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Nosso Povo

  • Foto do escritor: Roger
    Roger
  • 23 de jul. de 2024
  • 3 min de leitura

Atualizado: 29 de jul. de 2024



“A inumanidade que se causa a um outro destrói a humanidade em mim.”

(Immanuel Kant)



Nosso povo se autodenomina "sábio", talvez porque a humanidade não possua uma referência externa para comparação.


Vemos o outro como problema, obstáculo, a causa das dificuldades, o emprego que não se conquista, o relacionamento que não dura, o sucesso e a fama que não se alcançam.


O outro. Sempre o outro.


Nos especializamos em classificar, catalogar, diferenciar, discriminar, prejulgar e condenar; não apenas os outros seres vivos, que deveriam ser parceiros neste raro e maravilhoso ecossistema que recebemos gratuitamente, do qual extraímos mais do que precisamos e não retribuímos nada de valor.


Classificamos principalmente os outros; os desconstruímos porque assim nos sentimos superiores. É mais fácil destruir os outros do que nos melhorarmos. Evoluir leva tempo.


Somos feitos da mesma matriz orgânica presente em todos os seres vivos do planeta; no entanto, nossas ações resultam em uma relação de divórcio, numa incessante relutância em buscar um entendimento harmonioso com nosso único berço, casa e lar.


Como um órgão transplantado rejeitado pelo novo corpo, negamos e rejeitamos nossas origens (ou talvez realmente não pertençamos a este planeta).


Somos devedores; consumimos recursos mais rapidamente do que o planeta pode restaurar o que foi retirado; os desejos humanos são ilimitados, mas os recursos naturais são cada vez mais escassos. Quando devolvemos, é quase sempre em condições precárias, que a Natureza levará séculos para recuperar.


Somos a única espécie que produz lixo, tanto material quanto abstrato.


Nossa história é marcada por conflitos armados; como em uma luta de MMA, onde para cada minuto de paz temos cinco de combate, passamos mais tempo em meio a guerras de todas as formas. O termo "sapiens" parece um equívoco.


Uma pessoa pregando sobre cuidado ambiental em uma praça pública pode estar sozinha; um músico de rua talvez receba algumas moedas; um pregador anunciando o retorno de um salvador, frequentemente, atrai três ou quatro ouvintes até o fim.


Contudo, se ocorre uma briga, a rua se fecha. Às vezes, isso até evolui para um linchamento.


Linchamentos, aliás, proliferam nos ambientes virtuais; uma característica marcante desse tipo de atrocidade é a maior probabilidade de anonimato, um ato de autoria difusa. É a chance de cometer um ato desproporcionalmente audacioso, algo que não se teria coragem de fazer individualmente e de forma identificável. Um ato de covardia.


Omissões e indiferenças prejudicam todos aqueles que, sem perceber, são vulneráveis a ações que lhes causam mal ou aos seus entes queridos.


Alguns poucos, em algum momento da história, descobriram que o poder pode ser usurpado, subjugando um grande número de pessoas, especialmente aquelas que não têm todas as suas necessidades atendidas.


Estabelecer uma relação de dependência é crucial para a manutenção daqueles que desejam se perpetuar no controle; ocultando conhecimentos, roubando tempo, impondo hábitos desnecessários. Nosso povo come mais do que a fome exige, bebe mais do que a sede justifica, consome medicamentos, lícitos ou não, que muitas vezes não são necessários, ficando entorpecidos de corpo e alma.


Aqui, cada indivíduo pode construir sua própria noção de verdade, especialmente se estiver diante de uma tela retangular, brilhante e hipnótica, que dá a ilusória impressão de ter a realidade na palma da mão.


O passado é considerado ultrapassado; e por não aprenderem com ele, estão fadados a repetir os erros periodicamente e a esquecer os acertos.


Ensinar é um esforço hercúleo, e aprender, uma perda de tempo.


Entretanto, desafiando todas as expectativas, muitos indivíduos deste povo, talvez até a maioria, canalizam suas energias em sensações, pensamentos e ações que se opõem à superficialidade e frivolidade alienante que predomina; são diversos os termos, adjetivos, sentimentos e ações que caracterizam tais percepções.


Muitos vivem com convicção no que ainda não se pode ver; outros tantos nutrem e aguardam dias melhores, pois a ausência de vislumbre não nega a proximidade deles; são os que substituem disputas por abraços, insultos por compreensão, verdades passageiras por atitudes e opiniões autênticas; aqueles que valorizam o ser em detrimento do parecer; os que, apesar de todas as adversidades, nunca deixam de estender a mão aos que precisam.


As diferenças somam.


As diferenças se complementam.


As pessoas importam.


Afinal, somos ou não fruto de nossas escolhas?



Música do dia: “Maria, Maria”, de Milton Nascimento




 
 
 

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