assistimos na TV, corremos o olho rapidamente no celular, ou ouvimos dizer, mesmo nunca tendo a mínima noção das mesmas.
A vida até pode ser, para alguns, plenamente satisfatória, social e materialmente, dependendo da disposição que se tem para expandir ou encurtar a visão/conscientização do todo; a percepção magnífica de sua própria vida não “deleta” a realidade deplorável de outros, e que muitas (mas muitas) vezes em virtude desta se mantém àquela.
É verdade, também, que o resultado obtido pelo movimento das diferentes forças atuando em diferentes direções e sentidos, muitas vezes é insatisfatório para todos.
Cada um contribui, de alguma forma, seja agindo ou não, para o sentido e a direção decorrentes; ninguém é isento ou imune.
É verdade também que o leito de um rio é o resultado da vontade deste em encontrar o mar, e os obstáculos que encontra no trajeto, que obriga muitas vezes a realizar inúmeras circunvoluções, até chegar ao seu objetivo.
As incontáveis instituições que há muito tempo empregam todas as suas energias em prol de mitigar, aliviar, acolher, orientar, compreender, ensinar, defender, nas mais diversas frentes, seja com médicos espalhados pelo planeta, salvando vidas nos locais mais inóspitos, abandonados ou violentos.
Igualmente perseverantes as instituições que há décadas procuram defender e preservar o meio ambiente, a vida animal, a flora, a vida marinha, fluvial e lacustre, a defesa contra a poluição atmosférica, o aquecimento global, o derretimento das calotas polares, a poluição marinha.
O Playing For Change, que promove a paz através do ensino de música em locais assolados por genocídios e guerras civis.
O CVV - Centro de Valorização da Vida – que há quase sessenta anos, silenciosamente, trabalha voluntariamente pela prevenção do suicídio.
Os doadores de órgãos, de sangue e de medula óssea.
A CUFA.
Ignorar estas e outras tantas entidades que vivem em função de trazer paz e dignidade para as pessoas que por motivos diversos tiveram suas resultantes desviadas para a direção da desesperança, da miséria, da degradação humana e do planeta, é quase desumano, até porque a presença destas é um aviso para todos, porque seus esforços também alteraram a resultante dos esforços de quem despreza tais ações.
Todavia, muitas ações têm suas resultantes indicando outras direções.
A proliferação de drogarias por todo o país, e o sucateamento das escolas públicas não seriam também resultantes?
Professores humilhados e desrespeitados pelos pais e pelas próprias instituições de ensino privadas, e professores igualmente humilhados, desrespeitados e agredidos pelos alunos e pais, nas escolas públicas, não seriam também resultantes?
Mulheres e crianças violadas dentro de seus próprios lares, não seriam também, da mesma forma, resultantes?
Negros e negras sendo mortos e pisoteados no pescoço, perdendo os próprios filhos enquanto cuidam dos pets de seus patrões, também não se tratam de resultantes?
Tirar proveito de uma pandemia para subtrair milhões, destinados para salvar vidas, não seria uma resultante?
Considerando que o ser humano é o único ser vivo capaz de produzir interpretações distintas sobre o mesmo fenômeno, é evidente que o que cada um considera como verdade pode igualmente variar de pessoa para pessoa; é crível aceitar a ideia de que as realidades apreendidas por cada indivíduo, além de não serem estanques, nem absolutas, nem únicas, são produto de duas ou inúmeras outras forças que podem resultar em fenômenos com maior ou menor proximidade com o que cada um imagina ser boa ou ruim. Também pode ser admissível a conclusão de que, quando assistimos o desenrolar de fenômenos diferentes atuando em direções e sentidos diversos, sua ação ou omissão se confundem.
A questão é, portanto, saber quem de nós está contribuindo para a resultante que prevalece hoje.
Música do dia:
"Dando Milho aos Pombos", de Zé Geraldo







Infelizmente temos quase nenhum controle sobre as diversas forças que regem o planeta e a humanidade. Temos um pouquinho de controle sobre nosso país, quando vamos às urnas escolher nossos representantes e depois, acompanhamos o que eles estão fazendo (ou não fazendo).
Então, caro Rogério, o que podemos fazer é tentar ser uma resultante que leve uma força do bem, que valorize a vida em primeiro lugar. Qualquer vida conta, principalmente a humana, mas também as demais.
Apesar de todas as minhas dúvidas, sigo acreditando que uma força maior, que chamo de Deus, tem o controle do universo e sabe qual será a resultante.