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Compostos de Carbono

  • Foto do escritor: Roger
    Roger
  • 2 de jun. de 2020
  • 6 min de leitura

“Quem vive no passado, não tem presente,

mas quem ignora o passado, não tem futuro...”

(Minha mesmo, ao menos não encontrei outra igual)



- Teremos alguns desafios pela frente!


- Já tinha percebido sua tensão!


- A matriz biológica das criaturas deste planeta foge, e muito, do que há muito estamos acostumados a lidar. O resultado de nossa criação vai apresentar diferenças significativas. Organismos formados basicamente por compostos de carbono, hidrogênio e oxigênio, e um teor altíssimo de água, substância que predomina na superfície.


- Um porcentual tão grande de água vai produzir uma criatura muito instável! Talvez seja o caso de avaliarmos se é viável ou não fazer a replicação com esta matéria prima.


- Não temos escolha e nem tempo para procurar outro lugar; e a finalidade principal poderá ser atingida, apesar de alguns efeitos não desejáveis. Os seres vivos daqui são notáveis, uma exuberância e variedade de espécies em diferentes estágios evolutivos, vivendo em um intrincado sistema interdependente, que interage com os gases atmosféricos, a luz e o calor da estrela e a gigantesca quantidade de água.


- Uma curiosidade comum em praticamente todas as espécies, principalmente nas mais complexas, é o sistema de absorção indireta de energia, sempre através da subtração da vida de outro ser, o qual é decomposto internamente por um sistema químico, o qual absorve substâncias mais simples, para depois serem convertidas em energia, eliminando resíduos incompatíveis. Mesmo os organismos que vivem fixos, realizam uma combinação de substâncias as quais, catalisadas pela luz da estrela, convertem em nutrientes.


- Primitivo esse mecanismo; nossa criatura pode ser melhorada?


- Não. Contém alguns avanços, mas não foi possível produzir um sistema mais direto. Consequência da matriz disponível. Esse corpo com divisões especializadas para cada função, embora possua uma engenharia formidável, deixa-o consideravelmente vulnerável; na hipótese de dano mesmo parcial de determinadas partes, a mesma pode provocar falência total do organismo. Não foi possível também conceber um corpo mais resistente, o que pode significar dificuldades para a sobrevivência, em um lugar onde os demais seres possuem proteção externa mais consistente e adaptada; entretanto, como seu centro de processamento neural é bastante avantajado, talvez compense, com sucesso, essa fragilidade.


- Em outros termos, você quer dizer que existe a probabilidade significativa de que o espécime possa, graças ao processador, apropriar-se dos recursos do ambiente, abstrair daí alternativas para sua proteção, e criar ferramentas que estendam e multipliquem sua capacidade. Isso não pode, com o passar dos períodos, fazer com que o espécime fique dependente dos próprios artefatos? Há eras não se tem casos semelhantes!


- No momento, existem outros aspectos mais relevantes para lidar, embora essa possibilidade seja real. Esta criatura vai atender aos propósitos que nos trouxeram aqui, porém com muitas situações não previstas.


- Sua tensão aumentou! Chamou a atenção dos demais exploradores, que estão regressando para a base. Qual é ou quais são os motivos para essa alteração?


- Além da matriz biológica e suas propriedades, a codificação das formas de vida daqui, não aceita a memória genética coletiva.


- Isso é possível?


- Fiz essa mesma pergunta várias vezes, e o mesmo número de simulações; memória genética ausente. Ou seja, gerações posteriores deste espécime surgirão sem as informações e conhecimentos adquiridos pelas gerações anteriores. Além disso, a absorção do conhecimento, que fazemos coletivamente, não será possível, salvo se compartilhado através de mecanismos externos, como a linguagem. Uma consequência provável desta ausência pode ser a presença de criaturas as quais, por terem maior acúmulo de informação, venham a se considerar diferenciadas das demais.


- Pelo que estamos percebendo, ainda tem mais.


- A instabilidade da matéria prima, como já foi dito, também tirou do espécime a capacidade de conexão psíquica entre seus semelhantes. Como não temos referências anteriores, só será possível inferir algumas possibilidades:


“As ações de um indivíduo, bem como seus desejos e interesses, não levam em consideração os efeitos sobre seus pares, e o contrário pode ocorrer também da mesma forma.”


“A ausência de um mecanismo genético e psíquico de integração coletiva pode fazer com que um indivíduo, ainda que da mesma espécie, enxergue os outros como diferentes.”


“Cada indivíduo terá a capacidade de vivenciar ou considerar um mesmo fenômeno de diferentes formas.”


- Sobre esta última hipótese, parece ser edificante; qual seria o problema?


- O acréscimo de perspectivas sobre um mesmo fenômeno sempre é agregador; entre nós, como decisões e efeitos são percebidos por todos, não ignoramos quaisquer das versões, e as escolhas são assimiladas coletivamente. No caso dessas criaturas, a resistência de uma à versão da outra pode desequilibrar a convivência. Mas reconheço que tenho dificuldade em vislumbrar os efeitos.


- Mas os testes estão apresentando também respostas peculiares, que podem ser extremamente úteis para os espécimes:


“Foi possível implantar em todo o corpo os pontos de redistribuição das energias, o que permitirá que os indivíduos realizem o reequilíbrio físico e, em muitos casos, até a reversão de afecções somáticas.”


- Resta saber se, inexistindo sistema genético-hereditário, nem integração psíquica, se conseguirão fazer uso do procedimento, e mesmo transmitir para os demais e gerações futuras.


- É uma incógnita a ser resolvida, mas não estaremos aqui para conferir. Continuando:


“A estrutura biológica das criaturas assimila muito bem as energias que são emanadas, tanto do satélite, como da estrela e dos demais planetas do sistema.” Sua questão anterior é igualmente pertinente neste caso.

- A quantidade de eventos adversos, ainda assim, é considerável; não seria o caso de abandonar o processo de criação?


- Como disse antes, não temos alternativas e nem tempo! O que está sendo feito permite que os objetivos sejam atingidos, e as intercorrências não interferem na finalidade principal. A dificuldade maior está em estimar os efeitos da criação em uma plataforma biológica tão rica e ao mesmo tempo tão rudimentar, e a falta de retrospectos que auxiliem a estimar quais os resultados possíveis, em virtude de tão raro e exclusivo sistema. Em breve, teremos que partir, uma vez que a trajetória ideal se aproxima.

- Nossa percepção ainda denota tensão. Pelo visto, ainda existem imprevistos...


- Pois bem. Os testes estão demonstrando que, pela falta dos recursos psíquico-genéticos, o espécime tem uma exacerbada dependência dos sentidos físicos; embora perfeitamente adaptados ao meio ambiente daqui, a percepção externa e respectivas reações ante o que se chamaria de realidade está circunscrita aos estímulos mais próximos e imediatos. Apesar das várias tentativas de dotar a criatura de capacidade de percepção além dos sentidos existentes, esta forma poderá ser incapaz de identificar uma forma de vida que possua outro espectro sensorial, ainda que esteja diante de si.


- Precisamos partir. A trajetória ideal para o retorno está se aproximando! Entendemos a pertinência de liberar a colonização, a despeito da dissonância estrutural, quase incompreensível para nós. Quais são as últimas considerações e procedimentos?


- Serei breve, pois as próximas providências exigem rapidez:


“Constatei considerável confusão entre a percepção do corpo astral da criatura, e as projeções inconscientes, que parecem ser descargas desordenadas de estímulos externos capturados; tais descargas, pelo observado, ocorrem frequentemente nos períodos de repouso, necessidade comum na quase totalidade dos seres vivos daqui. Essa confusão, muito provavelmente, dificulta a identificação por parte da criatura, do que é real (o corpo astral) e os lampejos aleatórios ou mesmo os que possuam alguma aparente coerência.


“Apesar de incontáveis testes, e a certeza de que geneticamente as criaturas são idênticas, suas características exteriores apresentam diferentes texturas. Não há uma explicação ainda para o fenômeno. Totalmente iguais estruturalmente, mas com diferenças superficiais perceptíveis para seu espectro de sentidos. Por precaução, o último procedimento antes de partirmos será distribuir os espécimes em locais diferentes do planeta.”


- Se suas projeções estiverem corretas, considerando as características apresentadas, os espécimes que criamos e estamos acabando de deixar, não terão memória genética, não absorverão o conhecimento e a experiência anterior adquiridos, tendendo a reproduzir ações malsucedidas no passado; cujo teor de água deixa o organismo instável; de fragilidade física para sobreviver neste ecossistema; que terão considerável dependência dos órgãos sensoriais imediatos, os quais não permitem identificar seres de matriz biológica distinta, além da possibilidade de não reconhecer outro indivíduo da mesma espécie como igual... Quais são as reais possibilidades desta criação sobreviver?


- Só poderemos responder à pergunta quando retornarmos. O projeto foi concluído, dentro do período planejado, embora no tempo justo. Estamos partindo deste curioso, peculiar e fervilhante planeta. E carregando um desconforto incomum, inédito ao menos para nós. Isso nunca havia acontecido antes.


- Definitivamente, essa criação não se parece conosco...



Música do dia:

"Lincharam o Viajante Espacial", de Eduardo Dusek





 
 
 

2 comentários


waleme
03 de jun. de 2020

Nem os ETs nos quiseram.

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denise2729
denise2729
03 de jun. de 2020

Não estaremos aqui...

Em que orbe estaremos?

Quem seremos?

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