O Lixo, uma conversa descartável (ou: Como jogar uma conversa fora)
- Roger

- 6 de ago. de 2024
- 2 min de leitura
“Você é eternamente responsável pelo lixo que praticas.”
(Minha mesmo)
O ser humano é o único ser vivo que produz lixo.
E como sua capacidade de abstração é ilimitada, o lixo também deixa de ser apenas o subproduto das atividades humanas ditas civilizadas; também possui propriedades conceituais, de juízo de valor, dentre outras.
Lixo é um efeito de um conjunto de várias ações, ponto final sem retorno daquilo que não somos capazes de trazer de volta. De aproveitar novamente. De devolver o que tomamos. Mesmo quando o que descartamos ainda serve para alguma coisa ou para alguém.
Lixo é um ato de abandono, tal como alguns fazem com o outro, sem piedade:
“Ato consciente de deixar alguém na mão,
Deliberadamente deixar pra trás, sem opção
Causar a quem se abandona, a sensação
De objeto descartável, embalagem, papelão
É como abandonar seu barco, o capitão
Deixar morrer aos poucos, uma tripulação*...”
O que ainda pode servir, é deixado para trás, tal como o alimento que pegamos no restaurante por quilo, ou seja, escolhemos quanto somos capazes de ingerir, e mesmo assim deixamos restos, para serem jogados fora. Alguns dirão que é desperdício; sim, é verdade, mas que se transforma em lixo.
Alguns muitos, talvez, pensam que o lixo deixa de existir logo depois que o jogam; latinhas para fora do carro, pontas de cigarro na beira da estrada ou nos bueiros, sofás nas calçadas das ruas. É só dar as costas que desaparecem.
A manutenção do que chamamos civilização implica, necessariamente, em transformar o que pertence ao planeta em utensílios que só servem (e olhe lá) para alguns humanoides, e devolver para a origem aquilo que não serve para nada ou para quase nenhum outro ser vivo; um dos exemplos mais constrangedores da nossa constrangedora passagem por este mundo é chamado de esgoto: um caldo de conteúdo indefinível, tóxico, cujos recipientes costumam ser, não raramente, rios, lagos e mares.
O lixo é fétido; o mais curioso é que alguns muitos, são convictos de que o lixo só existe nos estados líquido e sólido. O Homo Bellicus respira o lixo das mais variadas formas, inclusive formas socialmente aceitas, como o monóxido de carbono emanado dos veículos, os gases despejados pelas indústrias e a fumaça das pituras, de forma passiva ou ativa, e seus derivados sintéticos.
Nosso lixo tornou-se conceitual, ultrapassando as fronteiras da matéria; a capacidade de elaboração no plano abstrato criou o descarte de pensamentos, sentimentos, opiniões, e mesmo do conhecimento adquirido.
Diante aquilo que não se conhece ou não se compreende, o caminho mais fácil passa a ser o de jogar fora. O que se joga no lixo raramente se busca de volta.
Cada vez mais frequentes são as ofensas pessoais lançando mão da expressão “lixo” para aquilo que não se gosta, ou não se aceita, ou simplesmente quando não se entende ou não se sabe.
E ser, saber ou conhecer são atributos cada vez mais descartáveis, em todos os sentidos.
O que esperar de uma civilização onde somos capazes de lavar nossos dejetos antes de descartá-los, com a mesma água que usamos para beber…
* Trecho do poema “Os Novos Sete Pecados”, publicado neste blog em 19/05/2020.
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Seu texto leva a inúmeras reflexões que vão se ramificando, sem fim.