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OS NOVOS SETE PECADOS

  • Foto do escritor: Roger
    Roger
  • 19 de mai. de 2020
  • 2 min de leitura

"Só num mundo de cegos as coisas serão como verdadeiramente são."

(Saramago)


Há muito tempo se ouvia

O Mal, em sete se dividia

Mas hoje, qual o quê, quem diria

Que a gula, preguiça e avareza,

Inveja, luxúria e soberba,

Não causam rubor ou desonra, certeza!


A Ira, tadinha, coitada

De tão corriqueira, banalizada

Outrora violento pecado

Ostenta plural significado

Ora banda de rock, balada

No particípio, ação elogiada

Apologia moderna, destreza!


O homem, eterno inconformado,

Contumaz animal insatisfeito,

Querendo, cada vez mais, com efeito,

Em seu inesgotável senso criativo

Criando às claras e nada furtivo

Ser autor do próprio pecado


Mas um só pecado não lhe apetece,

Diante de um ser tão dominante

De história vitoriosa e triunfante

Dono do mundo e dele protagonista,

Um só não basta, faça-se lista,

Criou mais seis, agora são sete.


Abandono, Intolerância, Fanatismo e Corrupção

Negligência, Indiferença e por fim Omissão

Parecem mansinhos, como caseiro cão,

Adocicados venenos, verdadeiramente são

Ministrados dia a dia, como se fossem ração

Consomem mente, alma, entranhas, coração.

Ato consciente de deixar alguém na mão,

Deliberadamente deixar pra trás, sem opção

Causar a quem se abandona, a sensação

De objeto descartável, embalagem, papelão

É como abandonar seu barco, o capitão

Deixar morrer aos poucos, uma tripulação.


Não basta apenas perceber o diferente,

Tem ainda que ofender, violentamente

Negar de modo hostil e intransigência

Qualquer tipo de pensar, ser ou aparência

Intolerância que destrói e discrimina

Ação e sentimento, como vírus, contamina.


No seio religioso é mais que conhecido,

Mas campo fértil tem tal pecado compulsivo,

Fanatismo, um divino estelionato,

Que em nome dele executa tal pecado,

Pois o dos outros é sempre injustificado,

É quando a seita, clube ou partido,

Subverte e inverte seu sentido

Fica acima do original objetivo.



Corrupção é um pecado interessante,

Pois quase nunca se comete solitário,

Quase sempre se completa, solidário,

Um ator protagonista, outro coadjuvante;

Onipresente e cotidiano,

Que nem se faz mais escondido:

Na carta de motorista, no condomínio

Na venda desenquadrada, juro enrustido,

No sorteio viciado, dirigido

Inté na escola, na cola da prova

O que vale é resultado bem sucedido.

Levar vantagem, sem mérito ou honra,

De qualquer forma, conquanto se ganha,

Que faz de tod'alma, um fim degradante.

Tem gente que erra porque não sabe, ignora

Tem gente que erra porque acredita, que acerta

Tem gente, contudo, que mesmo sabendo,

Tem gente, entretanto, que mesmo podendo,

A despeito do dever, em fazer a contento,

Se furta, recusa, sonega fazer o que é direito,

Negligente pecado de quem pode mas não faz a hora.


“Não me interessa, pra mim tanto faz

Não estou nem aí, nada me compraz”

Se o mundo desaba, se o vizinho bambeia,

Se a bala perdida no bairro campeia

Só vê importância num único amigo:

Silencioso, indiferente, seu próprio umbigo...


Por fim, a prima - irmã da Negligência,

Omissão, talvez carente de certa inteligência,

Talvez pelo medo que assombra a consciência

Mesmo quando se esconde ou se abstém

Sempre acaba definindo ou escolhendo alguém

Pois no fundo sabe, seu silêncio lhe convém.


E assim, por enquanto, saciado

O ser humano, de pecados enfastiado

Enrubesce, de vergonha o Coisa Ruim

Rebaixado a malfeitor, pé de chinelo ou coisa assim

Que sobrevive, vez ou outra, de delito até chinfrim

Admitido sem concurso, como aprendiz de secretário,

Na Capital, menos que estagiário

Pois sabem ele e todos, aprender aqui é muito caro...



Música do Dia:

"Nostradamus", de Eduardo Dusek



Não conheço a assinatura do autor. Quem souber, me avise que eu corrijo aqui.

 
 
 

3 comentários


denise2729
denise2729
20 de mai. de 2020

Atemporal!

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waleme
20 de mai. de 2020

Rogério você é de fato um poeta. E eu, que não entendia de poesia, agora aprendo com meu amigo, na pandemia! Nem de longe consigo alcançá-lo na maestria. Abraço.

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carlosdias
20 de mai. de 2020

Muito, muito bom!

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