QUATRO MUROS
- Roger

- 12 de ago. de 2020
- 3 min de leitura
“O que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano.”
(Isaac Newton)
Fazemos escolhas. Tomamos decisões. O tempo todo. À medida que crescemos, construímos nossa personalidade, e cada ordem, cada exemplo, cada palavra aprendida, cada cálculo realizado, cada abraço, cada prece, cada lágrima de dor física ou emocional, cada beijo, é um tijolo que se ergue para cima e para os lados, e que aos poucos dá forma e cor para o que acreditamos ser.
E porque crescemos, vamos fazendo cada vez mais escolhas; escolhemos torcer para este time de futebol e não aquele, escolhemos aquele tênis daquela cor e marca, decidimos em qual candidato votar. Às vezes, a emoção nos prega uma peça, e decidimos querer namorar esta ou aquela pessoa. Alguns, podem até escolher qual carreira seguir, e escolher uma faculdade para cursar.
Alguns, é verdade, decidem odiar.
Outros, é também verdade, decidem sublimar.
Algumas vezes tomamos decisões de forma impulsiva, sem pensar, e quando nos damos conta, já foi; outras vezes, ponderamos com esmero e cuidado, levando em conta todas as consequências possíveis, antes de fazer esta ou aquela escolha. Tantos são os que procuram dar o melhor de si para que a resultante das atitudes não faça mal a quem quer que seja. Outros tantos decidem não fazer nada, querendo mesmo fazer mal a qualquer um que não seja dos seus.
Todos, em algum momento, fazem ou deixam de fazer algo com base em alguma referência, um espelho, um modelo que os encorajam a agir desta ou daquela forma; um conjunto de ideias, recheadas de valores, de palavras de ordem ou máximas, ou dogmas, ou axiomas, ou postulados, ou mesmo adaptações e versões de alguma “filosofia” antiga, a qual, tal como uma colcha de retalhos, remendam meias mentiras a meias verdades.
Algumas dessas referências, nas quais muitos alguns e alguns muitos se apoiam, se transformam em muros.
É perfeitamente crível que existam muitos muros, mas quatro são suficientes por ora.
Um muro cresce e se consolida com as nossas convicções. Quanto mais temos certeza de que estamos certos e os outros não, quanto mais fincamos raízes em um conjunto de conceitos que consideramos como monoliticamente corretos e exclusivos, quanto mais convictos de que a forma de pensar que defendemos é capaz de explicar per se, todos os fenômenos humanos, mais incapazes de enxergar as outras verdades ficamos.
Convicção é o muro que reduz o todo ao pouco que conhecemos.
Outro muro cresce e se consolida com a nossa ignorância. Ignorância, claro, no sentido daquilo que não conhecemos. E por não conhecermos, as realidades, as outras perspectivas, as outras ideias, as outras formas de conceber e compreender o mundo que nos cerca, deixam de existir. E por deixarem de existir, muitos não compreendem e preferem execrar aqueles que “cantam em outra oitava”. Galileu não foi condenado pelos seus inquisidores com base nas convicções deles, mas pelo que ignoravam.
Ignorância é o muro que fica perpendicular ao muro da Convicção. A fragilidade de um é suportada pelo outro, e vice e versa.
O terceiro muro é o mais primal de todos: o medo. Se por um lado, o medo cumpre uma função imprescindível na preservação da nossa espécie, por outro lado, por causa do medo muitos de se fecham para uma gama incontável de possibilidades; muitos escolhem destruir primeiro para depois procurarem saber do que se trata, muitos mostram o lado pior diante daquilo que não são capazes de compreender.
Medo é o muro que fica perpendicular ao muro da Ignorância. O desconhecimento de um suporta o medo do outro, e vice e versa.
O quarto muro talvez seja o mais discreto, mas nem por isso deixa de ser alto e sólido: as expectativas. Muitos passam a esperar de outros, atitudes de alguém que está somente em nossos pensamentos. Muitos acabam vivendo suas vidas esperando que outros sejam o que imaginam.
Esperamos de certas pessoas mais do que são capazes.
Esperamos de certas pessoas aquilo que jamais desejaram ser.
Esperamos de certas pessoas aquilo que sequer sabem que desejamos ver neles.
E alguns se alimentam das expectativas que muitos depositam, como semideuses que sorvem as energias vindas das preces daqueles que projetam nestes algo que nunca foram. E nunca quiseram ser.
Expectativa é o muro que dá suporte aos outros três; um vértice, apoia os convictos, o outro, apoia os que têm medo.
E assim, os quatro muros cercam e tiram de muitos a capacidade de fazer escolhas melhores.
Os que ignoram? Não têm a mínima ideia do que está acontecendo.
Música do dia:
“Why We Build The Wall”, de Anaïs Mitchell.







Ah...as expectativas...ao longo do tempo eu vou aprendendo a derrubar esse muro. Por causa do outro muro, o do medo de me decepcionar.
Olá, Denise. Eu acho que se você derrubar uma parte do muro não vai encontrar uma resposta (o que continua sendo uma preocupação com o seu lado do muro). Ao contrário, você vai dar uma resposta a alguém e, acredite, pois eu já estive lá: dar respostas é mais libertador do que recebê-las.
Cada um de cada lado do muro muitas vezes só se importando com seu lado, mas será que se eu derrubar, nem que seja uma parte do muro não encontrarei uma resposta?