Discurso sobre a Dependência
- Roger

- 10 de ago. de 2021
- 3 min de leitura
“Ela descobriu que precisava dele, e isso a deixava desesperada... Queria continuar amando-o mas sem precisar tão violentamente dele.” Clarice Lispector
A dificuldade de se distinguir necessidade e desejo pode ser entendida, dentre várias outras formas, como uma lacuna do autoconhecimento; quando terceirizamos o conhecimento de nosso corpo, de nossa mente e de nossa alma para outros dizerem quem somos, uma larga avenida se abre, para se sejam incutidas nas pessoas um conjunto de pensamentos e coisas as quais, sem elas, inviabilizam nossa própria identidade.
Com o passar das gerações, crescemos convictos de que coisas e condutas são imprescindíveis para a nossa sobrevivência, ainda que de fato não sejam.
Além disso, através de um processo que vem ocorrendo desde a década de 70 do século passado, de forma subliminar, passamos a atribuir valor para as coisas em detrimento das pessoas, ou seja, o produto adquirido acaba definindo a pessoa, é o produto que detém os traços da personalidade; sem este, a pessoa está incompleta diante das demais. É preciso ter o produto para que a pessoa seja reconhecida pelas demais como tal. O cigarro que nos leva para aventuras inéditas e de vanguarda, a bebida que concede a virilidade, a calça jeans que nos dá a liberdade, o carro que nos faz invulnerável quando dentro dele.
O aplicativo de celular que nos transforma em celebridades instantâneas, com duração igualmente instantânea.
É uma das facetas da dependência, quando nos convencem de que necessitamos daquilo que, de preferência, não temos. O valor está fora do indivíduo, somente tendo o objeto de desejo incutido de fora para dentro, é que teremos valor e reconhecimento social; talvez por isso seja tão recorrente a disseminação de produtos falsificados. Parecer ter já alivia a sensação de incompletude ante a necessidade premente de obter aquilo que nos dá alguma personalidade.
Outra faceta da dependência aparece quando a coisa, o produto, altera nossa percepção sensorial, a ponto de o próprio organismo passar a “pedir” esta ou aquela coisa ou substância; talvez não exista forma mais eficaz de garantir a venda de determinadas coisas do que condicionar o próprio corpo para que estas se transformem em necessárias. A nicotina que se traga, a sacarose, o sódio e a gordura que se ingere, instituindo a ditadura do paladar, a inebriante sedução etílica.
Os antiácidos (antes e depois), os analgésicos, os energéticos, os estimulantes, os laxantes, os excitantes, os calmantes, os polegares para cima, os auto-retratos, em um ritmo frenético como se não houvesse mais amanhã (parece letra de música).
As pessoas se tornam dependentes daquilo que possuem, pois sem elas não se imaginam enquanto indivíduos.
As pessoas se tornam dependentes daquilo que não possuem, pois com elas se imaginam indivíduos melhores do que acreditam ser.
Mas as pessoas também se tornam dependentes também por opção; são os dependentes por comodidade ou conveniência: comuns nas organizações religiosas, quando se submetem à divindade que supostamente devotam, transferindo palavras e atos para que seu Deus-Servo as pratique no seu lugar, quando atitudes que deveriam ser tomadas pelos fieis passam a ser esperadas pelo seu senhor. Desta forma, os fracassos, os desvios, os objetivos não alcançados ou abandonados pelo caminho, passam a ser de responsabilidade exclusivamente divina, pois esta, por motivos insondáveis, não realizou aquilo que deveria ser atribuição de seus servos.
Tal modalidade de dependência é encontrada com certa fartura nos meios políticos; a prática de manter o país em posição genuflexa, privando a capacidade interna de desenvolver a pesquisa, o ensino consistente, as capacidades individuais e coletivas, em favor de interesses corporativos, e mesmo de outras nações, vai aos poucos deixando a nação corcunda, incapaz de levantar a cabeça e vislumbrar as próprias perspectivas e capacidades.
O indivíduo que não sabe ler, fica à mercê da boa fé de quem sabe.
O indivíduo que não conhece a si mesmo, bem como seu potencial e suas habilidades, entrega os mesmos para servir às potencialidades dos outros.
O indivíduo ou coletividade que não sabe administrar os próprios conflitos, fica à mercê daqueles que se apresentam para resolvê-los. Como não sabe resolver, também não sabe se foi resolvido.
O indivíduo que não conhece o próprio corpo, fica à mercê de quem supostamente o conhece.
O indivíduo que não enxerga nada além do que está na palma da mão, entre os olhos e o umbigo, está à mercê de quem produz o conteúdo hipnótico e subliminar que surge na tela, mesmo quando é o próprio indivíduo que (acredita estar) está criando.
O discurso sobre a Dependência é o segundo degrau de cinco.
Música do dia: “A Permuta dos Santos”, de Chico Buarque








Quantas verdades em um único texto. Quantas coisas para internalizar!