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Ata de Encerramento

  • Foto do escritor: Roger
    Roger
  • 31 de out. de 2023
  • 3 min de leitura


Não me interessa, pra mim tanto faz, não estou nem aí, nada me compraz…”

(Os Novos sete Pecados, trecho da Indiferença)



Aos trinta e um dias do mês de outubro do ano de dois mil e vinte e três, reuniram-se, na parte mais central da Floresta da Tijuca, na cidade do Rio de Janeiro, os principais personagens do Folclore Brasileiro, em ordem alfabética:


Boitatá, Boto, Caboclo D'água, Caipora, Cuca, Curupira, Iara, Matinta Pereira, Mula Sem Cabeça, Negrinho do Pastoreio e Saci-Pererê.


Além destes, dois personagens se fizeram presentes, porém se abstiveram de participar, pelos seguintes motivos:


Corpo Seco, alegando neutralidade, em razão de não se considerar nem vivo, nem morto, para se pronunciar sobre qualquer coisa.


Lobisomem, alegando suspeição, em virtude de ser um personagem de origem estrangeira, sem legitimidade para votar ou se pronunciar.


Dentre os membros convocados, três não compareceram: Boiúna, inconformada e ainda pesarosa, em virtude de ter perdido seus dois filhos, Cobra Norato e Maria Carinana: esta, morta por aquele, seu irmão, o qual se transformara em ser humano para sempre.


Mapinguari, ausente por ter sido morto, confundido com um animal da floresta.


Vitória Régia, em virtude de sua condição mítica, que a impede de se locomover.


Houve um atraso, justificado e aceito pela totalidade dos presentes, por parte do Curupira, em virtude deste, aproveitando sua característica peculiar de ter seus pés voltados para trás, providenciar truques para despistar eventuais visitas indesejadas.


A pauta da assembleia era única, sendo aprovada por unanimidade pelos votantes:


O encerramento das atividades do Dia do Folclore.


Antes da redação final dos fatores que levaram à referida decisão, alguns dos presentes pediram a palavra:


A Cuca, portuguesa de origem e naturalizada brasileira, expressou consternação, porque a prática que ela originalmente coibia, a desobediência e a indulgência do sono, se transformara em prática recorrente e incentivada pelos próprios pais.


O Boto, por sua vez, embora profundamente entristecido com a decisão pertinente e oportuna da assembleia, teceu duas considerações: uma, de que não tinha mais forças para continuar, com algum entusiasmo, a propagação da data, por conta da intoxicação adquirida pela ingestão de mercúrio; outra, de que não esconde um certo alívio, por conta de ter sido responsabilizado, ao longo dos séculos, pela gestação de moças que sequer conheceu.


Fez coro com o Boto, em especial por conta da intoxicação, a Iara, igualmente enfraquecida e aliviada.


Matinta Pereira também pediu a palavra, manifestando pesar pelo encerramento das atividades, e de forma análoga ao que declarou a Cuca, uma vez que sua lenda se transformara em realidade, em muitas regiões do Brasil, mas de forma violenta; mesmo aqui perto, é recorrente o uso da força para obrigar as pessoas a contratar serviços e adquirir produtos de primeira necessidade. Agradece, todavia, a Tom Jobim, por mencionar seu nome em uma de suas belíssimas músicas.


Por fim, pediu a palavra o Negrinho do Pastoreio, que também lamentou muito o fim das atividades; entretanto, ficou para ele muito evidente que suas lendas perderam sentido de uns anos atrás para cá, uma vez que a violência contra meninos e meninas, com até requintes de crueldade, não só ainda permanecem, como se tornou praticamente um hábito: estupros, venda de órgãos, prostituição infantil, exploração do trabalho infantil, balas achadas em crianças (as perdidas não são encontradas), dentro da própria casa ou da escola. O Brasil assiste passivo, indiferente e cúmplice, concluiu de forma madura o guri.


Considerações finais:


A assembleia decidiu, de modo não irreversível, ou seja, aberta a reconsiderar a decisão em caso de mudança de conjuntura social do país, encerrar todas as atividades relativas ao Dia do Folclore, comemorado todos os anos no dia 22 de agosto, fundamentado pelos seguintes motivos:


1) O paulatino esquecimento e indiferença da sociedade brasileira quanto à importância da preservação das figuras do folclore nacional, que vem se desidratando na mesma velocidade das ações contra o meio ambiente, habitat originário das mesmas, fonte da energia que as nutrem.


2) A decorrente evidência da baixa autoestima do brasileiro, que só entende ter valor o que vem de fora, muito por conta da mentalidade colonial entranhada e transmitida há gerações, a ponto de importar datas e hábitos de outra cultura, sem sequer saber o seu significado.


3) O preconceito e vergonha subliminares que o brasileiro adquiriu, contra as figuras do seu folclore, em virtude destas terem suas origens nas florestas, nos rios, bem como predominantemente de origem indígena, negra e cabocla, denotando um evidente genocídio e racismo culturais, reflexo do que a própria sociedade vem praticando.


E assim, estando todos de acordo, encerram a presente Ata, que segue assinada, com sangue e lágrimas, por todos.


Rio de Janeiro, 31 de outubro de 2023.


Fim.


Música do dia: Amanhã é 23 (Kid Abelha) – única referência ao dia 22 de agosto que ainda repercute.

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Créditos: canto inferior direito da gravura.

 
 
 

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