Ensaio sobre a Vergonha III
- Roger

- 8 de fev. de 2022
- 4 min de leitura
“Vergonha é roubar e não poder carregar.”
(Ditado Português)
Do que você sente vergonha?
Verdade seja dita, o sentimento que está se denominando vergonha tem diferentes facetas, e uma delas em particular, talvez injustamente receba esse rótulo, talvez também por falta de um vocábulo mais pertinente: é admissível classificar de vergonha uma reação que pode ser timidez?
Pessoas que pela natural característica pessoal, não se sentem à vontade quando precisam, por exemplo, falar em público, cantar em karaokê, ou outras atividades, que não estejam vinculadas a questões de ordem legal ou moral, mesmo que estejam realizando ações plenamente aprovadas, social e moralmente, e lícitas.
Fazer esse pequeno parêntesis pareceu necessário, porque a timidez nem sempre é superável, mesmo quando as pessoas que possuem essa característica pessoal procuram, através de cursos e métodos consagrados ou duvidosos, meios para suplantar o acanhamento, a fim de realizar atos até então excruciantes.
Se é algum tipo de vergonha, nestes casos é por algo que a pessoa se sente incapaz de fazer, dentro de determinados padrões e critérios, e na maioria das vezes ocorre antes de fazê-lo, antevendo um resultado diverso do pretendido, geralmente de boa fé.
Definitivamente, não é sobre esse tipo de “vergonha” que se está falando.
A provocação e convite aqui se concentram no conjunto de atitudes que são moral, ética e ou juridicamente reprovados; uma vez expostos publicamente, geram um constrangimento e reprovação coletivos.
Revisitando os textos anteriores sobre o assunto, e retomando a provocação, o ponto de partida aqui começa com uma frase escrita no ensaio anterior:
“... o risco de ser descoberta, de sofrer reprovação pública, familiar, comunitária, religiosa, jurídica, considerando toda a estrutura social criada para controlar e coibir tais atos, não se faz suficiente para demover a ideia da pessoa em praticá-las.”
A partir deste excerto, duas preocupações surgem e que embora não sejam novidade para ninguém, podem contribuir significativamente para que o conceito e o sentimento de vergonha estejam paulatinamente se esgarçando.
A primeira preocupação está na percepção de que o desgaste decorrente de uma desaprovação pública, seja no seio familiar, profissional, político, etc., é menor do que o suposto benefício que o ato pode proporcionar para a pessoa que em algum momento, decide pela ação vexatória, pesando seus prós e contras, consumando seu intento acintoso.
Quando um estudante agride verbalmente seu professor ou professora (elas sofrem mais, por conta ainda do machismo estrutural), o faz sabendo, talvez, que diante de seus pais, reiterando a negativa do ato, será indultado inclusive pela direção da escola, que dependendo do tipo de estabelecimento, opta pela manutenção de uma receita financeira, em detrimento do docente, de sua dignidade e do simples respeito.
Quando “a carga do caminhão tombada no meio da estrada” (verso de uma música de Benito de Paula) se esparrama pela pista, gente de todos os lugares (arredores, bem como outros motoristas) se aproveitam e coletam os produtos que não lhes pertencem, procedem assim sabendo que em muitos dos casos, sequer perguntarão a origem daqueles produtos, em uma surda cumplicidade.
Quando uma pessoa espalha informações falsas deliberadamente, nas redes sociais, com o intuito de criar confusão a outros (e que com certeza teve também tempo para avaliar sobre a lisura ou não dos atos, bem como do constrangimento que pode sofrer se for exposto), com sérios riscos para a integridade física, social ou profissional destes, assim o faz porque seja pelo suposto anonimato, ou mesmo a colaboração de pessoas que possuem as mesmas intenções, a autoria se dissimula e se dispersa no universo virtual de verdades efêmeras, dos infinitos particulares dos umbilicocentristas, portadores de lordose cervical adquirida.
É para pensar se alguns muitos sequer têm o parâmetro balizador que suscitaria algum constrangimento.
O que traz à tona a segunda preocupação.
A segunda preocupação está, também, na percepção de que o processo de individualização acelerada, onde cada vez mais cada um é capaz de desenvolver suas próprias noções de certo e errado, de democracia, de liberdade e censura, de visão de mundo, de religião e de fé, pode estar desmanchando processos sociais que são natural e necessariamente construídos coletivamente.
Se por um lado a valorização do indivíduo e suas peculiaridades, seus talentos próprios, suas diferenças, desejos e necessidades específicas, é uma conquista muitíssimo bem-vinda, quiçá permanente, a vida em coletividade, em alguns momentos, exige ações e entendimentos comuns e coletivos, que se substanciam em valores e conceitos construídos consensualmente e de forma plural, a fim de que todos sejam capazes de compreender códigos, significados, procedimentos e condutas comuns.
Nesse sentido, a vergonha é diretamente proporcional à quantidade de entendimentos conjuntos construídos pelos indivíduos, para que as relações sociais transcorram de forma pacífica, constante e duradoura; quanto menores forem os entendimentos comuns, menores também serão as sensações de constrangimento que individualmente alertariam uma pessoa a pensar duas ou mais vezes, antes de agir de maneira ofensiva ao que fora coletivamente acordado.
Sem um referencial construído coletivamente, não há constrangimento individual.
Sem bons exemplos também.
Do mesmo modo que começou, este escrito termina com a mesma pergunta:
Do que você sente vergonha?
Música do dia: Daquilo que Eu Sei (Ivan Lins)
Créditos: www.gratispng.com








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