Ensaio sobre a Existência
- Roger

- 30 de jan. de 2024
- 3 min de leitura
"Penso, logo sou."
(René Descartes)
Existir talvez seja o ato ou o efeito de perceber, ainda que de forma erudita, intelectualizada ou racional, que o aglomerado que constitui o invólucro chamado corpo, faz parte de um conglomerado de outros pacotes, de diferentes formatos, e que, ou interagimos, ou dependemos, ou dependem (por incrível que pareça) de nós.
Existir - antes de mais nada - é um estado de percepção; e tal capacidade é fruto do muito tempo que o organismo que nos empacota hoje, levou para unir cada célula, para organizar e distribuir funções, manter coesas e integradas todas as suas partes, articular e concatenar seus movimentos, programar as prioridades, dentre outras características e habilidades.
Será mesmo?
Vista de outra forma, a existência é um fenômeno essencialmente coletivo, para a tristeza e frustração dos ditadores, dos egoístas, dos narcisistas e dos populistas carismáticos.
Voltando à questão da percepção, a resultante decorrente da história ou da passagem do Homo Bellicosus (porque de sapiens estamos devendo e muito) é a de que a capacidade de percepção construída ao longo do tempo apresenta algumas limitações; é fato que existe um ajuste adequado aos estímulos externos mais frequentes.
Entretanto, qualquer manifestação de existência que não se encontre no espectro sensorial, pode passar despercebida, ainda que outra existência fique a um palmo dela.
Ainda nos deparamos com uma capacidade típica e talvez exclusiva do ser humano (seja lá o que ser humano signifique) de suprimir voluntariamente a sua capacidade de perceber (no sentido de reconhecimento) a existência de outras formas, não só de vida, mas também dos seus semelhantes, fruto talvez da necessidade de autoafirmação através da negação do que não pertença ao seu espectro de aceitação.
A existência, todavia, e felizmente, independe da percepção deste ou aquele ser. Um asteróide não vai deixar de existir simplesmente porque alguém não o percebeu; um buraco negro, em sua sanha absorvedora, continuará desviando a luz mesmo que ninguém venha a testemunhar ou registrar sua força gravitacional irresistível.
Uma contradição?
Talvez.
Até porque as coisas não existem ou deixam de existir por causa da nossa vã e limitada capacidade de percepção.
Não fazemos a mínima falta para o universo, e nossas sensações não interferem na ordem e no caos que nos cerca.
Nossa capacidade de abstração – entenda-se como a capacidade de identificar algum fenômeno de forma particular, e de criar situações que não necessariamente estão acontecendo ao nosso redor, mesmo quando reagimos a elas – estende a percepção da existência, criando penduricalhos, os quais podem ter a finalidade de aplacar as intermináveis dúvidas e questões a respeito do que somos.
Coisas como “sentido”, “propósito”, “plano”, destino...
O conjunto de acessórios que nos auxiliam na percepção, e que nos fazem crer que existimos e que temos alguma função nesta vastidão cósmica, pode ser apenas uma forma mais simples de absorver e decodificar os estímulos que nos rodeiam; uma ilusão que permite que identifiquemos nossas necessidades mais básicas, e que assim possamos sobreviver.
De todo modo, o que chamamos de existência – real ou ilusória – nos revela uma infinidade de estímulos, muitos dos quais denotam o quanto podemos ser efêmeros e insignificantes ante a amplidão do que chamamos de universo; ao mesmo tempo, o quanto existir nos oferece de sensações aprazíveis, como quando apreciamos o nascer e o pôr do sol, o canto do que chamamos de aves, o quebrar das ondas, o riso dos filhotes humanoides quando brincam com cães, o silêncio balsâmico de uma prece; a inexplicável energia que emana de um abraço, de quando se agradece, de quando se perdoa, de quando se goza, de quando se estende a mão para ajudar alguém a levantar.
E mesmo assim, desperdiçamos o que talvez seja a abstração mais implacável, e talvez também o maior algoz da existência: o tempo.
Ilusão ou não, abstração ou não, com ou sem sentido ou propósito: existir é um convite para fazer valer cada uma das existências que atravessam o nosso caminho.
Um presente que ainda sequer desembrulhamos.
Música do dia: “Gita”, de Raul Seixas
Imagem criada por mim através de recursos de Inteligência Artificial (?)








Viver é complexo, hein? A gente já sabia que não era fácil. Além de tudo, também é complexo.