Discurso sobre a Desigualdade
- Roger

- 7 de set. de 2021
- 3 min de leitura
“[...]Onde você ainda se reconhece, na foto passada ou no espelho de agora?[...]”
(A Lista, música de Oswaldo Montenegro)
A busca pela satisfação dos desejos, os quais nem sempre necessários (mas como saber?), que nos tornam dependentes daquilo que nem sabemos se necessitamos e normalmente não temos, e a percepção de que não há como satisfazer a todos, o que estimula sua saciedade através de atitudes individualistas (muito por não mais se saber até onde pode ir o individual e a partir de onde pode ir o coletivo), acaba criando uma situação onde inexoravelmente alguns muitos conseguirão obter tudo o que desejam – mais até do que realmente precisam – não importando como o fizeram, enquanto alguns muitos, ao contrário, deixarão de ter até o essencial.
Se Lavoisier ainda estiver correto, e se Thanos também estiver correto (ao dizer que o universo é finito), se alguém tem demais, alguém tem de menos.
A desigualdade, depois da guerra, talvez seja o maior flagelo criado pelo Homo Bellicus (porque de Sapiens, vem demonstrando que não tem nada).
Verdade seja dita, a desigualdade não é fruto ou consequência do desejo, da dependência ou da desagregação, tal como está sendo concatenado esse conjunto de provocações; na melhor das hipóteses, a desigualdade é intersecção de diferentes trajetos, destino compulsório tal como a estação da Sé, do metrô paulistano; e essa sequência é apenas uma forma diferente de olhar para a resultante das escolhas feitas pela humanidade.
Uma forma de ver quem realmente somos, com base nas atitudes que tomamos.
Certamente existem diferentes formas de se definir desigualdade, mas seria uma tarefa desigual esgotar o conceito.
As relações desiguais entre os seres humanos vem de (muito) longa data, e a História tem farto repertório de exemplos de diferentes sociedades, impérios, dinastias, mitologias, as quais se sustentam fundamentalmente através da distinção valorativa, desqualificadora, discriminadora e segregadora, subjugando muitos em favor de poucos.
Tornar o outro - seja pela sua origem, pela sua etnia, pelo seu credo, pela sua condição cultural ou mesmo econômica - diferente, desigual e consequentemente inferior, é condição imprescindível para sustentar as estruturas sociais dominantes durante séculos, e nos dias de hoje não é diferente.
A igualdade pressupõe a distribuição de bônus e ônus da vida social para todos.
Para alguns, isso é insuportável.
Tanto no passado como no presente, a desigualdade é intrínseca ao sistema, do qual alguns muitos de nós usufruímos, mesmo sem perceber, reforçando sua permanência.
Não saber ao certo quem somos, ou do que precisamos, bem como ignorar a existência do outro, facilita as coisas.
Assim, reproduzimos as relações que garantem que a desigualdade se prolongue, indefinidamente.
A ciência, há décadas, vem avisando que não existem mais recursos naturais para todos os seres humanos, com um mínimo de dignidade; isso significa que todo e qualquer político que prometa uma vida melhor para todos sem reavaliar a forma como vivemos, estará faltando com a verdade.
A carência perene de bilhões de seres humanos é a garantia perene de que alguns milhões poderão jogar o lixo em qualquer lugar, porque alguém que a gente não conhece vai recolher; que poderão comprar videogames para seus filhos, produtos que possuem alguns componentes que são vendidos por países que recebem o pagamento para assassinar inocentes e armar crianças para a guerra (enquanto nossos jogadores atiram em alvos virtuais, estes atiram e morrem de verdade).
Para cada brinde nas festas de final de ano, tem um contingente que fica literalmente de fora da festa, para garantir os risos desenfreados, a glutonaria desmedida, a mesma cantoria e as promessas futuras esquecidas já na alvorada; os plantonistas, entregadores, porteiros, os socorristas; os motoristas, os cobradores, os camelôs, os artistas...
O modo de vida onde estamos inseridos é dependente e se apoia na desigualdade; sem drenar da base desta “pirâmide social”, as suas energias, necessidades, e inclusive suas perspectivas, as camadas nela apoiadas não se sustentam. E lamentavelmente, os sistemas políticos, que tanto são discutidos e debatidos fervorosamente hoje em dia, na prática se assemelham; estilos diferentes, mas com resultados iguais.
O Discurso sobre a Desigualdade é o quarto de cinco.
Música do dia: “Que as Crianças Cantem Livres”, de Taiguara.
Gravura de Cristina Orlando








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