Ensaio Sobre a Exclusão
- Roger

- 11 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
“Me inclua fora dessa…”
(expressão imortalizada por um notório político brasileiro)
O fenômeno da exclusão não é uma novidade histórica, mas uma teimosia arraigada na experiência humana.
Remontando à virada da década de setenta para a de oitenta, do século passado (quem diria), um episódio ilustrativo lança luz sobre a sutileza, e por vezes a brutalidade, desse mecanismo social.
Em uma palestra, um missionário cristão narrava seu trabalho com comunidades indígenas nos rincões do país, um processo que envolvia a conversão e o ensino de novos cânticos de louvor.
Em dado momento, durante a execução de um desses corinhos, notou o visível descontentamento e o "semblante fechado" da maioria dos nativos. A razão, revelada após o questionamento, era categórica:
"O senhor cantou na nossa língua que nós não vamos para o céu, apenas vocês!"
A chave do mal-entendido residia na estrutura linguística nativa, que, ao contrário do português, possuía dois pronomes distintos para a primeira pessoa do plural: um "nós" abrangente, irrestrito, e outro "nós" restritivo, delimitado. O missionário, sem saber, utilizou o "nós" exclusivo ao prometer a salvação, transformando a canção de louvor em um hino de segregação.
Esse episódio singelo, mas profundo, expõe uma verdade incômoda: o Homo Bellicus – o ser humano em sua faceta seletiva e classificadora – demonstra uma prodigiosa capacidade de identificar peculiaridades e, a partir delas, atribuir valor diferenciado entre o "nós" e o "outro nós". A diferenciação entre iguais, usando critérios arbitrários, vagos ou aleatórios, em desfavor do grupo que se deseja marginalizar, é uma decorrência quase que natural.
A exclusão é a apoteose e a materialização dos pensamentos e atos sobre a noção do outro, o sutil grupo do “nós” restritivo estabelecendo distância e repulsa do “nós” geral.
Essas "virtudes" da classificação e da exclusão estão entranhadas no consciente e no inconsciente coletivos. Elas turvam a visão, mesmo dos mais atentos, e dão origem a mecanismos sociais que não apenas marginalizam, mas também internalizam nas pessoas a aceitação de que alguns não devem ter acesso ao que, em essência, é necessário ou universal.
A escassez, seja real ou artificial, torna-se uma ferramenta de poder. O ser humano tem a tendência de atribuir maior valor ao que é mais raro e, portanto, menos acessível a todos. Paradoxalmente, o desejo dos excluídos por aquilo que lhes é negado reforça ainda mais o valor do que é escasso, perpetuando o ciclo.
Ao colocarmos uma lente de aumento sobre os fenômenos sociais contemporâneos, a linha tênue da exclusão se torna visível em diversos contextos. Não se trata apenas da exclusão social ou econômica explícita, mas daquela que permeia estruturas que se pretendem inclusivas ou neutras.
A simples "dança das cadeiras" (onde a diversão reside justamente em quem ficará de fora), uma despretenciosa carteirada, o funil dos vestibulares, as divisões ideológicas extremadas que desumanizam o adversário, as barreiras invisíveis em certas denominações religiosas, ou a própria seletividade de instituições como prisões e manicômios – todos são exemplos que não apenas selecionam, mas, fundamentalmente, indicam quem será mantido à margem.
A exclusão é, muitas vezes, o ato fundador da pertença. Sem perceber, a dinâmica social nos leva a crer que primeiro fazemos parte para depois experimentarmos a rejeição, mas a realidade costuma ser a oposta:
Primeiro se exclui para depois se sentir incluso.
O sentimento de pertença a um grupo (o "nós" restritivo) só se solidifica plenamente quando há um "outro nós" que serve como contraponto, como o que ficou de fora da roda, do banquete ou da promessa.
No final das contas, o cerne da questão reside no temor da escassez – o receio, real ou imaginário, de que "não há lugar para todos". Esse temor é o combustível que incendeia o ímpeto humano de levantar cercas, sejam elas físicas, ideológicas, religiosas ou linguísticas.
A tragédia da exclusão reside não só no sofrimento do marginalizado, mas na forma como ela distorce a própria humanidade do grupo que se autodenomina privilegiado, reduzindo a complexidade do convívio social a uma eterna e dolorosa dialética entre o "nós" que acolhe e o "outro nós" que se repele.
Música do Dia: “Barrados no Baile”, de Eduardo Dusek







Pra ficar pensando a semana inteira sobre a sociedade brasileira...