O Ódio Enquanto Sintoma
- Roger

- 15 de ago. de 2023
- 2 min de leitura
“Toda propaganda de guerra, toda a gritaria, as mentiras e o ódio,
vem invariavelmente das pessoas que não estão lutando.”
(George Orwell) .
Quem não testemunhou, ou mesmo não vivenciou, aquela sensação de que está com determinada doença, e quando vai consultar o profissional médico, descobre que é outra bem diferente?
Recém-saídos de uma pandemia, onde a nova doença se assemelhava a outros tipos de afecções virais, temos ainda bem frescas na memória a lembrança do que foi a sensação de ver pessoas próximas, ou mesmo desconhecidas, adentrarem na UTI, serem intubadas, sem a certeza de que sairiam de lá.
Percepções quase iguais, origens bem diferentes; é sabido que o diagnóstico impreciso, forma diplomática para dizer incorreto, foi capaz de determinar a morte de alguns muitos.
Nesse sentido, e remetendo ao texto anterior: até que ponto a epidemia/pandemia de ódio não pode ser, guardadas as devidas proporções, um sintoma de algo anterior, mais tácito e mais profundo, que esteja mal diagnosticado?
Mesmo considerando que o homo bellicus (sim, porque de sapiens não estamos fazendo jus há eras) não é lá muito chegado a soluções não rudes para seus conflitos, será que o ódio não pode ser uma reação, um reflexo superlativo de algo que o fere constantemente, de forma insidiosa, crônica e dolorosa, que extrapole os limites do suportável?
Que fique claro que nada justifica os assassinatos verbais (quando não os físicos e reais), as desconstruções impiedosas, o esfolamento retórico, os julgamentos sumários e perpétuos, dentre tantas outras formas de agressão, cujos efeitos em muitos casos chegam a ser irreversíveis!
Entretanto, essa septicemia social não se reflete, no cotidiano fora das redes sociais, com a mesma intensidade. Se assim fosse, estaríamos em plena guerra civil, onde todos estariam linchando qualquer pessoa, em cada esquina, com ou sem motivos.
A existência de alguns muitos, que se sentem empoderados para destilar ódio, escondidos e ou protegidos pela tela retangular geradora de estímulos diversos, é um fato; outros muitos, de gosto discutível, se divertem apenas.
Ainda assim, essa infecção atinge - direta ou indiretamente - a todos, mesmo aqueles que se abstém de participar, pois acabam reagindo ou até compartilhando verdades ocasionais, fomentando e reconstruindo conceitos, ou mesmo absorvendo e internalizando para si fatos inexistentes.
Mas a sensação de que estamos assistindo aos efeitos é bastante incômoda. Tem muita coisa por trás disso; existem outras causas, outros estímulos, que se expressam através das OFM (Ofensas Virtuais Mistas, texto postado neste blog: https://www.deixadisso.net.br/post/ovm-ofensas-virtuais-mistas).
As redes sociais talvez funcionem como as rinhas, e seus usuários, como os bichos, privados de toda sorte de necessidades; o resultado é fácil de se deduzir.
Se assim for, quem é que está ganhando com isso?
Será que faz algum sentido? O que você acha?
Música do Dia: “Cartomante”, De Ivan Lins (qualquer versão vale a pena).

Gravura de Cristina Orlando






Este texto dói de tão verdadeiro.