Abandono, Verbo Transitivo?
- Roger

- 30 de jun. de 2020
- 3 min de leitura
"A gente se acostuma para poupar a vida"
(Marina Colassanti)
Abandonamos uma partida de Xadrez, tão logo percebemos ser impossível reverter o resultado, reconhecendo o valor do adversário e sua vitória. Dois “tapinhas” no chão, ou mesmo no corpo do oponente, decreta o abandono da luta, seja de MMA, tão em voga atualmente, como há muito tempo nas artes marciais em geral. O gesto igualmente tem o mesmo significado do enxadrista, quando derruba o seu Rei, encerrando a partida.
Alguns abandonam vícios, como o tabaco, o álcool, as drogas ilícitas, as drogas lícitas que muitas das vezes o uso se faz por conta própria, desafiando o clamor do próprio corpo o qual, tomado pelo efeito da síndrome de abstinência, clama fervorosamente para que se retome este ou aquele mau hábito; e, neste caso, abdicam de uma relação tão entranhada física e psicologicamente, que equivale a um triunfo estoico de grandes proporções.
Outros, pelos mais diversos motivos, abandonam conceitos, visões de mundo, modos de agir, padrões pré estabelecidos, normas de conduta, noções do que é “certo” ou “errado”, arrancando verdadeiras “raízes” de um solo que não mais nutre, que não mais explica, que não mais responde; e que por mais cômodo que às vezes pareça permanecer preso a este, preferem dar a si mesmos a oportunidade de enxergar o mundo com os próprios olhos, caminhar com as próprias pernas.
Todavia, anestesiados com o fluxo cada vez maior de estímulos externos, e a velocidade diretamente proporcional das mudanças em quase todos os setores da vida, sem perceber, muitos abandonam: as sobras da comida que se pegou a mais no restaurante por quilo, ou mesmo as embalagens “marmitex”, jogadas no meio da rua; aquele celular seminovo, funcionando perfeitamente, porque o modelo mais moderno acabou de ser lançado; as latinhas de cerveja que se bebe durante a viagem, jogadas no meio da estrada; as pontas de cigarro lançadas nos acostamentos, nas bocas de lobo; aquilo que descartamos e comumente chamamos de lixo.
“Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia”, disse profeticamente Marina Colassanti; de tanto crescer vendo as pessoas jogando água potável fora, jogando embalagens de todo tipo, jogando restos de qualquer coisa sem olhar para trás, a gente se acostuma, e de tanto se acostumar a gente não percebe que um pouco por dia, cada um abandona alguma coisa, que não precisava, que não devia.
Alguns abandonam os próprios sonhos.
Outros, abandonam as promessas que fizeram.
Alguns abandonam o barco, que pode ser tanto no sentido figurado, como literal, que o diga o capitão de um transatlântico famoso, anos atrás; outros abandonam seus pets, depois que deixaram de ser diversão e passaram a ser despesa; alguns abandonam seus princípios, os quais até ontem eram sagrados, e que diante da perspectiva de melhorarem sua condição material, deixam de ser pilares para serem quebra-molas.
Abandonam o Ser em troca do Ter, e ambos pelo parecer que é, ou parecer que tem.
Quem abandona, abandona alguém ou alguma coisa, em algum lugar, em alguma condição, de algum jeito.
Abandonar não seria então um verbo bitransitivo?
É um verbo que, em muitos casos, se pratica consciente, porque em algum momento, alguma escolha existia.
Alguns abandonam idosos, em asilos confortáveis, outros nem tanto; alguns abandonam seus idosos nas suas próprias casas, outros nas ruas.
Alguns abandonam crianças, com os mais variados estilos: desde a concepção, na creche, no colo dos “namorados” e “padrastos”; dentro do carro, em pleno verão, com todos os vidros fechados; outros, na lagoa, na lata do lixo, dentro da própria casa, trancados.
Outros e alguns, alguns e outros, abandonam crianças e jovens na própria escola, lembrando-se deles somente na hora de pagar a mensalidade, o boleto.
E assim, de abandono em abandono, uns e outros vão descartando, sem olhar para trás, um pouco de si a cada dia.
Alguns abandonam a lealdade, a honra.
Outros abandonam as juras de amor declaradas nos púlpitos, nos altares.
Alguns muitos abandonam a própria essência.
Outros muitos abandonam a vergonha.
Quem abandona, abandona alguém ou alguma coisa, em algum lugar, em alguma condição, de algum jeito.
Abandonar, verbo transitivo.
Abandonar, pecado bitransitivo...
Música do dia:
"Mais Uma Boca", de Fátima Guedes

jornalsemanario.com.br






Que texto hein!!! Maravilhoso!!!
Muito bom o texto. Penso em abandonar o hábito de abandonar coisas boas. E abandonar apenas o que de fato é lixo. Como o medo, o preconceito em geral, o fanatismo religioso e/ou politico, enfim, a lista é grande.
Mais um texto magnífico sem dignificar a situação lamentável do verbo.