top of page

Baseada em Fatos Reais

  • Foto do escritor: Roger
    Roger
  • 13 de jul. de 2021
  • 4 min de leitura

“Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.”

Rubem Alves



Como em muitas outras sextas-feiras à noite, em uma época que era possível reunir os amigos, ou colegas de trabalho, ou familiares, para jogar conversa fora, expiar as toxinas físicas e emocionais que absorvemos durante a semana repleta de congestionamentos, de cheiro de gasolina e óleo diesel (me lembra uma música), dos pacotinhos de balas e gomas de mascar pendurados no retrovisor, no retrovisor dobrado pela motocicleta, da motocicleta que chega pelo menos meia hora antes, do tempo que está sempre à frente, das filas no metrô, no ônibus, na entrada do elevador, na entrada do restaurante por quilo, no caixa do restaurante por quilo, do sono depois do almoço, das metas cobradas, das caras feias dos gerentes, das contas pagas em cima da hora, eis que chega mais uma, como bálsamo que promete aliviar as tensões...


Às vezes para jogar cartas, às vezes para jogar aquele jogo de tabuleiro e dados - onde cada um dos jogadores tenta dominar o mundo plano, desenhado e dividido por cores - ou mesmo só para conversar; mas fazer isso dá sede e fome, e as sextas-feiras têm um cheiro inconfundível, que se espalha pelas ruas, pelos elevadores, e resistir à tentação em pedir outra coisa que não seja pizza, é um hercúleo exercício de convicção, disciplina e perseverança.


Após o tradicional empurra cardápio para a pessoa do lado, e a protocolar indecisão para escolher as de sempre, alguém liga, faz o pedido, confirma o valor, pergunta de novo para todos se é só isso mesmo, pergunta quanto tempo leva para chegar.


Só que a pizza não chega.


E assim se passam dezenas de minutos; o telefone da pizzaria só dá ocupado, e a fome comendo os estômagos de todos; sem qualquer sinal de que o pedido apareça e, com o bom- humor típico dos bons amigos e amigas que celebram as pessoas e não o que se come com elas, nada que aquele pão de queijo no freezer, e a pipoca que está sempre de prontidão, não resolvam, e a diversão continua garantida.


Mas o tempo passa – e é isso que ele sabe fazer de melhor – e o findis vai embora; tal como uma luta de MMA, vem aquela sensação de que descansamos um minuto para lutar durante cinco outros. A mesma romaria profana, a mesma impressão de que as distâncias aumentam, o mesmo empurra-empurra, as mesmas filas, a mesma redução dos ganhos...


O tempo traz outra sexta-feira, mas desta vez, compromissos de um, serão de outro, viagem a negócios deste, filho doente daquele, empurram a saudável reunião “detox” que só as boas amizades proporcionam para outra oportunidade; então, entre relatórios, apostilas, olhadas nos aplicativos e a troca de canais frenética na TV, eis que o interfone toca...


É a pizza.


O porteiro avisando que a pizza acabara de chegar.


Mas nesta sexta-feira não se pediu pizza.


O endereço estava certo, mas só depois de entrar em contato com a pizzaria se revela a verdade dos fatos:


A pizza era aquela da sexta-feira anterior, que não havia sido entregue.


Cordialmente se arguiu que, com uma semana de atraso, a pizza não tinha mais sentido; o outro lado, por sua vez, defendeu que o importante era que a pizza tinha sido feita, só não tinha sido entregue, o que consistia em um mero detalhe.


Ousou-se perguntar, considerando o diálogo meio sem sentido, se a pizza que se encontrava na portaria era a mesma que deveria ser – e não foi – entregue na sexta passada, quando se recebe uma resposta afirmativa, que se trata da própria.


Fria. Dura. Seca. Imprópria para o consumo de qualquer ser vivo.


O ponto culminante do evento acontece após uma simples e corriqueira pergunta:


- Débito ou crédito?


O relato acima é um episódio claro de ficção; embora não seja impossível, felizmente é muito pouco provável. Mas como o título já adianta, a descrição acima está baseada em fatos reais, mas não no setor de delivery, mas dentro do sistema considerado o mais importante de nossa sociedade – ao menos retoricamente – que é a escola.


Professor aplica, durante o período (que pode ser bimestre ou trimestre), atividades de avaliação, as quais são antecipadamente informadas aos alunos e responsáveis, como parte do processo de aprendizado.

Um aluno, a despeito dos avisos, deixa de entregar uma ou outra atividade.


Às vésperas do fechamento do período, para a apuração da nota final, a mãe do referido aluno entra em contato com o docente, solicitando que considere as avaliações não entregues pelo filho.


A despeito dos argumentos do profissional do ensino, que atributos como atenção, dedicação, participação e tempestividade nos compromissos estabelecidos, fazem parte do processo educacional, bem como do irrefutável fato de que a quase totalidade dos demais alunos, rigorosamente iguais em direitos e deveres – requisito exigido para toda a vida em um país democrático – cumpriu com os mencionados compromissos, obteve como resposta da genitora:


- Meu filho fez as atividades, ele só não as entregou.


A resultante do embate, que obviamente extrapolou a esfera do diálogo reportado, foi a imposição ao docente em aceitar como feito o não feito, entregue o não entregue, a avaliação póstuma de atividade morta dada como viva.

Existem muitos professores comendo muita pizza fria, dura, seca e rançosa, entregue pelos próprios pais.


Para bom entendedor, pingo é letra...


Música do dia: Ouro de Tolo (Raul Seixas)


Créditos: www.timeout.pt

 
 
 

1 comentário


waleme64
13 de jul. de 2021

Interessante a meditação sobre o ensino. Para refletir. Acerca do tempo, verdade que esse realmente passa e passa e isso é o que faz melhor. Por isso mesmo é que tento viver o hoje, com o que tenho, intensamente.

Curtir

(11)94300-8520

Formulário de inscrição

Obrigado(a)

©2020 por Deixa Disso!. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page