Uma Fábula Brasileira
- Roger

- 24 de mar. de 2020
- 8 min de leitura
“O Universo é Finito...” (Thanos, in “Vingadores, Guerra Infinita”)
Era uma floresta como muitas naquele imenso território: bela como muitas, fervilhando de vida, com seu verde salpicado de diversas tonalidades; tinha musgo, tinha arbusto, tinha árvores de todos os tipos e tamanhos, e, apesar da diversidade, compunha uma harmoniosa paisagem.
Pulsava de tanta e abundante vida, temperada com os sons dos mais variados tipos, inundando prazerosamente qualquer tímpano, por mais indiferente que pudesse tentar ser.
Era possível ao ouvido mais atento, ouvir os sons das árvores sorvendo os nutrientes da terra, crescendo, respirando, contorcendo, distribuindo e compartilhando o espaço com as outras irmãs, seus galhos, folhas, flores e frutos, recebendo as dádivas de um ambiente sadio, e revertendo ao mesmo solo que as sustenta, as sementes e partes que se desprendem, formando um tapete macio e úmido, proporcionando um delicado, mas eficiente ciclo virtuoso de renovação e preservação.
Em seus galhos, nos troncos caídos, nas tocas, nas cavernas e nas cavas, e em lugares não descortinados, uma infinidade de animais, alguns com pelos, outros emplumados, alguns revestidos com carapaças ou grosso couro, alguns outros com escamas, todos espargidos como um tempero equilibrado, que compõe sinergicamente o banquete de vida, todos no afã de sobreviver aos desafios, que igualmente estão entrelaçados, e que fazem parte inerente de qualquer sistema, no qual cada ser, para se manter e se perpetuar, deve fazer a sua parte, porque viver é um presente fácil de obter, mas sem esforço não se conserva.
Esse sistema equilibrado, cíclico, harmônico e delicado, certo dia, há pouco tempo atrás e não de forma incomum, sofreu uma ameaça, cujos resultados tendiam a ser irreversíveis, senão pela ação dos seres que constituem a fauna local; a floresta, ao sul e a oeste, começou a ser implacavelmente devastada pelo bicho bípede, que fede a fumaça, de pouco couro e cabeça grande, matando ou expulsando seus iguais nativos, muitos dos quais já foram mortos ou levados embora, de sorte que para os habitantes remanescentes, só restaria fugir para o leste.
Entretanto, a leste da mata, há uma grande elevação, e de lá estava avançando um grande incêndio, que em muito pouco tempo iria consumir esta fração de habitat.
Restaria, então, a fuga pelo rio que passa na base da elevação, que leva ao norte, onde ainda há uma densa e vívida floresta, e onde seria possível recomeçar a vida.
Para tanto, alguns animais que de certa forma, seja pela experiência, seja pelas habilidades, ou mesmo pela disposição, e respeitados pelos demais seres de lá, foram chamados pela Preguiça, a fim de que escolhessem a melhor forma de fugir para o norte, e escapar tanto do desmatamento, quanto do incêndio, na beira do rio, onde então se encontraram.
Além da Preguiça, compareceram a Anta, a Onça, a Ariranha, o Bugio, a Arara, o Lobo Guará, o Peixe Boi, a Sucuri, o Quati, o Tamanduá e o Tatu. E a Preguiça deu início às conversações, apresentando-se como mediadora:
— Senhores, agradeço a todos por comparecerem! Sei o quanto é complicado para cada um deixar suas rotinas de lado para esta reunião; mas tudo leva a crer que nossa forma de vida, com suas virtudes e fragilidades, pode estar nos seus momentos derradeiros. Existe uma saída para a nossa Fauna, mas isso só será possível se todos colaborarem, deixando de lado suas prioridades e diferenças, para que possamos chegar a um local seguro, porque o fim do nosso welfare state está chegando!
Antes mesmo de a Preguiça terminar sua fala, a Ariranha cochicha no ouvido do Quati: “Se fosse rápida para se mover como é para falar...”
Todos os presentes, de forma nada usual, puderam falar sem interrupções, e foram ouvidos pelos demais.
Então disse a Anta:
— Estou fora! Não faço outra coisa senão fugir da Onça, da Jaguatirica, da Sucuri, dos outros predadores, que não podem ver uma anca mais recheada, que já querem cravar os dentes! Quero que a Onça se dane, quem me garante que ela não vai dar cabo de mim e de minha família, quando a gente estiver distraída durante a diáspora? Aliás, a propósito, outro que quero distância é o Jacaré... Onde ele está?
De longe se ouve, então, a resposta do Jacaré, que não quis participar do debate: “Minha espécie sobrevive há dezenas de milhões de anos, e já superou outras catástrofes antes, ao contrário de muitas outras espécies de animais, bem maiores e mais fortes, e que desapareceram. Boa sorte!” E saiu nadando de costas, pois sabia que o rio estava infestado de Piranhas, que assistiam à reunião e teriam importante função no êxodo.
A fala da Anta gerou um intenso burburinho, porque a maioria dos presentes tinha muitas mágoas e ressentimentos, pela forma com que ela, a Onça, e os demais predadores agiam. A Ariranha, de novo, agora cochichando no ouvido da Onça, alimentando a tensão: “Você vai deixar barato?”, deixando furtivamente o local, mergulhando silenciosamente no rio.
Quem acabou fazendo coro com a Anta foi o Quati, que não perdeu a oportunidade de cutucar a Onça com a língua curta:
— A gente não tem sossego: um olho na fruta, outro vigiando; se a gente vacilar já era! É um estresse só viver aqui tendo que ficar o tempo todo preocupado em saber quando a Onça vai aparecer e me mastigar! A Sucuri é outra, que está quietinha, quietinha, mas se a gente piscar perde o fôlego e a vida! Também estou fora! Com essas aí, nunca vou me entender!
A Arara pediu a fala e ao mesmo tempo uma questão de ordem:
— A gente está discutindo o que fazer diante do fim do nosso habitat, mas não ouvi qual é a ideia para que a gente possa sair desta bananosa... Sem ofensa! - Disse, dirigindo-se ao Bugio, que não entendeu nada.
A Preguiça explicou:
— A ideia é a seguinte: os animais que andam, rastejam ou vivem nas árvores seriam transportados pelas Antas e pelos Peixes Boi, com ajuda também da Onça, da Sucuri e sua turma, numa corrente ofídica, que ajudaria os animais menores a nadar pelo rio em segurança. As Piranhas estão aqui porque se comprometeram a não atacar eventuais bichos que por conta da fuga venham a se ferir, embora eu tenha acabado de receber um recado dizendo que elas estão furiosas por causa do que o jacaré disse. O Passaredo, pelo barulho das revoadas, já foi: o Pintassilgo, o Pintaroxo, Melro, Uirapuru, foram; a Asa Branca, a Patativa, o Tordo, o Tuju, o Tuim, foram.
Nisso, a Ariranha interrompe:
— Você está cantando?
No que a Mediadora respondeu:
— Escapou, não resisti... Foi mal!
Esclarecimentos feitos, a Arara fez sua fala:
— A ideia é boa, e como acho que minha presença não vai fazer qualquer diferença nesta operação, acho que vou embora; posso, se quiserem, dar o alarme, se realmente essa catástrofe vier. Isso se o Bugio não fizer questão de fazê-lo. Fui.
O Bugio, pendendo entre um galho e outro, e achando estranha a calma com que a Preguiça estava lidando com o que parecia ser o fim daquela realidade, disparou:
— Você, Preguiça, fala muito e faz muito pouco! Está calma demais para quem corre o risco de morrer, não acham? Vai ver já tem um lombo adquirido, ou uma anca de primeira classe, e sabendo disso está fazendo cena aqui diante de nós! Não confio em você! Está mesmo é querendo mudar para uma árvore ao norte, e sabe que se tiver que fazer isso pelo próprio esforço e capacidade, vai levar a vida inteira, e não vai conseguir chegar! Não sou massa de manobra, estou fora!
E a assembleia – e é para isso que as assembleias servem – foi esvaziando, sem qualquer solução.
A até agora quieta Onça, assistindo atentamente a cada uma das falas, pediu a palavra:
— Sei que alguns não me acham muito inteligente, que atinjo meus objetivos porque abuso da minha força. Mas cada um aqui nesta floresta tem uma função, e cada um de alguma forma ajuda a melhorar as habilidades do outro. Se os predadores não existissem aqui, não haveria comida suficiente para todos os herbívoros, que se reproduziriam demais sem mecanismos de controle, e talvez morressem todos. Se tivessem somente predadores, na verdade deixaríamos de sê-lo, porque para isso precisamos das presas para predar. O esforço que nossas presas têm para fugir de nós é o mesmo que a gente despende para caçá-las, e cada dia as presas buscam melhorar seus reflexos e velocidade, e nos obrigam a melhorar nosso faro e paciência para escolher o melhor momento para dar o bote. Mas os herbívoros não precisam predar, pois seu alimento não foge, não salta; ao contrário, ou cresce do chão ou cai das árvores, graciosamente. E concluiu:
— E pelo que eu estou ouvindo, se for realmente verdade, tudo o que temos vai desaparecer. Mas, se a minha presença é tão indesejável assim, mesmo diante de uma emergência desta, então eu vou embora. Percebi que mesmo dando minha palavra a todos os presentes aqui, de que não atacaria ninguém durante a travessia, ninguém acreditaria mesmo. Tomara que tal desastre não aconteça. Até!
A Sucuri, que não parou de sibilar por um só momento, cacoete que adquiriu convivendo com a Cascavel, tomou a sua decisão:
— Vocês todos são muito enrolados, nem eu dou tantas voltas em torno do que é do meu interesse... Pelo visto, ninguém gosta de ninguém, e não são capazes de enxergar além do imediato; depois eu que sou cega! Essa enrolação me deu fome, vou embora! E sumiu mata adentro, esgueirando-se pela mesma trilha que a Anta seguiu momentos antes.
O Tamanduá, tentando demonstrar afeto e solidariedade, dirigiu-se à Onça, quando esta estava deixando o local:
— Venha, me dê um abraço, quem sabe a gente resolve isso de uma outra forma...
A Onça, que de pouco inteligente não tinha nada, entendeu o recado; mediu o desdentado de alto a baixo, e com um ar de desprezo, desapareceu mata adentro.
A Preguiça olhou para a clareira, e percebe que permaneceram apenas o Lobo-Guará, o Peixe Boi e o Tatu; e foi este o próximo a se pronunciar:
— Acho que tudo isso é puro boato! E mesmo que fosse verdade, é só cada um buscar a sua toca, esperar o desastre passar, e depois a gente volta. Não acredito nessa história de tragédia, de devastação; se fosse vocês, faria como eu: todos para o buraco! Essa mobilização é pura perda de tempo! Sou contra!
O Tatu, diferente de muitos, resolveu ficar até o final da reunião, para ver o que ia rolar, convicto de que nada iria acontecer.
O Lobo-Guará, naturalmente tímido, passou a palavra, sem graça e sem opinião definida.
E você, Peixe Boi - pergunta o mediador - o que me diz?
— Tô de booooa... O que rolar, para mim está bom. Enquanto isso, vou comer algo no fundo do rio...
A Preguiça estava realmente contando com uma força de algum lombo, de preferência da Anta, que é mais macia e não oferecia perigo posterior. O plano B era a própria Onça a qual, embora fosse potencialmente letal, talvez fosse a carona mais segura dentre todas na floresta. Sem planos ativos, sem mais ninguém para desfilar sua capacidade retórica e consciente do seu potencial de locomoção, ficou torcendo para que prevalecesse a opinião do Tatu.
Um breve momento de silêncio pairou sobre a conferência.
Ninguém abriu mão das suas convicções.
Ninguém quis abrir mão, ainda que por um tempo, de suas posições e opiniões a respeito dos outros.
Ninguém propôs nada melhor em troca do plano que fora apresentado.
Todos aproveitaram o tempo que tinham para desqualificar um ou outro, menos a Onça, o Peixe Boi e o Lobo Guará.
E veio o desmatamento, vindo do Sul e do Oeste, implacável, ensurdecedor e irreversível.
E veio o incêndio, vindo do Leste, implacável, infernal e inevitável.
Todos morreram.
Inclusive a Ariranha, que se achava esperta, mas acabou mordendo um objeto brilhante, que perfurou sua boca, sendo içada pelo bicho de duas pernas, que a matou com um golpe de outra coisa brilhante, cortando-lhe a cabeça.
O Peixe Boi, que tão de boa que era, deparou-se gentilmente com um bípede, quando subiu do fundo do rio para respirar; o Karaíba enfiou-lhe duas rolhas nas narinas, para que morresse por asfixia; afinal, destruir também dá fome.
Era o Fim.
Música do dia: “O Último Dia”, de Paulinho Moska




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