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Super

  • Foto do escritor: Roger
    Roger
  • 6 de out. de 2020
  • 5 min de leitura

Atualizado: 6 de out. de 2020

“Infeliz a nação que precisa de heróis.”

(Bertold Brecht, in “A Vida de Galileu”)



Para alguns muitos, o último foi Ayrton Senna; prevalecendo esta tese, há mais de 25 anos não temos alguém que dignifique o país, através de suas ações sobre-humanas, superando seus obstáculos com suas próprias virtudes, ante tão ou mais poderosos inimigos, sem subterfúgios, sem truques, sem qualidades fabricadas.


Naqueles tempos, as manhãs de domingo, em dias de corrida, tinham suas rotinas alteradas: seus admiradores acordavam um pouco mais cedo, saíam ainda sonados de casa para fazer a via sacra (casa – banca de jornal – padaria – casa), preparavam o café da manhã para toda a família – esta, muitas vezes, ainda sob os braços de Morfeu – pegavam um naco de pão ou bolo, mais o café com leite e, britanicamente, se ajustavam ao sofá, este já com os contornos adquiridos das formas do telespectador, para hipnoticamente presenciar um garantido espetáculo, mesmo que significasse, eventualmente, abandonos precoces ou acidentes indesejados.


A adrenalina era certa, e o êxtase da vitória, sempre esperado; muitas vezes, sob o suor, sangue e lágrimas, como se ele estivesse defendendo a nação, ao segurar o volante de seu bólido, enfrentando de forma ímpar cada curva, cada chicane, cada retardatário, cada cerca e muros, como se fossem as agruras cotidianas de cada um dos aficionados; tal como para estes, e para tantos outros, o piloto era a expressão fática de um dos slogans proferidos pelos brasileiros, quando classificam a si mesmos: não desiste nunca.


E assim, na frente dos adversários, provocando furor e estupefação aos espectadores, Ayrton deixa as pistas para receber a bandeirada final em outro plano de existência, na frente, de forma apoteótica e fazendo o que mais gostava.


Justiça seja feita, o mundo em geral e o Brasil em particular, muito felizmente, convivem com incontáveis heróis, a maioria anônimos, que convertem o seu tempo em ações com vistas a aliviar o sofrimento, proporcionar alguma perspectiva de vida mais digna para seres humanos os quais, seja pela sua condição sócio/econômica, seja por alguma necessidade especial, seja pelo seu gênero, ou outra mazela, demandam alguma atenção e respeito, encontrando nesses personagens da vida real um alento, um fio de esperança.


Atualmente, convivemos com um sem número de profissionais, que com justeza foram alçados à condição de heróis, em virtude da dedicação incansável na direção de salvar vidas, enfrentando um inimigo silencioso, insidioso; que arriscaram suas próprias existências; que se privaram da convivência com aqueles que amam, em prol daqueles que foram acometidos pelo flagelo da pandemia: os profissionais de saúde, os quais, diga-se de passagem, já eram heróis bem antes do fenômeno planetário, considerando as condições de trabalho e de carreira oferecidos a estes, ao menos na Terra Brasilis.


A despeito da presença de considerável contingente destes heroicos seres humanos, comuns – não só os da Saúde, mas tantos outros - muitos dos quais dividindo a parede de nossos apartamentos ou casas geminadas, barracos ou mesmo grades e cercas, pegando o mesmo elevador, o mesmo transporte público, fazendo suas refeições em mesas próximas, o século XXI vem apresentando um consistente, recorrente e crescente aumento da presença, tanto em nosso imaginário inconsciente como capturada e expressada em diversos recursos massivo-midiáticos, de seres diferenciados.


Os Super-heróis.


Presentes na história da humanidade desde os primórdios, alguns surgem como semideuses, fruto de romances entre deuses e mortais, em suas aventuras na Terra; com o passar dos séculos, os seres superpoderosos se espargem pelo planeta, vindos de diversas origens: híbridos, mutantes, reconstruídos, divindades nórdicas, alienígenas. A miríade de abnegados não comporta heróis que sejam seres humanos legítimos, como se não fosse possível a um ser humano normal ser super-herói. Ou é transformado, ou é forasteiro, ou é alienígena.

“A Verdade - e a Justiça, pelo jeito – estão lá fora”; tomando emprestado um slogan de famoso seriado de ficção dos anos 90 do século passado.


Os super abnegados são predominantemente altruístas, usando seus poderes para proteger indistintamente qualquer ser humano comum, sendo capazes de realizar feitos em prol do outro, seja quem for, tanto aquilo que não somos capazes de fazer, como aquilo que esperamos que os outros façam, ainda que sejamos capazes e até devamos fazê-lo.


A presença renitente de super-heróis nas diversas formas de expressão artística e cultural, traz uma desconfortável e indisfarçável sensação de que o descrédito, a desconfiança, a desesperança e a incapacidade da sociedade em lidar com os problemas que ela mesma provoca, tomou conta de corações e mentes de uma parcela para lá de significativa da nossa civilização.


Santos de carne e osso que operam milagres à força...


Super-heróis possuem uma prerrogativa muito semelhante às de alguns governantes, aqui e pelo mundo afora; usam seus poderes pensando apenas no agora, sem a responsabilidade pelas consequências, e muito menos preocupação com as causas dos males contra os quais militam. Até porque, se as causas fossem tratadas, super-heróis se tornariam figuras de entretenimento. Assim como alguns segmentos econômicos.


Um dos pré-requisitos para a existência e manutenção dos países - da forma como conhecemos, e que os Cientistas Políticos, Economistas e Juristas chamariam de Estado Moderno, onde o poder se exerce através de uma carta, a qual é chamada de Constituição, e a partir dela esta ou aquela nação se organiza - é o princípio da exclusividade do uso da força; ou seja, apenas o Estado, através dos seus mecanismos e atribuições previamente estabelecidos (forças armadas, polícias, por exemplo), pode exercer a força contra alguém e, ainda assim, sob determinadas condições e devidamente autorizadas legalmente. Tais preceitos são cuidados para que nenhum governante use seu poder para oprimir adversários, ou lançar mão da violência para fins escusos ou diversos de sua finalidade pactuada.


Sob este ponto de vista – e certamente existem outros – os super-heróis são, na prática, criminosos. Ainda que desejem verdadeiramente fazer o bem.


Apesar da força descomunal ou ao menos extraordinária dos super-heróis, alguns mais, outros menos, possuem algumas fragilidades; pode ser uma rocha radioativa, as pessoas amadas, descontroles emocionais, pane das armaduras ou equipamentos eletrônicos, dentre outras. Todos eles, entretanto, são sensíveis a um artefato delicado, extremamente comum em nossas residências, instituições escolares e locais de trabalho, de utilidade inegável; mas na mão de determinadas pessoas, torna-se praticamente um emissor de raios paralisantes, indefensáveis mesmo para os mais poderosos:


A Caneta.


Na mão dos políticos e dos advogados, um veneno.


Na mão dos educadores, a obsolescência.


Ainda assim, para muitos de nós, sonhar em ser super-herói ou super heroína (muitas já são e nem se dão conta disso), imaginar fazendo a diferença ante um mal insistente e ameaçador, promovendo a justiça e estabelecendo o equilíbrio entre as pessoas, despertando os sentimentos e emoções mais nobres e estimulando o desenvolvimento do que temos de melhor, é fácil e recorrente.


Difícil mesmo é encontrar um super-herói negro nas lojas de brinquedos.


Música do dia: “Cor de Rosa Choque”, de Rita Lee



Créditos: Pinterest


 
 
 

1 comentário


paulaconcei
09 de out. de 2020

assim como todos os outros textos... simplesmente maravilhoso!!!!

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