Discurso sobre a Desagregação
- Roger

- 24 de ago. de 2021
- 3 min de leitura
“...E o futuro não é mais como era antigamente...”
(Renato Russo – Legião Urbana)
Embevecidos e absortos pelo desejar frenético por tudo aquilo que nos convencemos ser indispensável, mesmo sem saber distinguir o que é desejo e necessidade, nos tornando dependentes tanto do que não precisamos e daquilo que não temos (principalmente), restaria saber como cada um irá fazer para saciar crescente, intensa e constante demanda. Como os desejos, todavia, são ilimitados, é possível inferir que não tem como atender a todos.
É uma conta que não fecha.
Isso implica na forma como o indivíduo vai agir para obter o que deseja, dependente que está daquilo que desconhece, porque sua identidade, segurança e reconhecimento social estão em jogo; afinal, “sou porque tenho, sou porque me dão sinal de positivo, sou porque preciso parecer alguém que não sou de fato”.
A partir daí talvez surja uma nova questão.
O desenvolvimento das sociedades, a partir do momento em que a humanidade deixou de ser nômade, dentre inúmeras consequências de diferentes ordens, implicou na necessidade de se abrir mão da liberdade total (sim, aquela, de fazer o que bem entender) em troca de garantias (de viver, de poder morar, de casar, de trabalhar e ganhar algum trocado, e por aí vai), as quais só funcionam se internalizadas coletivamente, ou seja, todos tiverem consciência dessa realidade, se submeterem a ela, e as praticarem.
Sabemos o significado da faixa de pedestres; é a garantia (no Brasil, nem tanto) de que por aquele desenho pintado no chão poderemos atravessar uma rua, porque os veículos e seus condutores sabem que, com gente atravessando, terão que parar. Sabemos que eructar à mesa é um gesto deselegante e deseducado, salvo em culturas onde o mesmo é condição essencial para informar que está satisfeito, e não deseja mais comer. Sabemos que a flatulência sonora e em locais fechados é uma afronta, uma ofensa, um acinte.
Todavia, com o passar dos anos, e coincidentemente de umas cinco décadas para cá, o mesmo mecanismo que vem transferindo o valor que está nas pessoas para as coisas, vem também nublando nossa capacidade em distinguir o que é de cunho pessoal do que é coletivo.
A verticalização das moradias, a precariedade dos transportes de massa, os trajetos infindáveis entre trabalho e lar, a prioridade ao transporte individual; a redução silenciosa e definitiva dos processos de socialização nos clubes recreativos, a fragmentação das relações de trabalho e a redução paulatina dos vínculos entre as empresas e seus funcionários; os lares se transformando em micro-feudos, onde cada núcleo determina seus valores e interesses; a perda da capacidade de lidar com os conflitos, dentro das comunidades em geral, independente da “classe” social; as escolas, sejam elas públicas ou privadas, cada qual por motivos específicos, outrora lugares para a transmissão de conhecimentos e a prática da sociabilidade, hoje ou são depósitos, ou locais para entretenimento, ou espaços para ritos de passagem, onde os educadores, premidos pelas necessidades imediatas, e espremidos tanto pelas instituições como pelos genitores, estão sendo transformados em bombeiros/animadores, apagando incêndios constantemente provocados por quem deveria primordialmente evitá-los.
Ensimesmados e umbilicocentrados, com o corpo, mente e alma terceirizados, sem saber distinguir entre necessidade e desejo, e sem saber o que é necessidade individual e coletiva, nos tornamos presas fáceis de quem nos faz pagar – e caro – pelos objetos de desejo. Na verdade, apenas os que podem. Na verdade, quem pode e de preferência que os demais não saibam como pode.
O próximo deixou de ser o oprimido solidário para ser o problema. A percepção inconsciente de que não tem para todo mundo transforma o outro no inimigo, aquele que tira o lugar no transporte público, que ocupa sua vaga no estacionamento do shopping, que engrossa os intermináveis congestionamentos, que pede um trocado em cada cruzamento, que tira o emprego; e para cada um desses indivíduos, os mais variados rótulos, impublicáveis.
O tecido social está esgarçado, e o som da ruptura tem várias tonalidades: o gemido de dor de quem perdeu gente querida para a desinformação, da violência doméstica, dos abusos a menores, das pessoas humilhadas por conta da cor de sua pele, da sua orientação sexual ou por ser mulher.
Esse mesmo tecido, carcomido, tem o cheiro de ranço e de decomposição avançados da moral religiosa hipócrita, cujo discurso e práticas são tão distantes quanto os pólos.
Tem o gosto de sangue e fel, das vítimas inocentes das “balas achadas” (se fossem perdidas não haveriam vítimas), das crianças espancadas até à morte, com a complacência dos genitores, das mulheres que ousam ocupar seus lugares de fala, das notícias falsas que matam mais que placebo.
O pior de tudo isso, talvez, esteja na nossa conduta, seja ela indiferente, omissa ou negligente, e que Marina Colassanti sentenciou, profeticamente, décadas atrás:
“A gente se acostuma...”
O discurso sobre a desagregação é o terceiro de cinco.
Música do dia: Índios (Legião Urbana)
Créditos: freepik.com








Quando o ter sobrepõe-se ao ser! Quando s indiferença das pessoas com o outro, que talvez só precise de um “bom dia” ou “estou aqui”. Quando percebemos que não somos porque não temos, não somos porque não pertencemos, não somos porque não podemos. Como canta Oswaldo Montenegro: “…Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora…”
Parabéns pelo excelente texto! Gratidão!