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Lumus

  • Foto do escritor: Roger
    Roger
  • 5 de mai. de 2020
  • 2 min de leitura

“Poucos vêem o que somos, mas todos vêem o que aparentamos.”

Nicolau Maquiavel



Havia uma rua estreita, velha, escura e fria, daquelas que, por não levar a lugar nenhum, nenhum alguém mais por lá transita.


Tinha boteco, realejo, loja de discos, não tem mais; tinha criança, pega-pega, mãe da rua, não tem mais. Tinha bonde, esconde-esconde, quebra-queixo, tintureiro, alfaiate, não tem mais.


Charutaria, curso de corte e costura, datilografia, manufatura.

Não tem mais.


Contudo, por teimosia ou mesmo para não se sentir só, um enferrujado poste insistia e persistia em manter a sua luz, noite após noite, como se fosse o derradeiro membro de uma resistência sem qualquer fim, como muito se via naqueles tempos.


Talvez, justamente para não se sentir só, sua lâmpada ardia calorosa e intensa, como se quisesse iluminar a obscura rua; e essa luz, que tanto se fazia constante, não tinha como não atrair para si os habitantes efêmeros e boêmios que em volta dela orbitavam.


Besouros, mosquitos, borboletas, mariposas, moscas, insetos de todos os tipos, tamanhos e desenvolturas, sofregamente voavam e revoavam, ricocheteando entre si, a fim de desafiar e desfrutar de tão radiante luminar, tal como Ícaro destemidamente tentava aproximar-se do Sol, determinados, paulatina e verdadeiramente incautos.


Entretanto, na ânsia de aproximar-se de tão fulgurante luz, do mesmo modo intenso, o calor cobrava seu preço, por tal ousadia, ao sugar e ressecar suas carcaças, fazendo com que a inevitável queda ao chão sepultasse por fim, anonimamente, cada atrevimento, o fim inerte.


Passava ao largo curioso inseto que, ao ver tamanha mortandade, e igualmente tomado por não menos tamanho encanto por tanta luminosidade, ponderou consigo: como faria, para sorver aquele brilho radiante sem arder, implacável e definitivamente, em seu calor inerente?


Movido pelo desejo incontrolável de brilhar sem perecer à sombra da rua e do esquecimento, o inseto pensou, meditou, voou, revoou, contorcendo-se de todas as formas, a fim de obter um meio de lograr êxito em seu intento.


Tanto foi o seu esforço que, inesperada e surpreendentemente, algo dentro de si se modificou: não facilmente, não gratuitamente, não casualmente, eis que de dentro de si, uma luz, graciosa e intermitente, pulsava brilhante do seu ventre.


Talvez não tão brilhante, de certo nem de longe ardente, tampouco constante, mas algo enchia o inseto de satisfação e orgulho, pois a luz que dele emanava, era sua.


Concluiu, por fim, que melhor seria viver com a própria luz, mesmo com todo o esforço feito para conquistá-la, ainda que seu brilho não fosse o mais radiante, do que viver à sombra iluminada da luz dos outros, para sucumbir, obscura e inutilmente, tentando brilhar às custas da resplandecência alheia.


E percebeu, contente, que outros insetos, seguindo o mesmo caminho, teciam no ar constelação piscante, embelezando e colorindo a noite escura.



Música do dia:

"Estrada Nova", de Oswaldo Montenegro







 
 
 

1 comentário


denise2729
denise2729
06 de mai. de 2020

Turn on your heartlight and it shine wherever you go! (Neil Diamond)

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