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Uma Relíquia Chamada Escola - Parte 4

  • Foto do escritor: Roger
    Roger
  • há 14 horas
  • 4 min de leitura

O futuro de um país tem a cara de sua escola no presente.”

(Cristovam Buarque)


A gente se acostuma à fila dupla caótica no portão, às arrancadas bruscas e ao buzinaço impaciente; acostuma-se aos empurrões nos corredores e ao hipnotismo dos narcóticos eletrônicos retangulares que brilham sob as carteiras. A gente se habitua a ver o relógio devorar vinte por cento do tempo de aula apenas na tentativa hercúlea de instaurar o silêncio. Aceitamos as desculpas esfarrapadas pelo livro esquecido, a amnésia seletiva sobre o dever de casa, a romaria coletiva ao banheiro logo após o recreio e as negativas cínicas — quase teatrais — de quem é flagrado com a cola na palma da mão.


A gente se acostuma com o gesto obsceno que substitui o "bom dia", com a ameaça velada disfarçada de brincadeira e com o peso do ônus da prova que recai sobre o mestre, pois, para a família, "meu filho jamais faria isso". Acostumamo-nos a ser personagens involuntários de vídeos editados, gravados clandestinamente para alimentar o tribunal do linchamento virtual nos grupos de mensagens. Suportamos o "esbarrão" calculado no corredor e o objeto que voa, "sem querer", raspando o nosso corpo.


A gente se acostuma, por fim, com a solidão institucional. Com diretores e coordenadores que, em vez de amparo, devolvem frases prontas: “você precisa saber prender a atenção deles”, ou “é preciso acolher o contexto do jovem”. Engolimos a seco a autoridade desidratada quando somos forçados a recuar em uma decisão que era, acima de tudo, pedagógica. Sobrevivemos ao pneu furado, ao risco na lataria do carro e à "gentileza" de um doce batizado com laxante, oferecidos como troco por termos sustentado a nota que o aluno, por mérito da sua própria omissão, não alcançou.


Então, o professor se medica. Toma-se o comprimido para a cefaleia, para a queimação gástrica, para o torpor da depressão e para o amargor da desilusão. Gastamos o salário para anestesiar o corpo e a alma, tentando manter a funcionalidade diante do desrespeito, da violência simbólica, das "carteiradas" sociais e da omissão que se tornou norma.



O Terceiro Pilar: A Fragilidade do Social



O terceiro pilar deste ensaio foca no desenvolvimento da interação e integração social. Partindo da máxima de que o núcleo familiar é a primeira escola e a escola o segundo lar, este ambiente deveria ser o laboratório por excelência da cidadania. Ali, o jovem deveria refinar a linguagem, praticar o respeito mútuo, compreender a hierarquia e aprender a mediação de conflitos — competências que deveriam chegar à escola já germinadas no núcleo familiar.



A peculiaridade deste pilar é sua transparência: a conduta do estudante em sala de aula é o espelho retrovisor que revela o ambiente doméstico.



Ao nascer, cada criança estabelece duas relações fundamentais e siamesas:


  1. A Relação Familiar: É o vínculo óbvio de proteção, afeto e nutrição. É onde se ganha um nome, um sobrenome e a primeira noção de pertencimento. É responsabilidade precípua do núcleo  familiar transmitir o "código de conduta" básico e os protocolos de convivência que precedem qualquer saber acadêmico.

  2. A Relação de Cidadania: É o título que vincula o indivíduo ao Estado e à sociedade. É o que garante o registro civil, o acesso à infraestrutura (água, luz, transporte), as campanhas de saúde e, crucialmente, o sistema de ensino.


Para que esse "cidadão em miniatura" possa um dia operar as engrenagens da sociedade, ele precisa ser instruído nos procedimentos de convivência. Esses valores, plantados no lar, deveriam ser apenas exercitados e polidos nas instituições de ensino. A escola seria o ponto nevrálgico: o lugar onde o conhecimento técnico e os talentos se fundem à conduta ética necessária para a vida adulta, preparando os neófitos para substituírem aqueles que, por anos, mantiveram o mundo girando.



A Escola deveria ser, portanto, a encruzilhada onde convergem as expectativas das famílias, as diretrizes dos governos e as demandas sociais e econômicas.



O Diagnóstico da Fratura


Quando os relatos de desrespeito citados no início deixam de ser exceção e se tornam rotina sistêmica, o diagnóstico é sombrio. Ele revela a falência dos valores e a visão utilitarista que as famílias passaram a ter da escola: um depósito de gente, onde a responsabilidade de educar é transferida e a culpa pelo fracasso é sempre do outro.


Nas últimas décadas, o mundo girou mais rápido do que as paredes da escola puderam suportar. Enquanto a sociedade se transformava digital e comportamentalmente, a estrutura escolar permaneceu centenária. Esse descompasso atingiu em cheio o maior patrimônio da educação: o docente. O professor hoje é um amortecedor humano, recebendo pressões que vêm de todos os lados — dos algoritmos, dos pais ausentes e das instituições omissas.


Conclusão: O terceiro pilar está em processo avançado de fratura exposta.


Diante da triste constatação de que as bases que sustentam a instituição Escola estão em frangalhos, resta a pergunta inquietante:


O que ainda a mantém de pé?



Música do Dia: “Lápis de Cor”, com Fátima Guedes.


2026 - RDA Eventos Artísticos - Imagem concebida de forma autoral com auxílio de IA.
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