Aquela janela aberta
- Roger

- 7 de abr. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 5 de mai. de 2020
“Ilusão, Ilusão, veja as coisas como elas são...”
(Chico Buarque, “As cartas”)
O ano era 1978. O filme, “Golpe Sujo”, comédia romântica estrelada por Goldie Hawn e Chevy Chase, com música tema “Ready to Take a Chance Again”, interpretada por Barry Manilow, notabilizado aqui graças às suas performances vocais e a canção Copacabana, cuja personagem era uma brasileira de nome Lola...
O número certo de jovens que saiu do Brás para assistir uma sessão deste filme o qual, na minha memória, foi assistido por nós no Cine Metro (cuja sala fora concebida e construída sob supervisão da própria MGM), não lembro com certeza; mas o alvoroço provocado pela nossa presença, caminhando a pé pela Avenida São João, dá a convicção de que eram mais do que uma dúzia de barulhentos adolescentes.
Aliás, mudando um pouco de assunto, uma prova inequívoca de que as mudanças ocorrem com cada vez mais velocidade, desde a década de 70 para cá, está na quantidade de salas de cinema de rua, em São Paulo, as quais praticamente desapareceram; só para se ter uma idéia, sem grande esforço, é fácil lembrar que, além do citado cine Metro, existiam os cines Saci, Art Palácio, Olido (hoje sede da Secretaria Municipal de Cultura), Regina, Comodoro (sala para 1.400 lugares) e o Cinespacial (onde haviam três telas na sala). Não se pode deixar de lado os cines Paissandu, Marrocos, República, Sete de Abril, os dois gigantes da Avenida Ipiranga, os cines Ipiranga e Marabá (um dos poucos funcionando), Arouche, o Copan, e por aí vai.
Verdade seja dita, o Brás não ficava muito atrás, com o perdão do trocadilho; outrora pólo econômico e cultural da região, concentrava teatros e cinemas, por onde passaram grandes artistas; foi e ainda é berço de figuras importantes e que fizeram ou ainda hoje fazem a diferença positivamente em nossa realidade, como Abel Rocha, Dino Sani, Drauzio Varela, Flávio Migliaccio, Francisco Cuoco, Zizi Possi, dentre outros.
Suas salas de cinema também tinham seus predicados: Piratininga, cuja tela na época era a maior da América Latina; Rialto, Fontana, Universo (que possuía um teto solar que abria nas noites estreladas e enluaradas), Roxy e Bruni, por exemplo. Uma “renca” de garotos e garotas se deslocando de um bairro como o Brás para o Centro talvez fosse, na minha memória, fruto de no mínimo dois fatores: o descompasso dos lançamentos dos filmes, que ocorreriam primeiro nos cinemas do centro, e ou o processo de degradação do Brás, em virtude das inúmeras mudanças sociais e econômicas que já estavam impactando negativamente, e que nos dias de hoje ainda é possível constatar tais transformações.
Muitos risos, pipocas, refrigerantes e chocolates depois, saímos do cinema e voltamos a caminhar pelas ruas próximas; e numa dessas ruas, onde já havia grandes edifícios, ao menos altos o suficiente para limitarem a ação do sol, alguém de nós teve a idéia de olhar para o alto de um destes edifícios, e exclamar, com convincente inflexão de interpretação:
– Gente, o que é isso! Tem alguém quase pulando daquela janela! Naaaão!!
De imediato, todos nós olhamos para o alto, e mesmo sem enxergar nada, reproduzimos a aflição e a preocupação manifestada pelo amigo.
Contribuía para aquele cenário, apesar da já predominante paisagem acinzentada criada pelas construções de concreto e vidro, os reflexos da luz solar que ainda teimavam em invadir aquela rua, os quais ofuscavam as vistas de todos, e que exigiam de todos nós uma boa dose de projeção, mais do que a constatação fática da tragédia que estava prestes a acontecer.
Depois que mais de dúzia de gentes passaram a olhar para cima, não tardou que o amontoado juvenil se transformasse em tumulto e multidão; as pessoas se perguntavam o que estava acontecendo, e logo alguém se adiantava em afirmar:
- Tem alguém querendo se jogar daquela janela!
- Qual, tem muito reflexo, não dá para ver!
- Acho que é aquela que está com o vidro aberto...
O mesmo amigo que iniciara a confusão, exclamava, como se o suposto suicida o ouvisse: “Faz isso não, a vida é bela, é única!”.
A aglomeração produzia aquele típico som de muita gente murmurando, perguntando, procurando, comentando, num misto de curiosidade, perplexidade, assombro... E os reflexos da luz solar, como já havia dito antes, continuavam funcionando como um catalisador que completava realidade e imaginação, como as duas partes daquela famosa cola, a qual até hoje só faz efeito se forem misturadas partes iguais de diferentes substâncias.
Em um determinado momento, o evento ganhou vida própria; ninguém mais tinha dúvida de que alguém estava prestes a beijar o chão com a força da gravidade, de replicar a música do Chico ou do João Bosco, em outro misto de pavor e curiosidade mórbida.
Até que, alguns minutos depois, cada um da nossa turma foi saindo, discretamente, se reencontrando cerca de uma quadra de distância; quando o último chegou, ainda havia uma grande quantidade de gentes ainda tentando saber ou entender o que e porque aquilo estava para acontecer. Algumas procurando ajuda, outras apenas esperando o desfecho.
E então fomos embora.
A verdade é que não havia ninguém, ao menos naquela janela aberta; agora tínhamos a certeza, porque nosso amigo, aquele que deu início ao alarde, acabara de afirmar, categórico.
Obviamente, jamais saberíamos as consequências daquele episódio.
Mas para cada um daqueles transeuntes que de alguma forma, ativa ou passivamente, vivenciou o acontecimento, uma história foi internalizada como fato. Para alguns, o horror de um suicídio que alterou o humor para até o final do dia, ou mesmo da semana; para outros, o impiedoso julgamento vazio, condenando ao inferno aquele infeliz que abriu mão de uma dádiva divina, para resolver desperdiçá-la de maneira tão torpe. Outros, talvez, sentenciariam: “O que algumas pessoas são capazes de fazer para chamar a atenção”; ainda outros, talvez, tenham se sentido motivados a fazer algo que até então, muito hesitavam.
Agora, já foi.
Agora, já faz parte da história pessoal de cada um. Se o suposto suicídio aconteceu de verdade ou não, passa a ser irrelevante.
Agora, quem difundiu o acontecimento, e quem o levedou, talvez até já tenha se esquecido do que fizera, já no dia seguinte, sem a preocupação mínima em avaliar os seus efeitos.
Agora, muitos de nós sejamos, talvez, resultado de uma colcha de retalhos, feitos das verdades factuais ou construídas e que chamamos de personalidade, de pessoa, indivíduo, de caráter. Se realmente somos, se realmente temos, se realmente fizemos, se realmente dissemos, se realmente sentimos, talvez não faça tanta diferença assim.
E era apenas uma sessão de cinema.
Música do dia:
“Verdades e Mentiras”, de Sá e Guarabyra







Amei! Viajei na história e mergulhei nas músicas! 👏👏👏