Ensaio sobre a guerra - parte 2
- Roger

- 22 de abr. de 2025
- 3 min de leitura
"Nunca pense que a guerra, por mais necessária ou justificada, não é um crime."
Ernest Hemingway
Guerra: Um Negócio Bilionário e Sombrio
No passado, a fragilidade dos navios de madeira os tornava alvos fáceis para os canhões inimigos, resultando em danos irreparáveis e afundamentos. A busca por sobrevivência impulsionou o reforço dos cascos, tornando-os mais resistentes aos projéteis.
Em paralelo, uma corrida armamentista se intensificava com o desenvolvimento de canhões mais potentes, capazes de perfurar as novas defesas, que, por sua vez, exigiam materiais ainda mais resistentes.
Atualmente, essa lógica predatória persiste com a utilização de cascos de aço de alta resistência e projéteis de chumbo, aço ou urânio empobrecido – este último descartado para uso nuclear. Essa escalada armamentista consome orçamentos colossais de nações ávidas por deter as armas mais modernas e eficazes, em um ciclo vicioso de investimento e destruição.
Essa engrenagem bélica não surge por acaso.
Há quem idealize as armas.
Há quem as produza em larga escala.
Há quem as comercialize globalmente.
Há quem invista fortunas para adquiri-las.
E há quem as utilize nos campos de batalha.
As nações, entidades soberanas em seus territórios, demonstram um comportamento notável em suas relações internacionais.
Uma das características marcantes é a desconfiança mútua, onde cada país, vizinho ou distante, é visto como um potencial inimigo e uma ameaça.
Outra reside na ausência de alianças eternas, prevalecendo apenas interesses permanentes. Soma-se a isso a constatação de que nenhuma nação é autossuficiente, necessitando estabelecer laços com outras para garantir segurança, regular o trânsito de cidadãos, promover trocas comerciais e outros objetivos.
O comércio de instrumentos de morte, formalizado entre estados ou operado na ilegalidade, movimenta bilhões há séculos. Esse mercado sombrio abastece desde exércitos regulares até organizações criminosas, como traficantes, guerrilheiros, terroristas, assaltantes e grupos separatistas.
Na extremidade de quem está portando uma arma, uma vida está prestes a ser ceifada.
Curiosamente, alguns armamentos de poder destrutivo extremo são fabricados e vendidos sob a justificativa de jamais serem utilizados. O potencial de devastação humana, ambiental e de infraestrutura supera em muito qualquer ganho bélico imaginável.
Ainda assim, a produção e a venda continuam.
O que dizer, então, das armas convencionais, amplamente utilizadas com o objetivo primordial de causar dano físico, não apenas a combatentes inimigos, como evidenciam os conflitos contemporâneos?
A hipótese de que a guerra se tornou um produto não só ganhou força, como demonstrada está.
Essa perspectiva explica por que, independentemente do desenvolvimento, bem-estar social ou regime político, todas as nações investem pesadamente em defesa, adquirindo vasto material bélico. A constante e veloz inovação tecnológica alimenta essa indústria, gerando uma rápida obsolescência dos equipamentos e forçando os países a acompanharem essa corrida armamentista para não se tornarem alvos vulneráveis.
A similaridade com o mercado de bens de consumo, como a rápida obsolescência de celulares, não é mera coincidência.
Mas o lucrativo mercado da morte não para por aí.
A guerra como negócio também engloba a atuação de forças armadas privadas.
Antigos mercenários, que trocavam vidas por dinheiro desde tempos remotos, hoje atuam de forma regulamentada, organizada e profissionalizada em diversos países.
São empresas que oferecem, em seu catálogo de serviços, a capacidade de matar.
Esses exércitos privados, ou empresas militares privadas, oferecem serviços de segurança e defesa sob contrato. Seu crescimento é impulsionado pela demanda por forças especializadas para operações delicadas, que exércitos nacionais podem não ter capacidade ou autorização para realizar – o chamado “serviço sujo”, como a derrubada de governos. Suas funções variam desde treinamento militar e proteção de instalações até escolta de cargas e atuação em zonas de conflito.
Apesar de argumentos sobre sua capacidade de preencher lacunas em eficiência, a atuação dessas empresas levanta sérias questões éticas e legais, como a falta de transparência, a responsabilização perante leis internacionais e os impactos na soberania dos estados, expondo a complexa e obscura relação entre política, economia e segurança global.
Se a guerra é um mercado dependente da continuidade dos conflitos, a possibilidade de que alguns deles sejam criados artificialmente para aquecer esse mercado não pode ser descartada.
Principalmente quando quem lucra com a venda não se importa com as vidas perdidas.
Música do dia: "Geni e o Zepelim", de Chico Buarque.







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