OVM – Ofensas Virtuais Mistas
- Roger

- 8 de set. de 2020
- 5 min de leitura
"Segue sempre aquele que te dá pouco, e não aquele que muito te promete"
(Pensamento Chinês, ou será fake?)
Pode ser qualquer um: aquela pessoa que lhe cumprimenta todas as manhãs, quando leva seu pet para o passeio matinal; pode ser o jornaleiro (cada vez mais raro, em algumas regiões da cidade), o atendente da padaria, o dono da loja que acaba de abrir seu estabelecimento. O zelador do prédio, aquele vizinho que gentilmente abre a porta do elevador sempre que nos encontra, seja no andar, seja na garagem. Ou mesmo aquela pessoa reservada, de poucos amigos, que discretamente realiza as tarefas de entrega de correspondências internas no local de trabalho.
Podem estar em qualquer lugar: jogando futebol dominical com os amigos e ou colegas de trabalho, cuidando zelosamente do jardim que fica na frente da casa; entoando músicas ou rezas ou mantras no interior dos locais destinados a desenvolver a transcendência e cultivar valores humanos e fraternos. Nas gôndolas dos supermercados, nas ciclovias, ainda debaixo da cama, seja porque ainda não se desprenderam dos braços de Morfeu, seja porque ainda sincronizam suspiros apaixonados. Tomando sol nas sacadas dos seus apartamentos, ou nos parques públicos.
Vendemos e compramos coisas, contratamos serviços, consultamos profissionais de diferentes ramos e especialidades, atendemos uma infinidade de pessoas das mais diferentes idades, aparências, credos, graus de instrução, preferências futebolísticas, altura e peso, dentre outras características; e, salvo em casos específicos, nunca perguntamos de onde elas vêm, qual é a origem do dinheiro recebido em espécie ou presumido em nossos cartões de crédito, débito, ou codificados, não sabemos o que (e se) comeram no dia anterior, se existe alguém da família doente, se doam sangue ou que programas de televisão assistem.
E assim, aos trancos e barrancos, sobrevivemos.
E o liame que permite a todos buscarem a satisfação dos seus interesses e necessidades, são as relações minimamente cordiais. É o mínimo de cordialidade que permite que se estabeleça uma ou mais relações humanas; a necessidade de atingirmos esses objetivos é que nos impele a lidar indistintamente (tem lá e cá suas distorções, é verdade) com este ou aquele indivíduo, que tanto pode ser um grande exemplo de ser humano, como pode ser o seu oposto.
E eis que surgem as redes sociais.
Já se sabe, há mais de século, que a concentração humana nas metrópoles, se por um lado desagregou as antigas relações sociais que eram mantidas em suas cidades de origem, por outro lado, permitiu ao esfolado, espoliado, desestruturado operário uma inusitada liberdade (esta com muitas aspas), conferida pelo efeito colateral do anonimato. O anonimato permitiria a um indivíduo assumir mais de um papel dentro dessa gigantesca aglomeração humana. Contudo, o alcance de seus papeis continuaria limitado ao pouco tempo e alcance reduzido, para que seus intentos, sejam os mais altruístas, sejam os mais sórdidos, fossem realizados.
A proliferação e o alcance quase ilimitados, que as redes sociais proporcionam, mostraram como nunca dantes uma miríade de possibilidades, de alhures formas de organização humanas, de paisagens, de culturas, de artes, derrubando fronteiras geográficas e políticas, exigindo inclusive reflexões sobre os conceitos de Estado e mesmo de Democracia.
Todavia, o universo virtual também proporcionou espaço para a criação de novas concepções, modificações das então já existentes, relativização ou mesmo repaginação da História, do que era fato; a verdade tornou-se um conceito amorfo, os fatos convertidos em versões, o valor do Ser, que fora substituído pelo Ter, agora demanda apenas parecer ser ou parecer ter.
As redes sociais ressuscitaram poetas, dramaturgos, líderes políticos e militares, religiosos, que passaram a tomar partido das mazelas de nosso cotidiano, com suas frases póstumas sobre assuntos os quais nunca versaram. Escritores, comentaristas televisivos, igualmente passaram a enveredar caminhos virtuais sem sequer a necessidade de trilhá-los, pois uma infinidade de outras pessoas os percorrem em nome deles.
As redes sociais proporcionam a aquisição de conhecimento da mesma forma que um artesão ou artesã confecciona um patchwork; da noite para o dia surgem pessoas que tudo conhecem, através do método de juntar fragmentos diversos, incompletos por definição, e que costurados se transformam em outra coisa, a qual talvez não seja aconselhável tentar entender o que seja.
Honra, lealdade, temperança, vergonha, dentre outras virtudes, se transformaram em peças de ficção.
Escrúpulo, virou trava língua.
Ainda assim, dentre todos os efeitos colaterais desejados e indesejados decorrentes da expansão incomensurável proporcionada pelo universo virtual, dois deles saltam aos olhos:
O primeiro é a voracidade com que se propagam as Ofensas Virtuais Mistas; como não precisam de fundamento na verdade, não precisam sequer ter acontecido, não demandam respeito, seja pela biografia, pela carreira ou pelos anos de estudo, bem como dispensam algum tipo de coerência; qualquer frase, afirmação ou declaração neste Velho Oeste virtual, que destrua, desconstrua, deteriore, esfole, pisoteie, humilhe, metralhe, desdenhe, entre outras expressões que venham a desintegrar alguém que por um acaso se encontre de algum modo em um lado diferente do ofensor, tem o mais amplo espaço. Comparadas com as lutas de MMA (Artes Marciais Mistas), estas últimas são como um passeio no parque.
As lutas possuem regras, as ofensas não; os combatentes se conhecem, estão em categorias divididas por peso e (para aqueles que não conhecem) se respeitam. As ofensas se alimentam da covardia e se escondem atrás dela. As lutas possuem limites, ou seja, alguns golpes não são permitidos em hipótese alguma, sob pena de desclassificação do infrator; as ofensas não conhecem limites. Nas lutas, as bravatas entre os adversários servem para promover o combate, e também têm suas limitações; nas ofensas, é impossível identificar quando começou e quando vai terminar. Nas lutas, terminada a contenda, não raro os adversários se cumprimentam, e até reverenciam-se mutuamente. Nas ofensas, a contenda não tem fim e a morte do oponente é uma vontade possível.
O anonimato proporcionado pelas redes sociais transforma as pessoas que provavelmente encontraríamos ou mesmo encontramos cotidianamente, e com as quais também provavelmente estabelecemos relações de diversos tipos (compramos, vendemos, alugamos, ensinamos, aprendemos, etc.) em condenados sem perdão, e transforma muitos de nós em algozes implacáveis insuspeitos, que expressam seus sentimentos mais obscuros, atrás da cortina de fumaça decorrente dos milhões de comentários sufocantes que constituem esse novo universo, talvez nem tão virtual assim.
Fica então uma pergunta que berra, silenciosamente: “Quantos de nós são realmente autênticos no cotidiano real, e quantos são realmente o que são no cotidiano virtual?”
O segundo efeito colateral que salta aos olhos é a constatação de que alguns muitos compartilham e se comprazem com as OVM...
Música do dia: “Nada Tanto Assim”, do Kid Abelha

Estou procurando o nome do Autor; quem conhecer, me avise, para dar o crédito.






Fantástico!!!!