Ensaio sobre a Vergonha II
- Roger

- 14 de dez. de 2021
- 2 min de leitura
“Às vezes, dois mais dois podem ser cinco...”
(De um conselheiro de um Tribunal de Contas, nos anos 90)
Do que você sente vergonha?
Pessoas são flagradas aglomeradas em estabelecimentos de entretenimento, os quais foram fechados em virtude de uma grave crise sanitária, sem máscaras, sem distanciamento social; todavia, ao perceberem a presença da mídia, escondem seus rostos, para que não sejam identificados ou reconhecidos.
Pessoas são flagradas portando ou guardando entorpecentes não legitimados legalmente, e a despeito de todas as evidências de que estavam no local da apreensão de livre, espontânea e convicta vontade, uma vez expostas, não hesitam em cobrir seus rostos, igualmente para que não sejam identificados ou reconhecidos.
Pessoas são flagradas ou detidas após as investigações apontarem provas do envolvimento das mesmas em pedofilia, e decorrente exploração econômica e, apesar das irrefutáveis evidências de participação consciente e deliberada, uma das primeiras reações seja transformar suas vestes ou qualquer coisa que esteja por perto, em um manto da invisibilidade.
O número de situações semelhantes é incontável, sendo então desnecessário ilustrar mais casos onde a vergonha, ainda que pontual e conveniente, seja a reação típica das pessoas que de algum modo se constrangem diante da publicidade de seus atos.
Talvez a forma mais comum ou a mais simples de construir o conceito de vergonha, seja a sensação de constrangimento, de vexame, de desonra, ante a exposição de um comportamento reprovável, seja legal ou moralmente falando; é possível inferir que esse tipo de vergonha seja a primeira auto-sanção, ou seja, a reação característica de quem tinha consciência de que o ato era publicamente condenável.
Todavia, o risco de ser descoberta, de sofrer reprovação pública, familiar, comunitária, religiosa, jurídica, considerando toda a estrutura social criada para controlar e coibir tais atos, não se faz suficiente para demover a ideia da pessoa em praticá-las. As causas para isso são muitas, e não é a intenção deste ensaio abordar as mesmas, ao menos neste momento; porém, tais motivações suplantam a possibilidade de sofrer uma censura social.
A forma mais eficiente de se evitar a vergonha, este tipo de vergonha em particular, talvez seja a simples inação, ou seja, deixar de fazer aquilo que sabidamente irá trazer transtornos se porventura a pessoa for flagrada, ou for descoberta de algum modo; resistir às tentativas diversas de se obter vantagens materiais ou os “atalhos” que se apresentam, encurtando trajetos que originalmente exigiriam mais empenho, mais estudos, mais lisura.
A vergonha é mutável, sujeita às mudanças de comportamento, do que cada sociedade entende por certo e errado, do que é aceitável ou não, mudanças que sempre ocorreram ao longo do tempo, ao longo do crescimento, desenvolvimento e da complexidade das sociedades, e atualmente tais mudanças vem galopando em velocidades cada vez maiores.
Parece também que a pessoa só se sentirá envergonhada se o conceito e conduta esperados já estiverem entranhados nela, ou seja, como sentir vergonha de algo que sequer sabe-se que é reprovável?
Nas próximas quinzenas tem mais.
Do mesmo modo que começou, este escrito termina com a mesma pergunta:
Do que você sente vergonha?
Música do dia: “Shame, Shame, Shame”, de Shirley & Company (disco dance)

Créditos: Hanna-Barbera Studios






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