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VACINAÇÃO, OU VACINA NÃO?

  • Foto do escritor: Crounel Marins
    Crounel Marins
  • 19 de jan. de 2021
  • 6 min de leitura

Quando garoto, ao estudar o episódio da Revolta da Vacina, ocorrido no Rio de Janeiro de 1904, ponderava como, em menos de 100 anos, tínhamos saído das trevas da ignorância e de condições de saúde medievais para um país progressista e repleto de heróis na ciência e na tecnologia, como Santos Dumont, o pioneiro da aviação, e Oswaldo Cruz, o médico e sanitarista que, heroicamente, lutava contra o preconceito e a superstição. Lembrando que, quando eu era garoto, estávamos na década de 70, e o que ensinavam na escola, apesar de bem ensinado (pois professores tinham um maior respeito dado pela sociedade), não correspondia exatamente à realidade.


Mesmo com eventuais distorções, são fatos que o Rio de Janeiro da época era uma cidade atrasada em vários sentidos, assolada por todos os tipos de males, superpopulada para as condições de infraestrutura urbana existentes, e era a capital do Brasil. Como capital, era o grande palco político do país, e, bem, sabemos o que ocorre nos grandes palcos políticos!


O Presidente Rodrigues Alves liderava um grande plano de reformulação da cidade, no qual constava obras de engenharia e projetos de resolução, ou ao menos de mitigação, da catástrofe sanitária instalada na cidade. Febre amarela, peste bubônica (o que também significa grande quantidade de ratos, os roedores, não os políticos, responsáveis por outros tipos de mazelas), tuberculose e, entre outras doenças mais, a varíola.


A varíola é uma enfermidade com milhares de anos de comprovada existência, e com certeza uma das principais causas de morte por ação de vírus ao longo de toda a história, até o século XX. Também conhecida, popularmente, por “bexiga” ou “bexiga negra”, por conta das pústulas hemorrágicas que recobriam os infectados, na sua forma mais grave. Descrever todas as características da doença tornaria o texto nojento demais para algumas pessoas, por isso paro por aqui.


Apenas para ressaltar a virulência da varíola, sua transmissibilidade e letalidade, é bom frisar que foi causa da quase eliminação de civilizações inteiras nas Américas, inclusive de forma intencional. Em drinques macabros entre colonizadores e indígenas, inseria-se o vírus como um veneno coletivo, pois o espalhamento se dava de maneira muito rápida. Desta maneira, de astecas no norte, aos tupis-guaranis, no sul, a varíola, junto a outras enfermidades europeias, eliminou a maior parte das populações, facilitando para o desbravador civilizado seguir com seu projeto de moldar o mundo pelos desígnios de Deus. Aleluia!


Mas a varíola também atingia o homem branco, hétero e nobre. Ou seja, como enfermidade natural ou praga divina, por vários milênios a varíola personificou com protagonismo a peste, um dos quatro cavaleiros do Apocalipse.


Como num daqueles filmes em que grandes tiranias são derrotadas a partir do aparecimento de heróis, o destino da varíola começava a chegar ao final em 1749, quando nascia, na Inglaterra, Eduard Jenner. Mas vamos pular algumas décadas, chegando a 1796, quando, já médico britânico, Jenner desenvolveu a primeira técnica de vacinação contra a varíola. Como naturalista competente, dotado de grande poder de observação e de intuição, ele observou que mulheres vendedoras de leite, quando contraíam a varíola bovina, versão menos agressiva da doença, não desenvolviam a varíola humana. Desconheço o raciocínio que guiou Jenner para imaginar que a imunização humana podia se dar, simplesmente, com a inoculação, do líquido retirado de pústulas das vacas, em pessoas. O fato é que funcionou!


Conhecendo a história, torna-se até compreensível a reação de boa parte da população do Rio de Janeiro de 1904, contra a vacinação obrigatória proposta pelo governo. Como entender que ser injetado com pus de vacas doentes imunizaria as pessoas? Parecia mais coisa de pajés e curandeiros do que de médicos e cientistas. Lembrando que os vírus só recentemente tinham sido descobertos, e que ninguém sabia como atuavam, visto que DNA, RNA e outros conceitos de genética sequer eram conhecidos.


É conveniente citar que a Revolta da Vacina teve componentes políticos, inclusive expectativas golpistas, com muitos outros assuntos envolvidos. Não é de hoje, portanto, que problemas de saúde são tratados de forma partidária. A diferença é que agora temos um outro tipo de vacina, uma vacina mental, para acompanhar a vacina biológica. E essa vacina se chama informação.


Se com relação à vacina antivariólica nem cientistas tinham um nível de informação muito preciso, hoje temos todo tipo de informação mostrando como os vírus atuam, como as vacinas produzem imunidade, possíveis reações adversas e muita, muita evidência estatística.


Para mostrar a diferença, é só citar que no tempo em que Jenner começou a vacinar pessoas contra a varíola, nem os médicos tinham procedimentos dos mais básicos de assepsia, como a limpeza das mãos entre cirurgias! Imagine-se como seria um laboratório de produção de vacinas!!!


Hoje, vemos profissionais totalmente isolados do ambiente, com luvas, toucas, uniformes impermeáveis. Estar num laboratório de alta tecnologia biológica ou explorar o terreno de Marte possui muitas semelhanças, apesar das diferenças oriundas do ambiente externo.


Mesmo assim vemos atualmente, no Brasil e no mundo, movimentos antivacina com maior ou menor virulência, mas com muita coisa em comum, passando por teorias da conspiração, reações de xenofobia e muito, mas muito mesmo, interesse político.


São várias disputas ao mesmo tempo, contra e a favor da vacina, contra e a favor da vacina de tal país, ou de tal laboratório, por uma data simbólica para o inicio da vacinação, por onde guardar as vacinas, e tantas outras. É tanta disputa que às vezes se esquecem que para vacinar é necessário ter seringa, agulha, refrigerador, aplicador, e cada uma dessas coisas demanda outras, entrando no domínio de uma especialização moderna chamada logística.


Enquanto nos preocupamos com aqueles que se negam a serem vacinados, chegamos a esquecer de algo mais básico, ou seja, que no curto prazo não haverá vacina para todos. E provar isso é muito simples, é só olhar para as empresas que produzem as vacinas. Elas não estão disputando mercado entre si, nenhuma sai defendendo o seu produto, a sua tecnologia, como mais adequada e superior às outras. Num mundo capitalista, de intensa disputa por fatias de consumo, isso parece utópico.

Mas não é, o fato é que, no curto prazo, nenhuma delas pode atender à toda a demanda, o que produzirem por meses a fio, talvez por anos, já está comprometido. Por isso é até melhor que tenham concorrentes, e evitem tanto críticas quanto às capacidades individuais de produção, quanto questionamentos sobrea retenção do saber tecnológico enquanto milhares morrem.


No frigir dos ovos, os contrários à vacinação obrigatória poderiam economizar força por muitos meses, ou mesmo anos, pois a briga mais acirrada se dará para conseguir vacinas, de qualquer procedência, com qualquer tecnologia. Haverá tempo para verificar se algum vacinado se transformará num mutante reptílico ou ficará como zumbi, controlado por nanorobôs inseridos na sua corrente sanguínea, enquanto candidatos à vacinação procuram por alternativas, frente à escassez dos imunizantes. Eu mesmo tenho me perguntado, será que vacas pegam Covid-19?


O que me incomoda não é a existência daqueles que negam eficácia às vacinas, e que podem até atribuir a erradicação mundial da varíola não à vacinação, mas a algum fenômeno natural ou a um decreto divino. O que me incomoda é a quantidade de informação produzida no contrafluxo da ciência, da história e da perspectiva de manutenção da vida humana. Incomoda-me a falta de senso e a vinculação do tema a outros interesses que não os da saúde. Política e religião, nas suas vertentes negativas, conseguem ser piores que as grandes corporações, que tranquilamente vinculariam, se pudessem, o acesso à vacina aos que conseguissem pagar um preço máximo numa produção controlada por curvas de oferta e demanda. Até porque uma corporação não tem por princípio maximizar algum tipo de bem-estar dos consumidores, mas, antes disso, procuram maximizar o valor para o acionista. Já a política e a religião, idealmente, deveriam buscar o bem maior de todos, e não há bem maior que a vida. Infelizmente, a política atual visa mais a evitar os pretensos males da chegada de oponentes ao poder, e a religião, por muitas vezes, busca reservar os bens materiais aos seus líderes, para que os devotos possam alcançar, na outra vida, bens espirituais maiores!


Da descoberta da vacina da varíola à erradicação da doença foram mais de 170 anos. Podemos dividir este tempo por cem, para a Covid-19, ou podemos escolher conviver com esta nova praga por décadas, pelo menos, caso neguemos apoio a um esforço técnico quase sem precedentes na história humana. Novamente, serão aqueles que não estão nos extremos, mas que observam, comparam, buscam evidências e não se negam a repartir os conhecimentos que obtêm no processo, que podem fazer a diferença!


CROUNEL MARINS é Engenheiro e Bacharel em Direito pela USP, Doutor em Administração também pela USP, Professor, Escritor, Roteirista, e um grande e velho Amigo.



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Presidente Costa e Silva (regime militar) sendo vacinado contra a varíola pelo então ministro da Saúde, em 1967 - Acervo Estadão

 
 
 

2 comentários


waleme64
20 de jan. de 2021

O texto foi muito bem escolhido. Principalmente neste momento.

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waleme64
20 de jan. de 2021

O texto foi muito bem escolhido. Principalmente neste momento.

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