Hoje, Não!
- Roger

- 1 de jul. de 2025
- 4 min de leitura
“Em um estado sombrio nós nos encontramos… um pouco mais de conhecimento iluminar nosso caminho pode.”
(Mestre Yoda)
Naquela manhã histórica — que no futuro talvez entre para os livros como “A Grande Deserção” ou “O Levante do Giz” — aconteceu o impensável:
Os professores cabularam!!
Sim. Todos eles.
Ao mesmo tempo.
Como se uma força cósmica educacional tivesse sussurrado no ouvido coletivo deles durante a madrugada:
“Véi… Hoje, não! Vai descansar.”
E eles simplesmente disseram: “Demorô.”
De início, ninguém entendeu nada. Os alunos chegaram como zumbis fashionistas, tropeçando em mochilas de R$ 800, fazendo malabarismos para esconderem seus caríssimos smartphones, e aquele olhar clássico de quem foi dormir às quatro da manhã maratonando série ou jogando até o dedo formigar.
Sentaram-se (os que ainda lembram como faz isso) e abriram seus celulares com uma destreza que faria qualquer hacker sentir inveja, e típica de quem só usa uma caneta em dia de prova. E aí...
Silêncio.
Nenhum professor para encher, chamar atenção, barrar o boné, abrir o livro que nunca trazem ou pedir trabalho em grupo.
Cinco minutos. Dez. Vinte. Aí um herói anônimo solta: “Ué, cadê a tia da Geo?”
E pronto. Estava instaurado o caos.
Os alunos reagiram do jeito mais caótico e previsível possível. Alguns nem notaram e seguiram no TikTok, achando que o sumiço do professor era só um novo trend. Outros, entraram em crise existencial: sem alguém para provocar, desafiar ou ignorar, ficaram presos num vácuo emocional pior que chamada oral surpresa. E havia ainda os dedicados — esses unicórnios em extinção — que ficaram genuinamente tristes por perder a aula sobre a Revolução Francesa e o famigerado logaritmo. Teve até quem decidiu dormir no chão da sala. Cansativo esse negócio de não ter aula depois de uma madrugada intensa de... “atividades culturais online”. Afinal, a noite foi longa: jogos, séries e pais ausentes (um em cada lado da cama, ambos vidrados no celular, com o casamento em modo avião).
Por falar em pais, esses piraram. Quem ia cuidar da prole agora? Quem ia educar os petizes? Quem ia dar limites aos fofuchos? Eles mesmos? Que horror! Teriam que interagir, explicar por que não se bate em coleguinhas com a lancheira do Homem-Aranha. Pior: conversar com seus filhos — esses pequenos seres que eles só conhecem via boletim e notificações do app da escola. Uma missão impossível, já que eles próprios achavam engraçado quando o pimpolho “lacra” em cima do professor no grupo do WhatsApp da escola.
Os diretores, acostumados a usar os professores como escudos emocionais e como para-raios de toda e qualquer desgraça emocional, entraram em pane total. Sem ninguém para culpar pelas bagunças, acabaram tendo que encarar os alunos diretamente — uma experiência tão traumática que alguns cogitaram pedir transferência para o setor de recursos humanos de uma fábrica de parafusos, montar um food-truck para fazer hambúrgueres ou mesmo abrir uma franquia de lavagem de cães.
As notícias chegaram às redações como um vendaval. No plantão da TV, interromperam até a previsão do tempo, com aquelas vinhetas que mais parecem com a chegada de algum super-herói: “Última hora: professores desaparecem em massa! Mistério ou movimento?”
As manchetes variaram de acordo com a linha editorial, é claro. Uns trataram como se fosse o fim dos tempos: “Educação em colapso! Professores somem e país mergulha no caos!” Já outros preferiram uma abordagem mais... performática: “Docentes somem e escolas viram terra sem lei — veja os memes!”
Influenciadores “educacionais” (sim, não necessariamente educativos) fizeram vídeos dramáticos: uns gravaram reações emocionadas abraçando a lousa; outras algumas, todavia, “homenagearam” as educadoras fazendo postagens vestidas com calças-legging, óculos de grau, jaleco e sentadas ao lado de um famoso carro popular de reduzidas dimensões, demonstrando o machismo estrutural latente, uma vez que só usam mulheres para objetos de humor.
Alguns outros fizeram tutoriais de como ensinar trigonometria com massinha de modelar porque “o show” não pode parar, típico de quem confunde instrução com entretenimento pueril.
No Congresso, houve uma corrida para ver quem conseguiria capitalizar melhor o sumiço. Alguns parlamentares bradaram aos quatro ventos: “É um absurdo! Cadê o compromisso desses profissionais?” — os mesmos que, ironicamente, faltam em 40% das sessões, mas tudo bem, né? Outros aproveitaram para propor projetos de lei urgentes como “Ensinar por Holograma” ou “Contratar IA para dar aula de química em três turnos”. Um senador até sugeriu criar um novo “Dia do Professor Resistente”, para homenagear os que ficassem em sala mesmo quando tudo estiver pegando fogo (literalmente ou não).
Já os analistas políticos se dividiram entre os que diziam ser um protesto legítimo e os que achavam que era só preguiça em escala continental. Um colunista escreveu: “Os professores não sumiram, apenas se encontraram.” E outro rebateu: “Encontraram-se, sim… na fila do café!”
E os professores?
Pela primeira vez em muito tempo, estavam sendo ouvidos.
Sem precisar gritar.
Ah, eles estavam vivendo. Tomando café devagar, sem o som do sinal no fundo. Sem recados passivo-agressivos de pais influencers. Redescobrindo que seus próprios filhos haviam crescido e já estavam quase fazendo ENEM. Perceberam que existe vida além dos corredores com cheiro de canetinha e desespero. Que o preço de um ansiolítico é praticamente o mesmo de uma aula extra.
Que ainda existia manhã sem barulho de sinal, de buzinas e gritarias.
Que dignidade não se negocia em parcelas de trinta dias com o Estado, a Prefeitura, ou a Mantenedora.
Eles cansaram.
De serem animadores de auditório. De competir com vídeos de dancinhas. De se virar nos 30 para transformar “história do feudalismo” num show da Broadway. Cansaram de serem os vilões da narrativa, sempre culpados pela rebeldia hormonal embalada em salgadinho e refrigerante, energético e fast food.
Da falta de educação dos discípulos, legitimada muitas vezes pelos próprios responsáveis, na ânsia de dissimular e disfarçar as lacunas deixadas por estes, seja por falta de tempo, seja por orgulho, seja por negligência, seja por falta de capacidade em dar bons exemplos.
E ao perceberem que estavam adoecendo tentando salvar o mundo... decidiram se salvar primeiro.
Vão voltar? Talvez. Talvez não.
Mas naquele dia, o silêncio das salas falou mais alto do que qualquer grito na hora da chamada.
Música do Dia: “Rua Ramalhete”, de Tavito.







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