Ensaio sobre a Morte
- Roger

- 5 de nov. de 2024
- 3 min de leitura
"A Morte é individual e intransferível"
(Roger)
Carnaval de 1978; o palco era a praia de Ubatumirim, situada a aproximadamente 35 km do centro de Ubatuba. Um destino muito popular entre campistas de todas as idades e regiões, conhecido por suas águas calmas, formato de ferradura, o verde exuberante e o espírito de solidariedade e cordialidade entre os acampantes, algo cada vez mais raro nos dias atuais.
Éramos 90 acampantes, alojados em barracas fornecidas pela Polícia Militar de São Paulo, com uma bandeira brasileira erguida na clareira central, conferindo um senso de autoridade local, especialmente sob o regime militar vigente à época.
Por uma razão justificável, fomos convocados, próximo ao meio-dia, por outros acampantes próximos, para presenciar um evento alarmante e, sem dúvida, chocante, que aconteceu bem perto de nossas barracas: o corpo de um jovem, de aproximadamente 20 anos, havia sido trazido à costa pelo mar, numa entrega macabra, rígido, com a pele azulada do tórax para cima, e seus olhos abertos fixos no céu, como se contemplasse o infinito, diante de muitas pessoas, variando de curiosas a perplexas e até aterrorizadas.
Sim, a morte estava lá, explícita e crua, sob a luz do dia.
Com o passar do tempo e entre diferentes culturas, a morte ganhou uma miríade de significados. Para alguns, representa a passagem para outro plano existencial, um renascimento ou um encontro com os ancestrais. Para outras, é o término definitivo, a extinção da consciência e a dissolução da identidade pessoal.
Certamente, é um bilhete que todos recebemos ao chegar a este mundo, e para o qual quase nunca estamos prontos para embarcar na jornada que ele proporciona.
As diversas interpretações refletem as crenças religiosas, filosóficas e cosmológicas de cada cultura, influenciando seus rituais fúnebres, visões da alma e entendimento do tempo e da eternidade.
As diferentes culturas apresentam variadas abordagens em relação à morte. Algumas sociedades celebram a vida do falecido com rituais festivos e elaborados, enquanto outras preferem um luto discreto e introspectivo. A maneira de lidar com a morte reflete a visão de mundo, os valores e as relações sociais de cada grupo.
O medo da morte é uma constante na humanidade, influenciado por fatores como a incerteza do pós-morte, a perda de entes queridos, a consciência da finitude, as dores associadas ao morrer, o temor do desconhecido e a angústia perante a mortalidade.
A morte nos confronta com questões existenciais sobre o significado da vida, a natureza da realidade e nosso papel no universo. A procura por respostas tem fomentado o desenvolvimento de filosofias, religiões e ciências.
Entender a morte vai além do biológico ou psicológico, abrangendo aspectos existenciais, espirituais e sociais.
Na era da banalização da morte, com a constante exposição a informações e imagens de vidas perdidas, parece que estamos lidando com ela de forma mais realista e pragmática. Contudo, isso pode refletir mais sobre nossas ações em vida e a desvalorização do presente do que sobre a morte em si.
A morte é um fenômeno complexo e multifacetado, difícil de ser plenamente compreendido. Nossa abordagem e enfrentamento são influenciados por crenças, valores e experiências culturais. Ao explorar as várias formas de entendimento, continuamos a buscar sentido para esse mistério da existência e, quem sabe, construir pontes de empatia e solidariedade, tanto com aqueles que estejam vivenciando o luto, ou quando, de forma indiferente, nos omitimos diante da dor de quem busca um caminho para sair da sensação de uma existência inanimada, só para dar alguns exemplos.
Música do Dia: "O Circo Místico", com Zizi Possi.

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Texto excelente, como sempre!
Deixo aqui três dicas de livros sobre o assunto:
1) Uma casa que não pode cair - Júlia Jalbut
2) A morte é um dia que vale a pena viver - Ana Claudia Quintana Arantes
3) Coisas ruins acontecem com pessoas boas - Harold S. Kushner
Um abraço!😉