Um Grão de Areia
- Roger

- 10 de mar. de 2020
- 4 min de leitura
“Você é uma Criança, no meio do Universo, eu sou um grão de areia, no meio do Deserto”
(Neymar de Barros)
“Antes Mundo era pequeno, porque Terra era grande,
Hoje Mundo é muito grande, porque Terra é pequena...”
(Gilberto Gil)
Quando se toma consciência da imensidão do mundo em suas mais diversas grandezas, e em particular da incomensurável quantidade de pessoas, que nos últimos anos reservam um tempo de suas vidas para dedicar suas energias na publicação de algo que julgam importante para si ou para outros, bem como das incontáveis ferramentas e locais para onde são publicadas as obras de todo tipo de conteúdo, é muito difícil imaginar uma analogia melhor da que está apresentada no título desta postagem.
Talvez a mesma sensação fosse por mim sentida se fosse possível estar, em um mesmo espaço, com todas as sete bilhões e trezentas milhões de vidas humanas.
O advento das tecnologias que permitiram ao cidadão comum se transformar, ainda que por poucos minutos por postagem (afinal, ninguém se detém por muito mais de três minutos assistindo ou lendo algo em seu celular) em celebridade instantânea, aproximou distâncias, realidades, culturas; proporcionando situações impensáveis, nas quais pessoas que nunca se conheceriam pelos métodos tradicionais, viessem a se conhecer e até interagir não só virtualmente, como também no plano pessoal, presencial; os sites e aplicativos de relacionamentos que o digam.
Países como a China - na verdade seus respectivos governos - despenderam grandes energias na tentativa – inglória – de coibir o acesso dos seus cidadãos ao mundo exterior, à sua diversidade, a diferentes formas de organização e pensamento, ampliando horizontes em todos os aspectos.
As pessoas, paulatinamente, passaram a mostrar pratos de comida, os braços levantados com uma latinha, taça ou copo, celebrando um momento especial, seus pets, o bronze adquirido na praia ou na piscina, o soprar das velas de um bolo, o ambiente de trabalho, o shape na frente de um banner de algum filme de sucesso; as paisagens dos locais por onde viajaram, as roupas transadas, a família reunida, os shows de música a que assistem, as poses ao lado de celebridades, que emprestam prestígio instantâneo, o gatinho que faz perguntas e responde sarcasticamente, os GIF’s e os memes, os frutos do trabalho, manifestações de fé e religiosas...
Não dá para deixar de fora os textos e as frases “célebres” atribuídas a Arnaldo Jabor, Luiz Fernando Veríssimo, Jô Soares, Nietsche e Shakespeare (póstumas), dentre outros; as entidades que doam cadeiras de rodas gratuitamente, os testemunhos de especialistas internacionalmente desconhecidos, revelando soluções revolucionárias para problemas sociais crônicos da educação, da saúde e das finanças.
Também são dignas de menção as postagens corajosas de pessoas que resolvem dar uma guinada em suas vidas para, como no mito da Fênix, deixar suas carreiras bem sucedidas para recomeçar investindo em atividades que permitem maior qualidade de vida e sustentabilidade, divulgando seus novos meios de vida e a disposição de servir, e não só sorver; as músicas que marcaram as vidas das pessoas, que compartilham como forma de mostrar os sentimentos subjacentes, as imagens geracionais, nas quais até bisnetos, netos, filhos, avós e bisavós aparecem no mesmo take; as postagens de gratidão, sejam pelas mais singelas dádivas, por mais um dia, pelos amores correspondidos e vividos, sejam pela recuperação, de um ente querido, acometido de alguma enfermidade, o nascimento, a aprovação na faculdade.
Há também os conteúdos produzidos com a única finalidade de desconstruir um desafeto, independentemente de seu teor ser verídico ou não; afinal, uma boa frase de efeito, em muitos casos, pode motivar muita gente a disseminar inverdades cujos efeitos tendem a ser devastadores e irreversíveis; aquele mix de verdades e inverdades inseridas nos textos, na tentativa de transformar o irreal em real. As discussões de fertilidade discutível sobre assuntos os quais, até “ontem”, nem faziam parte da vida das pessoas envolvidas, cujos efeitos não raro destroem amizades longas, estremecem relações, produzem mágoas recíprocas ou mesmo coletivas, ressentimentos, decepções e constrangimentos repentinos e surpreendentes.
Há também a crescente presença de páginas comerciais, transformando algumas redes em feiras livres.
Não faltam tampouco os algoritmos, que atualmente devem saber mais sobre nós do que nós mesmos.
Há ainda as empresas que adquirem as informações capturadas das nossas ações, reações e pontos de vista.
Tem também o que jamais saberemos.
Ainda assim, considerando a miríade de publicações, nos sites, nos blogs, nas redes sociais mais instantâneas, a infinidade de estilos, de perfis, de assuntos, de abordagens, fica difícil imaginar qualquer pessoa, nesta época e momento em que vivemos, publicando algo que já não tenha sido exaustivamente replicado.
Isso me faz lembrar a Legião Urbana, na música “Quase sem Querer”: “Mas quais são as palavras que nunca são ditas...”
Ainda assim, o impulso que me move agora é maior do que antes.
Talvez porque todo mundo, inclusive eu, tenha lá no fundo aquela vontade de jogar uma garrafa com uma mensagem dentro ao mar, para que alguém, quiçá, um dia venha a ler.
Talvez porque todo mundo, inclusive eu, tenha lá no fundo aquela vontade de fazer uma pintura rupestre virtual, nas paredes rochosas da internet, para que alguém, quiçá, um dia possa ver.
Talvez porque não sejamos grãos de areia e, por mais numerosos que sejamos, cada um é único, e única é a forma como cada um enxerga, compreende e reage aos incontáveis estímulos ao seu redor.
Talvez porque a complexidade e a complementaridade sejam mais benéficas do que a exclusividade e os dogmatismos.
Talvez simplesmente, escreva porque me deu uma baita vontade.
Até a próxima!
Música do Dia: “Parabolicamará”, de Gilberto Gil.







Ser ou não ser não é a questão. A questão é como ser...