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Seleção Brasileira: Fim ou Meio?

  • Foto do escritor: Roger
    Roger
  • 11 de jul.
  • 3 min de leitura

"O Brasil é a Pátria de Chuteiras"

(Nelson Rodrigues)



Nas engrenagens que movem o futebol moderno, existe uma verdade incômoda que raramente ganha as manchetes: às vezes, o espetáculo do negócio é infinitamente mais lucrativo do que o resultado final dentro de campo. Quando olhamos para a Seleção Brasileira e seus tropeços nas últimas Copas do Mundo, a reação imediata do torcedor e da crônica esportiva é apontar o dedo para os jogadores da vez ou para a última comissão técnica.


No entanto, um olhar mais atento à economia política do esporte sugere um cenário diferente.


E se a desordem institucional do nosso futebol não for um acidente, mas um item de série necessário para manter a bilionária indústria global da bola girando?


O futebol do século XXI consolidou um claro projeto de "eurocentrismo". O continente europeu é o epicentro financeiro do esporte: é onde estão os clubes mais ricos, os patrocinadores de maior peso e as competições mais poderosas do planeta. Para justificar os investimentos astronômicos e as contratações milionárias, a Europa transformou seus gramados em arenas de gladiadores modernos e precisa que os frutos históricos — a cobiçada taça do mundo — permaneçam em seu território.


É aí que a mística da camisa canarinho entra como um elemento duplo. Por um lado, a Seleção Brasileira é imprescindível. Sem o seu peso, a sua tradição e o seu talento natural, a Copa do Mundo perde o brilho.


O Brasil vende o torneio.


Por outro lado, sob a ótica estritamente comercial, o país talvez não seja o ponto focal para onde os títulos devam convergir. Se o Brasil vencesse de forma puramente dominante, o negócio correria riscos.


Essa dinâmica de mercado encontra um paralelo perfeito na Fórmula 1 dos anos 1990. Quando o genial Ayrton Senna — então o melhor piloto do mundo — fechou contrato para guiar o melhor carro da época, a Williams, em 1994, acendeu-se um sinal de alerta nos bastidores do esporte. O temor de um monopólio absoluto e de uma temporada sem concorrência ameaçava o interesse de outros países, as cotas de patrocínio e o turismo global que orbitava o circo da velocidade. A própria organização da categoria precisou intervir nos regulamentos para frear aquela imbatível combinação tecnológica.


No futebol, o temor é semelhante: se uma única seleção se isola no topo de forma inatingível, o interesse comercial dos concorrentes desidrata.


Mesmo completando 24 anos desde a conquista do pentacampeonato em 2002, a soberania histórica do Brasil ainda é uma sombra que assusta os rivais. A Itália, tetracampeã em 2006, viveu o vexame de ficar de fora de duas das últimas três Copas e amargou eliminações precoces quando participou. A Alemanha, após o título de 2014, caiu na fase de grupos em duas edições consecutivas. Até mesmo as potências do momento precisariam de décadas de estabilidade para encostar no topo isolado ocupado pelos brasileiros.


Para prolongar a expectativa de vitória dos demais candidatos e manter o mercado europeu aquecido, a receita mais evidente — e silenciosa — parece ser o autoatentado contra a gestão do futebol brasileiro. A diferença entre o planejamento estratégico europeu e a nossa desorganização é gritante. A França manteve Didier Deschamps no comando por 14 anos, pavimentando uma base sólida e eficiente.


No Brasil, embora o técnico anterior tivesse avisado com anos de antecedência que deixaria o cargo ao fim do ciclo de 2022, a entidade máxima do nosso futebol foi incapaz de preparar um sucessor. O resultado foi um ciclo de quatro anos marcado pela instabilidade, pela espera frustrada por técnicos estrangeiros e por uma sucessão de quatro treinadores diferentes.


Uma tragédia anunciada para uma geração talentosa, mas sem bússola.


Manter a gestão do esporte nacional em permanente estado de pré-convulsão cumpre um papel de mercado perfeito. Enquanto a torcida e a imprensa desgastam-se debatendo a atitude dos atletas ou táticas imediatistas, a "desordem organizada" perpetua-se nos bastidores. A Seleção Brasileira, portanto, parece ter deixado de ser o fim — o objetivo máximo de glória desportiva de um país — para se transformar em um meio: uma grife poderosa e uma eterna promessa que gera uma miríade de negócios globais.


Entre uma Copa e outra, a engrenagem do futebol fatura bilhões alimentando a nossa expectativa de vitória e, muito provavelmente, lucra ainda mais com o Brasil perdendo do que vencendo.


Música do Dia: "O Futebol", de Chico Buarque.


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