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Três Pilares

  • Foto do escritor: Roger
    Roger
  • 20 de ago. de 2024
  • 2 min de leitura

"A gratidão é uma forma singular de reconhecimento, e o reconhecimento é uma forma sincera de gratidão."

(Allan Vaszatte)



Em um canto discreto da cidade, onde as ruas de paralelepípedos se entrelaçam como os destinos que ali circulam, há um café. Não é o maior nem o mais sofisticado, mas é o tipo de lugar onde o tempo parece desacelerar, onde as conversas ganham peso e as palavras encontram morada.


Ali, sob a luz suave de uma lâmpada amarelada, João e Ana se encontram todas as sextas-feiras. Não se sabe ao certo quando esse hábito começou, mas ele se firmou como um ritual sagrado em meio ao caos cotidiano.


João, com seus cabelos já grisalhos e sorriso sereno, trazia no olhar a experiência de quem viveu amores e desamores. Ana, com a juventude ainda fresca na pele, carregava o brilho de quem tem o mundo pela frente, mas também o peso das dúvidas e incertezas.


No café, enquanto o aroma de grãos torrados impregnava o ar, os dois conversavam sobre tudo e sobre nada. Falavam das miudezas da vida, das notícias do jornal, dos sonhos adiados e dos que ainda ansiavam realizar. Entre um gole de café e outro, havia mais do que palavras: havia afeto. Um afeto que não se traduzia em grandes gestos, mas em uma escuta atenta, em um olhar que entendia sem julgar, em uma presença que confortava.


Afeto, afinal, é esse laço invisível que nos une aos outros, esse abraço que a alma dá quando o corpo não consegue alcançar. É o que nos faz sentir vistos e compreendidos, mesmo nas nossas fragilidades.


João sabia disso.


Ele sabia que, por trás das palavras de Ana, havia uma busca por segurança – a segurança de ser aceita como é, de não precisar vestir máscaras ou encenar papéis.


Ana, por sua vez, encontrava em João o reconhecimento que tanto almejava.


Em um mundo onde todos parecem correr para alcançar padrões inalcançáveis, ser reconhecida, simplesmente, por ser quem era, era um alívio, uma âncora. E João, sem perceber, também se alimentava desse reconhecimento. Ele via, nos olhos de Ana, a validação de uma vida bem vivida, de escolhas que, embora difíceis, o trouxeram até ali.


Esses encontros semanais, que poderiam parecer banais para quem passasse desavisado pela janela do café, eram, na verdade, a tessitura de uma relação profunda. Uma relação que não exigia declarações grandiosas, mas se sustentava nos pilares fundamentais: afeto, segurança e reconhecimento.


No fim de mais uma tarde, ao se despedirem, João e Ana sabiam que voltariam na semana seguinte, porque naquele espaço-tempo compartilhado, encontravam o que muitos passam a vida inteira buscando.


E assim, o café se tornava não apenas um lugar de encontros, mas um refúgio onde os laços humanos eram reforçados, onde os pilares que sustentam nossas relações ganhavam forma e sentido.


E enquanto o sol se punha, tingindo o céu de laranja, o pequeno café permanecia como um testemunho silencioso de que, no fundo, o que todos nós buscamos é exatamente isso: afeto, segurança e reconhecimento.


E mais nada.


Música do Dia: "Charme do Mundo", de Marina Lima.




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1 comentário


Carlos Dias
Carlos Dias
20 de ago. de 2024

Pura literatura. Lindo texto! Já tá escrevendo o romance?

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