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O Funil

  • Foto do escritor: Roger
    Roger
  • 9 de ago. de 2022
  • 3 min de leitura

“Estou preso no trânsito com pouca gasolina O calor tá de rachar e lá fora é só buzina Perdi o meu emprego, que já era mixaria E ontem fui assaltado em plena luz do dia…”

(Tic-tic Nervoso – Magazine – música de 1983)



Comum em muitos lares e estabelecimentos não residenciais, é um objeto discreto, usado poucas vezes ao longo dos anos; usado normalmente para transferir líquidos de um recipiente com vazão maior para um menor, ou mais estreito, evitando perda do conteúdo no referido processo. Neste caso, o objeto ajuda garantindo que todo o líquido chegue ao invólucro de destino, diminuindo a velocidade do fluxo da transferência, até que o objetivo seja atingido.


O termo funil com o passar dos anos (e muitos anos) vem assimilando diversos significados, com aplicações em diversas áreas, com sentidos mais ou menos semelhantes: nos esportes, por exemplo, onde alguns torneios assumem um formato chamado “chaveamento”, que tem a forma de um funil colocado na horizontal; vencedores se aproximam do “bocal” desse tipo de funil, onde os vencidos são eliminados e ficam para trás.


Por semelhante modo, processos seletivos em geral, também se comportam como funis, na medida em que a quantidade de oportunidades é significativamente menor do que a quantidade de candidatos; este caso, em particular, mereceria uma longa e demorada reflexão, em virtude de uma percepção de que deliberadamente, se promove tal funil mais para obter vantagens pecuniárias daqueles que sonham com uma colocação estável, do que selecionar cidadãos para ocupar vagas muitas vezes mais virtuais do que reais; mas isso é assunto para outra ocasião.


Sob certo ponto de vista, funil e pirâmide se assemelham, na medida em que os dois modelos estabelecem uma relação onde o espaço, ou oportunidades, ou as perspectivas, não são iguais para todos. Diferente de quando se usa um funil para o trânsito de líquidos, o estreitamento do fluxo tende a ser estanque, garantindo que aqueles que não se encontram perto do topo (ou do bocal) jamais saiam do lugar.


Dentro desse contexto simbólico do funil, uma vez que tal termo já há tempos se encontra disseminado em nossas realidades cotidianas, é possível, talvez, que uma característica do funil, além das mencionadas acima, passe despercebida de alguns muitos, provavelmente por conta de se assimilar como normal algo que não necessariamente deva ser:


Tempo.


Uma das formas mais perversas de exercício do poder opressivo, está na forma como o cidadão comum se relaciona com o seu próprio tempo (ou com a falta dele); além dos salários mitigados, da supressão progressiva das relações trabalhistas, do desequilíbrio permanente entre capital e trabalho, o sequestro sutil do controle do tempo, garante o distanciamento entre os que mais possuem dos despossuídos.


A distância entre residência e local de trabalho, o tempo nos trajetos, a dependência praticamente exclusiva de meios de transporte de massa para deslocamento, sempre sujeitos aos horários de pico (um clássico funil social), subtrai, furta, sequestra o cada vez mais exíguo tempo de quem está no alto do funil ou na base da pirâmide.


Sem tempo, retardado pelo funil, o cidadão comum tem menos tempo para estudar, aperfeiçoar seus conhecimentos, incrementar sua carreira, agregando valor ao seu currículo e então aspirar a melhores condições de trabalho e remuneração; menor o tempo para conviver com seus familiares - objetivo principal de praticamente todas as pessoas - estreitar os laços afetivos com estes e com seus vizinhos, estabelecer vínculos sociais de solidariedade, de cumplicidade, de empatia, que permitam maior consistência e durabilidade do tecido social decorrente de tais relações.


O discreto e até dissimulado funil social mantém o indivíduo no limbo dos entremeios, dos trajetos, dos itinerários, nas filas – funis por excelência – que retiram um tempo que não se consegue aproveitar; um purgatório que mantém o cidadão “pecador” pelos “sacrilégios” que muitas vezes nem ainda cometeu; peregrino compulsório de uma romaria profana, onde só existem sacrifícios e não existem promessas, nem bênçãos e nem graças a serem buscadas, muito menos concedidas.


No Brasil, a cada dia que passa, o funil social está se transformando em ralo… ou pior.



Música do dia: “Sinal Fechado”, de Paulinho da Viola.

Créditos: Ecovias

 
 
 

2 comentários


Soraia Ruiz
Soraia Ruiz
11 de ago. de 2022

Afunilando e contando..., não é? Afunilando inclusive o pensamento, para que os pensantes não tenham mas espaço para pensar! Amei o texto!

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Roger
Roger
11 de ago. de 2022
Respondendo a

Olá, Soraia!! Você tem toda razão! O funil também existe no campo do pensamento!

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