HOMENAGEM ÀS MULHERES
- Roger

- 6 de mar. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 5 de mar. de 2022
UM SONHO SINGULAR
Eu poderia falar das mazelas, aquelas, que durante o ano todo, insistem em nos lembrar que ainda excluímos, em discriminar persistimos, e que de forma um tanto cínica, comemoramos mais um ciclo de desrespeito, desamor e preconceito, e chamamos de homenagem, só porque dizemos:
“Parabéns para elas!!”
Eu poderia falar da erotização descontrolada, dos assovios e das provocações na rua, do constrangimento passado na composição lotada, da meta cobrada e nem sempre atingida, do TOC, da TPM, do LDL e do HDL, do HPV, da bipolaridade, da cólica, da enxaqueca, da dor lancinante disfarçada, enrustida, e a indisfarçável sensação de que cada um fica mesmo é na sua...
Mas eu prefiro falar da superação, de cada vez que ela se ergue, após cada queda, cada decepção; da força de vontade que brota das entranhas do seu ser e segue seu rumo, sem distração. O salto pode quebrar, maquiagem pode borrar, a calça pode apertar, o filho pode aprontar, parceiro pode falhar, propina pode atentar... Mas isso não muda a convicção...
Porque Perseverança se vive no feminino, e singular...
Eu poderia falar que ela, cotidianamente, é moral ou fisicamente, agredida; da diferença de 30 por cento a menos, medianamente, de sua remuneração percebida. Que 96% das agressões partem de gente que diz que gosta, ou família, conhecida. Ficar discorrendo detalhadamente cada violação brutal e covarde, sofrida...
Mas eu prefiro falar que, a despeito de toda sorte de desigualdade, do cerceamento constante de oportunidade, da cidadania, de fato pouco mais de metade, é dela que emana a versatilidade, o jogo de cintura, o senso de preservação, a prudência, a compaixão e por isso reina, absoluta, na terceira, aquela, a da melhor idade...
Porque longevidade se conquista no feminino, e singular...
Mas o que eu gostaria mesmo de falar, é de um sonho renitente, onde as pessoas se reconhecessem como iguais, onde os rótulos, as diferenças, as classificações depreciadoras, as declarações dissimuladas, as decisões subterrâneas, as ações de caráter excludente, fossem substituídas pelas virtudes, aquelas, como sensibilidade, compaixão, lealdade, retidão, humildade, honra, respeito, honestidade... Valores que tanto queremos ver, nos outros, e quantas vezes muitos persistem em não enxergar na gente.
Sonho também com relações de perfil mais transparente, em respeitar da mesma forma, o igual e o diferente; em um constante aprender e compartilhar, dia a dia, a cuidar cada vez melhor, do nosso meio, nosso habitat, nosso ambiente. Que o verdadeiro valor esteja mais no ser do que no ter, ou mesmo, como ocorre nos dias de hoje, sobre o parecer ser ou o parecer ter. Que a força das ideias sobreponha à ideia da força, de modo permanente...
Contudo, posso até acreditar que um sonho seja maquete concebida de um projeto realizável.
Todavia, posso até acreditar que um sonho seja ensaio transcendente do que se quer palpável.
Entretanto, quando do sonho acordo, a realidade vem, de modo implacável, reivindicar a sua realização; é quando fica claro que nossas demandas, queixas, lamentações, críticas, desejos, não se saciam pela simples intenção... É quando me apercebo que pensamentos e atitudes necessitam caminhar na mesma direção. É quando fica translúcido como cristal que muitas vezes queremos que as coisas e as pessoas mudem, mas que essas mesmas precisam acontecer primeiro em mim, de antemão...
Porque mudança, renovação e transformação só acontecem no feminino... E no plural.
Sou simpático à ideia de que a Humanidade deveria funcionar, tal qual a Mãe Natureza há bilhões de anos ordena, dentro de um delicado, sutil, equilibrado e harmônico sistema; porém, orgulhoso e displicente, violento e indolente, tem o homem, no sentido peniano da palavra, relegado a sua outra parte, de co protagonista à reles figurante... Como então evitar, pois, tanto desequilíbrio sócio-ecológico?
Talvez então, depois de tanto tempo em plano desigual, na vida, na sociedade, até na concordância gramatical, não seria o momento, de clamar aos quatro ventos: “Menos Andro e mais Gineco... Lógico?”.
Porque igualdade se luta no feminino, e singular...
Embora sejam mais da metade de nossas gentes, embora sejam metade das famílias, dirigentes, esta purulenta, carcomida e decadente androcracia, acomoda pouco mais de dez por cento delas, enquanto representantes, podem se fazer presentes... Por onde andam nossas belas, clamando ansiosamente em voz alta:
Taiguara diria, Amanda; Milton diria: Beatriz; Joyce diria: Clara e Ana; Montenegro diria: Madá... Onde estão nossas Gisele, Marlene, Diana, Rafaela? Fernanda, Priscila, Rosemeire e Marcela? Rosicléia, Tereza, Ana Paula e Cristina? Renata, Karin, Ester e Marina? Regina, Camila, Denise, Ivete, Marta, Leila, Fabiana, Heloisa, Helena, Maria, Simone, Sheila, Ana Júlia, Rita, Joana, Zuleica, Silvana, Michelle, Raquel, Elisabete, Sonia, Patrícia, Muriel, Waléria, Rosana, Elisa, Laura, Vitória, Márcia, Cláudia, Rosana, Soraia...?
Vocês fazem tanta falta!!
Porque presença se faz no feminino, e singular...
Tanto se fala, hoje em dia, de primeiro, segundo, terceiro turno, como algo nefasto, como algo ilegal, como tentativa de golpe institucional.
Sabemos, todavia, que recai sobre seus ombros a apologia conveniente, mas justa e devida, da capacidade feminina, em lidar com vários encargos ao mesmo tempo, ou de encargos sucessivos a ela atribuídos no seu dia a dia. Quantos de nós já não foram testemunhas do corre-corre, seguido de expressões do tipo: “Agora vou para o segundo turno, ou jornada”. Ou “Segundo tempo, que nada!” “Agora é o terceiro tempo!”.
Pois homem, quase nunca quer ou vai cozinhar... Às vezes, se arrisca até filho na creche buscar... Lição de casa acompanhar, nem pensar... Faxina, ajudar a limpar, hahaha... Consertar vazamento na pia e chuveiro trocar, melhor outra pessoa chamar...
Mas se tem tanta coisa que homem não consegue se fazer multiplicar, por que diacho nos parlamentos vai saber politicar?
Vai ver é porque a mulher, consciente dos desafios e da falta de reconhecimento, dos obstáculos e mais preparada para lidar com o sofrimento, traça melhor o seu destino...
E é de pessoas assim que nossa sociedade tanto necessita; para alimentar de perspectivas e de esperança o país, o estado, a cidade que sonhamos... Vivemos em uma realidade onde a pura e simples participação protocolar e cívica não mais é o bastante para garantir a vida digna que todos nós merecemos.
É preciso, mais do que nunca, até para que não tenhamos, em um futuro não distante, de nos envergonhar ao não ter o que deixar de legado positivo aos nossos filhos e netos...
... Entrarmos de corpo e alma, ainda que seja com um ou outro gesto singelo, no sentido de proporcionar um mundo com mais igualdade, justiça e esperança...
Porque corpo, temos de diferentes tipos; mas alma só se tem no feminino... E é singular...
Por fim, um profundo, afetuoso, respeitoso e sentido agradecimento, pelo privilégio, pela honra, pela atenção dispensada, pela compreensão de meu intuito, pela paciência e por todos os bons sentimentos que a mim chegaram nestes momentos.
Porque gratidão se faz no feminino, e singular.
Música do dia: "Todas as Mulheres do Mundo"- Rita Lee
Gravura de Cristina Orlando








Coisa linda de se ler! Sua sensibilidade nos emociona!
Valéria: présente !
Parabéns pelo texto de imensa sensibilidade, "au féminin" (no feminino), que no francês é um termo usado dar um toque feminino pras expressões ou qualquer outra coisa que o seja. Cabe muito bem aqui. Abraços.
Estou tão emocionada com o texto que não consigo concatenar emoção e digitação (coisa de mulher, diriam)... profundo demais por ser escrito por um homem.... sem querer repetir conceitos antigos e nefastos, mas 'diriam' que é o tal 'lugar de fala'... mas vc encontrou esse lugar é o encontrou na minha alma. Sem ter muito mais o que dizer ou como expressar, apenas digo um sonoro e amável OBRIGADA... e abuse sempre desse lugar de fala já tão seu.
Pura poesia, no feminino e singular.