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O Balde

  • Foto do escritor: Roger
    Roger
  • 22 de mar. de 2022
  • 2 min de leitura

“De tanto viver no fundo do poço, tem gente que acha o céu pequeno.”

(Minha, mas tem muita frase bem parecida, sem autoria definida)



Era uma casa normal, com os requisitos normais de uma casa: varanda, janela, tinha cerca em volta, adorno com guirlanda, na porta, capacho com os dizeres de sempre; sala, copa e cozinha, utensílios necessários, no centro uma mesinha, fogão, geladeira, botijão, escumadeira, odor de manjericão, frigideira, coisas comesinhas.


Tinha banheiro, na sala perto, entre os dois quartos, decerto; banheira, pia, privada, chuveiro.


Nos quartos, o necessário: baú, tapete, cama e armário; a cama, desarrumada, deixava clara a função que se cumpria, muito além do mero descanso, que divertia, que era lugar de gente amada.


Era um lugar normal, com dias de chuva, dias com sol, dias de vento, ventania, vendaval.


E tinha chuva, nem de mais, nem de menos, às vezes casamento de viúva, às vezes de espanhol.


E tinha telhado.


Certo dia, neste lugar normal, com uma casa normal, com dias e noites igualmente igual, sobreveio uma chuva, a qual, despretenciosamente, descobre brecha tal como bom advogado, na fileira virginiana das telhas, do telhado, infiltradamente, adentra a casa, sem licença, através de uma goteira.


O dono, incontinenti, visando proteger, atabalhoado, os móveis, passadeiras, o assoalho, ante a emergência iminente, coloca sob a goteira diligente, um balde.

E o tempo foi passando (afinal, é o que ele faz de melhor), outras chuvas vieram, e por motivos alhures, quis o dono, sempre que uma goteira surgia, ao invés de consertar o telhado, colocava novamente outro balde.


Goteira na soleira, goteira no armário, goteira na estante, goteira na esteira; goteira na mesinha, goteira no chuveiro, goteira no fogão, goteira na prateleira.


Um balde para cada uma.


E o tempo foi passando, e a casa passa a viver em função dos baldes, os quais determinavam o ritmo e os itinerários dentro dela. A ponto de que, com o passar de mais tempo (e o tempo faz isso muito bem), o dono se acostuma e começa a achar normal.


Alguns muitos, na vida real, se debatem, se esforçam, até com fé e afinco, em lutar contra fenômenos que nada mais são do que consequências de algo anterior, a verdadeira causa das mazelas que se tenta – em vão – eliminar, concentrando esforços nos seus efeitos.


Alguns muitos internalizam atitudes como regra, quando deviam ser exceções.

Alguns muitos reivindicam soluções para mitigar os efeitos, e não o que os provocam.


Sem perceber, compramos baldes o tempo todo, acreditando que a goteira é o problema.


Sem perceber, quem sai ganhando são sempre os que provocam as goteiras e os que vendem os baldes.


O difícil, todavia, é aprender a distinguir o que é, em nosso cotidiano, vendido como balde.


Tão difícil quanto, é aprender a distinguir de onde vem a goteira.


Quantos baldes nós trazemos para dentro de nossas vidas?


Música do dia: Ciranda da Bailarina (Chico Buarque)

Créditos: há anos procuro saber de quem é; quem souber, me avise!


 
 
 

1 comentário


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17 de mai. de 2025

Faz pensar . Porém ao pensar me fez desanimar e procurar onde estou deixando as goteiras fluírem.

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