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Balada do Outro

  • Foto do escritor: Roger
    Roger
  • 29 de jul. de 2025
  • 2 min de leitura

O Inferno são os Outros”

(Jean-Paul Sartre)



O outro, sempre o outro.

Esse ser indefinível,

Esse ser polimorfo,

Da argila feita da nossa própria conveniência.


Quando me falta algo,

É dele que eu cobro.

Quando erro, e eu nunca erro,

É pra ele que eu aponto o dedo.


O outro — esse fantasma real,

Espelho que nunca reflete a própria culpa,

Tampouco a falta de consciência.


É ele que ocupa o lugar que deveria ser meu,

Que chega antes de mim sem que eu tenha me movido.

É ele que não dá seta, que para em fila dupla, que joga latinha no chão.

Que não recolhe as fezes do cão.


O mau exemplo para o filho.

É só o outro que dá.


Eu não.


Aquele que não me deixa entrar no metrô,

Ou pior,

Aquele que entra,

Mesmo quando eu não deixo.


O outro, sempre o outro,

É o obstáculo do meu caminho,

É o atraso da minha pressa,

É o peso da minha leveza fingida.


Ele atravessa devagar na faixa de pedestres,

Ou para o carro no amarelo,

Impedindo que eu ultrapasse no vermelho.

Que ousadia, a dele, claro,

Ser correto quando eu quero ser rápido.


O outro é comunista.

Ou fascista.

Ou nada disso — mas pouco importa.

O rótulo é meu,

A culpa é dele.

Eu nem sei bem o que digo, mas digo,

Porque apontar para ele

Me faz esquecer de mim.


O outro tem que ser perfeito,

O outro tem que ser bacana,

O outro tem que ser tudo aquilo

Que em mim só tem demanda.


E assim, vou seguindo,

Acreditando que o problema está lá fora,

Que o mal tem sempre outro nome,

Que o erro tem sempre outro rosto.


Nunca eu.

Sempre ele.

O outro.



Música do dia: “Quem roubou pão na casa do João?” (Cantiga Infantil) Eu, não…


2025 - RDA Eventos Artísticos - imagem concebida com auxílio de IA.
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