Terceiros
- Roger

- 20 de out. de 2020
- 4 min de leitura
“...E não posso aceitar sossegado qualquer sacanagem ser coisa normal...”
(Milton Nascimento, in “Bola de Meia, Bola de Gude”)
O ano, 2000; o local, Teatro São Pedro. Primeira récita da ópera “As Bodas de Fígaro”, de Mozart. Agora escondido entre incontáveis edifícios e elevados, a simpática casa de espetáculos, com seu esmerado interior e elegantes linhas, passa despercebida pela população tanto fixa como de passagem, em busca da sobrevivência sôfrega, ou mesmo hipnotizada pelos seus espelhos coloridos.
Atrás de seu palco, exíguos espaços, por onde freneticamente se movimentam instrumentistas e cantores, contrarregras, diretores, maestro, figurinistas, maquiadores; pelas coxias, pelas rotundas, pelos camarins, pelos estreitos corredores.
Em um dos camarins, poucos momentos antes do início do espetáculo, uma das solistas está acometida de fortes dores de cabeça, a ponto de lhe tirar sua concentração.
Uma das cantoras, coreana de nascimento, começa a aplicar na colega técnicas que comumente chamamos de holísticas, as quais não só diagnosticaram a causa - de origem alimentar - como também proporcionaram o desaparecimento dos sintomas.
A solista entrou em cena sem dores.
Perguntada sobre onde, quando e como aprendeu tais técnicas, a cantora respondeu que aprendeu em seu país de origem, que o conhecimento era passado de geração em geração, que a prática era feita entre os próprios familiares e habitantes, que se cuidavam mutuamente, e principalmente porque no interior daquele país, na época em que lá vivia, não existiam médicos, muito menos dinheiro, para pagar por um.
Desde então, até os dias de hoje – vinte anos se passaram – o mesmo desconforto me percorre; aquela incômoda sensação de que, sem que percebamos, nos tiram não só apenas nossos talentos e força de trabalho para servir entidades que a cada ano se desvinculam cada vez mais de cada um, mas subtraem também nossa capacidade de autoconhecimento e autodeterminação.
Crescemos acompanhando a imensa massa de pessoas se dirigindo para o abismo, e de tanto ver todos fazendo a mesma coisa, alguns muitos passam a achar tudo isso normal. Sem perceber, passamos a chamar de vida o ato ou efeito de esvaziarmos a nós mesmos – nossas vontades, nossos talentos, nossos desejos – e entregando nosso ser para sabe-se lá quem.
Sem perceber também, passamos a assimilar a ideia de que o que somos está ao nosso redor, de fora para dentro; não precisamos ser, se temos; parecer ter ou parecer ser já basta.
A terceirização do Ser.
Terceirizamos nosso corpo para diferentes fins; a fome, por exemplo, não é mais nossa. Comemos sem fome, comemos o que dizem ser bom, comemos sem saber o que comemos, sem saber sequer se precisamos. De tanto comer sem saber por que, acabamos comendo o que vicia. O adocicado sabor do veneno sólido e líquido, da ingestão do sabor que não pode desaparecer de nossas bocas.
Terceirizamos nosso corpo quando as afecções nos afligem, e por não sabermos os motivos que nos levaram a este ou àquele estado de saúde, procuramos alguém que não nos conhece, para nos dizer o que fazer, porque desconhecemos nossa própria embalagem. E tomamos remédios. E os remédios tomam a gente. O corpo não precisa mais se preocupar em aprender a se defender sozinho, o remédio terceiriza a capacidade de reagir à dor; a dor se transforma em um fenômeno em si mesmo, e a causa um mero detalhe.
Adoeço, logo, existo.
A dependência é um item de série; um ingrediente.
Terceirizamos nossas mentes, quando entregamos nossos talentos, nossa inteligência - ou quando os sufocamos - em prol de quem não se importa conosco e com nossa essência, e que nos enxerga como matérias primas ou mesmo commodities, e que alguns muitos até idolatram, como o mercado, por exemplo.
Terceirizamos nossa capacidade de solucionar conflitos, de mediar discussões, de buscar as melhores alternativas conciliatórias, a fim de que as relações pacíficas prevaleçam sobre as atitudes animosas, e que os interesses individuais não se sobreponham aos interesses coletivos ou mesmo do outro, suprimindo a liberdade – já tão combalida – ou o bem estar de todos. Entregamos novamente para outros, que não nos conhecem em boa parte das ocasiões, e que irão dizer coisas incompreensíveis, com uma habilidade ímpar de, em muitos casos, deixar todos insatisfeitos.
Entregamos a terceiros nossa capacidade de organização social, de lidar com obstáculos e desafios que se apresentam diante de nossas comunidades, de promover ações com vistas a melhorar a qualidade de vida coletiva, terceiros estes que fazem com o poder que se desprende da coletividade, a mesma coisa que fazemos quando diante de um pé de jabuticabas carregado de frutos maduros: colhemos e levamos embora. Como nossos políticos, por exemplo.
A independência dá prejuízo.
Terceirizamos nossa alma, quando entregamos nosso templo interior, o mais importante e valioso de todos – nosso próprio ser – para pessoas e organizações as quais, em nome de Deus, irão dizer o que devemos fazer com nosso próprio espírito. Entregamos a fé, as esperanças, parte dos ganhos – atualmente, os votos também - ora para as seitas da iniciativa privada, ora para as organizações que colocam crianças para guerrear (truque velho, da Idade Média), ora para orar contra seus iguais, quando não para matar os infiéis; terceirizamos a alma para que possam lotear o céu, indulgenciar monetariamente os pecados; para entorpecê-la.
Sem controle do próprio corpo, da própria mente e da própria transcendência, a humanidade caminha para se tornar uma legião incontável de zumbis adestrados.
E o que é mais interessante: ainda pagamos para isso.
Música do dia: “Clube da Esquina 2”, de Milton Nascimento

Imagem: Secretaria do Estado da Cultura de São Paulo






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