Uma Relíquia Chamada Escola - Parte 5
- Roger

- há 5 dias
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Ninguém é tão grande que não possa aprender, nem tão pequeno que não possa ensinar. (Esopo)
O que a mantém de pé?
A pergunta que encerrou o capítulo anterior ecoa como um enigma diante de uma estrutura em ruínas. Se os pilares éticos, sociais e pedagógicos estão fraturados; se o docente está exausto, família e Estado, omissos; como a Escola ainda se sustenta como instituição obrigatória e universal?
A resposta não reside em uma súbita recuperação de sua saúde interna,
mas na existência de um exosqueleto simbiótico.
A Escola, em seu estado atual, não se mantém por suas próprias forças, mas por uma carcaça externa de interesses que a envolvem e a sustentam. É uma simbiose perversa: esses "penduricalhos" econômicos só prosperam porque a instituição está debilitada, seja ela pública ou privada. Uma escola (e seus participantes) saudável, autônoma e eficiente, tornaria muitos desses serviços obsoletos; por isso, a anemia da instituição não é um acidente, mas uma condição mantida de forma deliberada.

A Economia do Fracasso
A Escola tornou-se a âncora de um ecossistema mercantilista voraz. Onde o olhar ingênuo vê educação, o mercado enxerga uma base de consumidores cativos. Esse fenômeno pode ser definido como a Economia do Fracasso: lucra-se com a incapacidade da escola e da Sociedade em cumprir seu papel original.
O Mercado das Lacunas: Cursos de idiomas e cursinhos pré-vestibulares florescem justamente porque o ensino básico falhou em alfabetizar e preparar o jovem. Vende-se a "solução" para o problema que a própria escola, em sua inércia centenária, ajuda a perpetuar.
O Banquete Público: Na esfera estatal, a escola pública é um balcão de negócios bilionário. São fornecedores de livros didáticos cujas atualizações anuais são mais comerciais do que pedagógicas; empresas de merenda que lucram sobre a carência alimentar das famílias mais necessitadas; e confecções de uniformes que garantem contratos vultosos sob o manto da padronização, dentre outros fenômenos os quais, tal como rêmoras, aderem à estrutura como algo intrínseco ao sistema.
A Indústria do Diploma: O rito de passagem enfadonho estende-se ao ensino superior, onde sistemas de financiamento estudantil garantem o fluxo de caixa de grandes conglomerados educacionais. Ao eliminar a real concorrência pela qualidade, o financiamento permitiu que instituições oferecessem cursos de qualidade discutível a preços inflacionados, sabendo que o Estado ou o endividamento do aluno garantirão o pagamento.
No cenário educacional contemporâneo, a análise do financiamento estudantil exige uma honestidade intelectual que escape dos maniqueísmos habituais.
É imperativo reconhecer que tais políticas foram, para milhares de jovens de baixa renda, o único portal viável de acesso ao ensino superior, promovendo uma inclusão social sem precedentes na história do país.
Sem esse mecanismo, a universidade permaneceria um enclave de privilégios hereditários.
Contudo, essa democratização do acesso não pode mascarar a face perversa de um sistema que, em muitos casos, se transformou em uma engrenagem puramente mercantil. Ao priorizar a expansão desenfreada de matrículas em detrimento da qualidade e da conexão com as reais demandas do mercado e principalmente com as reais demandas da Sociedade, as instituições de ensino superior converteram o sonho da graduação em uma mercadoria de escala industrial.
O resultado é um paradoxo cruel: enquanto as faculdades garantem seus lucros imediatos através do repasse de verbas e mensalidades financiadas, o egresso é devolvido a um mercado de trabalho incapaz de absorvê-lo, herdando não uma carreira sólida, mas um endividamento sistêmico.
Nesse cenário, o financiamento deixa de ser um meio de emancipação para se tornar o combustível de uma "economia do fracasso", onde a instituição lucra com a formação de profissionais que o próprio sistema não tem como empregar.

O Combustível da Engrenagem
Para os alunos — em especial os despossuídos — a escola deixa de ser um espaço de descoberta de aptidões para se tornar um combustível necessário para alimentar essa rede. Eles são os números que justificam os repasses, os contratos e as estatísticas de "atendimento".
Transmitimos o desnecessário, o inútil e o enfadonho, garantindo que o estudante jamais conheça seu real potencial. Enquanto isso, as famílias, capturadas pela lógica do "parecer ser" e do "parecer ter", aceitam o rito. Estão mais preocupadas com a chancela do diploma ou com a conveniência de ter onde deixar os filhos do que com o "ser" que está sendo moldado (ou esmagado) ali dentro.
A relíquia chamada Escola permanece de pé não como um templo, mas como um shopping center de conveniências burocráticas e mercantis. O exosqueleto é rígido e lucrativo demais para permitir que a estrutura interna mude.
Música do Dia: “Estudo Errado”, de Gabriel O Pensador.




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