Discurso sobre a Dominação
- Roger

- 22 de set. de 2021
- 4 min de leitura
“A natureza dos homens soberbos e vis é mostrar-se insolentes na prosperidade e abjetos e humildes na adversidade.”
(Nicolau Maquiavel)
É evidente que não existe, de fato, correlação direta e sequenciada, entre os discursos anteriores; seria no mínimo algum tipo de presunção acreditar que essa escada possua uma interdependência, a ponto de responder e ou explicar o processo que culmine na dominação. É possível encontrar tais fenômenos imiscuídos nas relações entre quem domina e quem se deixa dominar? Evidente que sim, mas não necessariamente desta forma.
O que talvez seja possível admitir, contudo, é que desejo, dependência, desagregação e desigualdade, se comportem como catalisadores, acelerando, dinamizando e estimulando o processo de dominação, em favor de quem domina, é claro, e em desfavor de quem é dominado.
Desde que o mundo é mundo, tem gente querendo subjugar os outros, e a História, a Ciência Política, a Economia, o Direito, dentre outras áreas do conhecimento, têm fartos e incontáveis exemplos que demonstram a incontrolável, sedutora e viciante vontade de fazer a sua vontade através do esforço alheio, a versão embrionária do que denominamos de poder.
Já assistimos ou estudamos diferentes formas de exercício do poder; até porque, nem sempre quem quer exercer o poder encontra facilidade para tal satisfação. Algumas organizações humanas exerciam o poder sobre aqueles que não estavam dispostos a aceitar, através da força física, militar, tal como em vários impérios.
Os estrangeiros, ou os capturados em guerras, se transformavam em escravos, retirando dessas pessoas sua liberdade, sua individualidade, sua identidade, sua dignidade, a fim de garantir a manutenção do status quo daqueles que acreditavam ser merecedores desse domínio.
Argumentos dos mais variados também eram utilizados para justificar a subjugação do outro, daquele que não era igual; em épocas muito distantes (às vezes nem tão distantes assim), tanto segmentos religiosos como científicos se debruçaram para encontrar sustentação para classificar indígenas, povos pré-colombianos, negros e nativos de regiões do sudeste asiático, por exemplo, como seres não-humanos, a fim de justificar sua submissão ou mesmo extermínio.
Os séculos passaram, e outras formas, mais sutis, foram implantadas não através da força física, mas através da exportação dos costumes e do modo de vida característico dos dominadores. A percepção de que o indivíduo pode ter o produto, as vestes, a goma de mascar, tocar e cantar as músicas, absorver parte do idioma, pôde trazer e incutir a (falsa) ideia de que é igual àquele que o manipula, oprime e explora, querendo daquele apenas os dinheiros advindos do consumo, e os recursos naturais, enquanto matérias-primas, daquilo que aquele irá pagar para ter de volta.
Uma vez internalizada a ilusão, passamos a crer firmemente de que somos sujeitos, e não objetos, ou na melhor das hipóteses, substantivos coletivos, muito em voga nos tempos em que esta provocação está sendo escrita. Barulhentos, estrondosos, agitados, indomáveis e sem direção.
Alguns muitos acham que, só porque votam, estão em uma democracia.
Outros, não poucos, só porque foram içados do samburá e ofuscados pelo brilho do anzol, acreditam que deixaram de ser iscas. Alguns outros, só porque se parecem com uma vara, acham que estão pescando.
Atualmente, ou melhor, quando esta missiva de destinatário incerto está sendo redigida, uma nova forma de dominação grassa velozmente de mão em mão, através dos universos privativos, ajustáveis e maleáveis como aquelas massas de modelar, que as crianças usam na pré-escola, e que comumente chamamos de telefones inteligentes.
Afinal, alguma coisa precisa ser.
De uns tempos para cá, cada um pode construir seu personagem, montar seu próprio show, realizar sua própria turnê, compartilhar até que está feliz, sarado, satisfeito e abastado, ainda que não esteja. O resultado final produzido pelos inúmeros recursos contidos na palma da mão transforma qualquer um em celebridade instantânea, tudo é possível dentro das quatro linhas que contornam seus aparelhos. Cada um agora pode ter seu próprio universo particular – de preferência, não à sua (real) imagem e semelhança.
Olhando por esse ângulo, talvez Thanos esteja equivocado, ao dizer que o universo é finito.
Os efeitos do uso indiscriminado dessa lâmpada repleta de gênios e desejos, dentre muitos – e reconhecendo inclusive inúmeros benefícios e facilidades, bem como reconhecendo que é a forma como se usa a ferramenta que determina sua eficácia - estão relacionados com a capacidade dos indivíduos em construir sua própria noção de realidade, tanto daquilo que é fato no presente, como daquilo, inclusive, que já passou.
A relativização e customização acelerada de conceitos, da noção de verdade, de realidade, do que é individual e do que é coletivo, permite que cada um chegue a uma conclusão distinta da outra, ainda que tenham sido testemunhas oculares de um mesmo fenômeno. O fato dá lugar para a versão, e o que nunca foi fato se torna real.
Os séculos demonstraram que a sede pelo poder, pela possibilidade de ver populações prostradas e submissas, sempre esteve presente na mente daqueles que o buscaram a qualquer preço.
Todavia, parece que nunca foi tão fácil exercer o poder: absortos, inebriados, umbilicocentrados, entorpecidos, ensimesmados, encapsulados na solidão coletiva, muitos de nós, sem saber quem somos, do que precisamos, do quanto precisamos, se precisamos, como obtemos, porque obtemos, para quê obtemos, de quem obtemos, nos tornamos escravos de nós mesmos.
E ainda pagamos para isso. E não pagamos pouco.
E ainda nos voltamos contra o outro, porque o outro deixou de ser o igual para ser o culpado; de vítima solidária para a causa de todos os problemas; é o outro que deixa a fila mais longa, que encarece a carne, a pinga e a gasolina; é o outro que tira o meu emprego, senta no banco do ônibus, no meu lugar; é o outro que ocupa a vaga do estacionamento no shopping, que está sempre lotado; que é o outro que me obriga a empurrar com toda a força para entrar no trem ou no metrô, e é o outro que eu empurro com toda a força para que não entre, quando a composição abre as portas na próxima estação.
O desejo de dominar sempre esteve presente na história da humanidade.
A novidade, agora, é ver os dominados se entregarem de bandeja, da mesma forma que aceitam cookies.
O Discurso sobre a Dominação é o quinto de cinco.
Música do dia: “Infinito Particular”, de Marisa Monte.

O Inferno (quando descobrir quem é o Autor da obra, publico o crédito aqui) de Dante.






Dominar o mundo. Desejo humano, não divino, acredito, porque Deus nos deu o livre arbítrio. No entanto, dominar vende. E vencer a tentativa de dominação vende mais ainda. Vende filmes, inclusive, veja os antigos do James Bond.
E aceito cookies, não tem jeito...