O Trem na Plataforma
- Roger

- 1 de dez. de 2020
- 4 min de leitura
“Aos olhos de quem tem a chinela na mão, somos todos baratas.”
(Rogério Dias - eu mesmo)
Quem conhece ou mora na capital paulista já teve a oportunidade de utilizar o transporte metropolitano, mais conhecido como metrô; rápido e limpo, talvez seja a modalidade de transporte coletivo mais eficiente, dentre as demais formas de deslocamento de massa, nesta cidade. Há de se considerar, todavia, se comparado com o mesmo sistema de transporte de outros países, tal rede está muito aquém das possibilidades e necessidades da população.
De todas as oitenta e nove estações distribuídas em seis grandes linhas, uma ainda é a vedete, o destaque, seja pelo entroncamento das duas maiores linhas, seja pela localização no marco zero da cidade, seja pelo seu entorno o qual, como poucos lugares, representa inquestionavelmente, o país de contrastes que se constitui o Brasil: a estação Sé.
A provocação aqui passa longe do lugar comum de fazer digressões sobre os problemas estruturais, ou qualquer discussão sobre o sistema de transporte em Sampa.
A provocação aqui está em abstrair, metaforicamente, a partir de um fenômeno que chega a impressionar o mais desavisado usuário, principalmente aquele que não vivenciou tal fenômeno:
“Imagine esta estação, na plataforma da linha 3 – Vermelha, às 18:30 horas, sentido Leste, sob forte chuva...”
Todo veículo sobre trilhos necessita de muito maior espaço para frenagem, em virtude do baixíssimo atrito de suas rodas com o aço sob as mesmas; o efeito imediato desta situação é o aumento do intervalo entre as composições, e igual aumento de sua permanência nas estações. A partir daqui, você está convidad@ para revisitar este tipo de acontecimento, mas não sob o ponto de vista urbano.
O trem já chega cheio, e cheio de pessoas que ainda não chegaram aos seus destinos; ou seja, como a jornada ainda está em andamento, quase ninguém desembarca. Planos são frustrados, alguns adiados, outros totalmente perdidos, considerando o tempo contado que cada um dos passageiros possui; a capacidade de administração e controle do próprio tempo (ou a falta), e mesmo a sua disponibilidade, é um discreto porém devastador sintoma característico da desigualdade.
Pontes, vias expressas, corredores de ônibus, túneis, trilhos e monotrilhos não servem para agilizar o acesso da massa de novos plebeus aos seus postos de trabalho.
Pontes, vias expressas, corredores de ônibus, túneis, trilhos e monotrilhos servem para engessar e garantir que nós fiquemos sempre longe dos novos patrícios.
E ainda proporcionam cifras bilionárias para estes últimos, em nosso nome.
Fora do trem, em número crescente, um séquito de ansiosos passageiros vai ocupando cada centímetro da plataforma; alguns, mais pacientes ou até descompromissados, procuram os cantos do local para passar o tempo, uma vez que não têm controle sobre esse mesmo. Outros, por sua vez, traçam as mais diversas estratégias para conseguir um lugar próximo às portas, a fim de lograrem êxito na busca de um lugar no próximo trem, uma vez que neste, estacionado, só é possível retirando alguém de dentro.
Como os que deveriam desembarcar não conseguem fazê-lo, acabam ocupando os espaços que deveriam ser, em tese, daqueles que chegam depois. Os primeiros merecem deixar a jornada, mas não conseguem; os segundos, merecem ocupar um lugar no ciclo renovável de passageiros, mas não encontram espaço. Os primeiros passam um tempo significativamente grande de suas existências marcando passo, tendo que abrir mão de planos e compromissos; os segundos sequer sabem onde será o final da jornada, ou quando.
E todos, sem exceção, assistem impotentes o tempo e seus respectivos sonhos e anseios se esvaindo como a areia de uma ampulheta.
Depois de um tempo, com a plataforma para lá de superlotada, o ar viciado, os telefones deixando de serem espertos por falta de energia, as ondas aleatórias provocadas pelo mar de gente se deslocando para lugar nenhum, os odores indesejáveis cada vez mais recorrentes, a fome, a sede, a vontade quase incontrolável de fazer xixi, dentre outras situações constrangedoras (as mulheres que o digam), a multidão começa a esquecer o motivo pelo qual se encontram coletivamente encarcerados.
E alguns muitos começam a culpar uns aos outros.
Não fosse aquele outro, que pode ser aquele mais velho que tem lugar “garantido” nos assentos reservados, ou pode ser aquele torcedor daquele time popular de futebol, ou mesmo aquele que “decidiu” mudar de gênero.
Não fosse essa ideia de reservar um vagão só para mulheres, não fosse aqueles que vieram de longe, muito longe; e aqueles que gostam de ritmos lascivos? Aquela molecada que faz o maior barulho, uma verdadeira algazarra...
A imaginação e a criatividade vão longe, e depois de muitos minutos de espera, alguns muitos conseguem classificar, discriminar, julgar, culpar e condenar aqueles que, tanto como estes, se encontram rigorosamente na mesma situação.
E depois de certo tempo, passam a acreditar nas suas próprias auto- sugestões, embevecidos pelo cenário construído apenas em suas mentes, para depois serem aprisionados pelo canto da sereia, que em troca de uma inatingível esperança, suga um pouco de suas almas, para depois devolvê-los ao lugar onde pertencem: a mesma plataforma.
A chuva passa, aos poucos a normalidade (normalidade?) vai tomando o seu lugar, e as pessoas voltam para os seus lugares, para repetirem no dia seguinte o mesmo mantra, as mesmas cantigas de lamento, as mesmas ladainhas, reproduzindo a mesma romaria, lesionando suas cervicais diante de seus consolos eletrônicos, numa solidão coletiva, legitimando as ações daqueles para os quais prestam suas reverências.
Música do Dia: “O trem das 7”, de Raul Seixas.

Créditos: mobilize.org.br






Os desdobramentos das relações humanas em sociedade sempre se repetindo, em diferentes ambientes e circunstâncias...