Um Foguete Chamado Humanidade
- Roger

- 2 de mar. de 2021
- 3 min de leitura
“A Terra é minha casa e a humanidade a minha família”
(Khalil Gibran)
A civilização humana é semelhante a um foguete, partindo em direção ao céu.
Em sua base, um caldo químico repleto de energia borbulhante, fervilhante, em um frenesi molecular se debatendo, que tira da inércia o artefato, que dá a sua velocidade crescente. A combinação explosiva que produz o impulso decorrente da mistura, do confronto, da compressão de diversos elementos os quais juntos e em grande quantidade, mas em espaço demasiado reduzido, desencadeiam a liberação da força inimaginável, canalizada para uma saída estreita, a fim de garantir que o restante da estrutura se mantenha na direção projetada, vencendo a força da gravidade que a todos prende.
Exauridas as suas energias, e satisfeitas as suas finalidades, o primeiro estágio é descartado.
Afinal, é preciso se livrar do peso morto.
O segundo estágio é aquele que, sem a intensidade frenética e incomensurável da queima de energia, como fez a primeira parte, prossegue até em velocidade mais acelerada, pois não tem a incumbência de carregar todo o foguete em suas costas, uma vez que sua base já realizou o trabalho mais pesado; menos gravidade, menos resistência do ar e cada vez mais perto do objetivo, até que, de repente, também se desprende, ficando pelo caminho.
Por fim, cada vez mais livre das amarras gravitacionais, graças ao esforço de sua base e de sua parte mediana, uma parte infinitesimal de toda a estrutura atinge finalmente seu objetivo, entrando em órbita, flutuando de forma indiferente, impassível e indolente, ocupando o lugar que desde o início fora reservado para esta fração do todo.
Nenhum foguete é feito para chegar inteiro ao seu destino.
A maior parte dele é feita para não chegar mesmo.
Só a parte que chega ao seu destino - seja ela um satélite, uma sonda, uma cápsula tripulada, uma rover de exploração – é lembrada, enaltecida e valorizada, e nunca as etapas que antecederam e que proporcionaram, de fato, a bem sucedida chegada, consumidas, esquecidas, destroçadas.
Não à toa, outras estruturas, ainda que presas ao chão, se assemelham e reproduzem a mesma forma de lidar com as organizações humanas; as torres dos grandes edifícios e suas coberturas (inclusive as residenciais), os organogramas, as escalas hierárquicas, as pirâmides, a História (quando atribuem a um general ou algum suposto líder político ou militar ou equivalente o mérito pelo sucesso de uma empreitada de grande impacto ou importância, às custas de milhares de vidas ceifadas ou inviabilizadas).
Talvez a ilusão criada pelo topo de que todos fazem parte de um só veículo, e de que um dia todos chegarão ao destino tão propalado, de uma vida estável, decente, minimamente confortável, justa e igualitária, ante a uma realidade de sofrimento, enfermidades, desalento, violência e de desigualdades, é que produza o atrito tenso e explosivo entre os iguais, como se o próximo fosse o responsável pelas agruras que sofre.
Quanto mais a base se fricciona, se contorce, se agride, se culpa e se acusa mutuamente, mais o topo se aproveita da energia gerada.
Mesmo aqueles que acreditam se encontrar no “segundo estágio”, no esforço incansável em se distanciar, se afastar, segregar e negar qualquer possibilidade de identificação com o primeiro estágio, alimentando-se de uma vã esperança de que um dia, serão parte do topo, acabam igualmente descartados quando, ao negar o primeiro estágio e enaltecer o último, garantem o tempo e distância necessários para quem, de fato, chegará ao destino traçado.
Felizmente, o ser humano é bem mais do que combustível e comburente, e ainda pode, se quiser, mudar o seu destino.
A pergunta é se ainda teremos planeta e tempo para isso.
Música do dia: “Comportamento Geral”, de Luiz Gonzaga Júnior (Gonzaguinha).

Créditos: Pixabay






Comentários